Little Witch Academia, Hiroyuki Imaishi, e (muitos) cogumelos

Ou, “como nasceu o melhor episódio de [Little Witch Academia]”.

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Nos anos recentes, Little Witch Academia TV esteve entre os animes mais aguardados pelo público. A assinatura do estúdio Trigger, filho-caçula da Gainax, deixa até mesmo o otaku mais cético no mínimo atento ao que virá; mas é claro que LWA esteve, antes de qualquer coisa, amparado por dois filmes extremamente bem-sucedidos na recém-inaugurada franquia (um OVA e um longa; ambos completos no Netflix). O último, inclusive, foi parcialmente financiado com doações de fãs do mundo todo, através da plataforma Kickstarter, se tornando a primeira produção animística desse tipo a obter tamanha relevância – e, quem sabe, abrindo toda uma vertente dentro da tênue indústria de animes (ou assim eu espero/sonho).

Assim, a ansiedade pela estreia de um anime serializado de Little Witch Academia, somada a um enredo oscilante, por vezes pouco inspirado mesmo, tem contribuído com a massiva onda de decepção com relação a LWA TV. Tanto potencial, tanto pedigree, para recebermos uma série episódica? Que o fato de ser episódica não seja um problema, mas então seria o roteiro despretensioso até demais? Ou a falta de um conflito maior para as personagens da série? Aqui, peço a licença do leitor para confessar que apenas reproduzo as queixas que vejo internet afora, já que pessoalmente estou adorando esse ar “Tom & Jerry” que LWA TV apresenta. Inclusive, quem foi paciente, e não desistiu do anime, está sendo gradualmente recompensado com a formação de um plot central na série (claro, se isso lhe fizer diferença; a mim não faz).

No artigo de hoje, almejo defender Little Witch Academia TV como um todo, e para isso me focarei no ponto mais alto do anime até então. Me parece, com toda a justiça, que o episódio número 8 da série consegue unir tudo que há de mais pungente na proposta de LWA TV: bela animação, com a qualidade que se espera do Trigger, em histórias fechadas, episódicas, e com a desavergonhada comédia de referência presente na franquia desde o primeiro OVA – e presente também em algumas obras do estúdio desde sua fundação. Sem contar com o carisma de Sucy e sua quase diabólica mentalidade movida a cogumelos. A pessoa responsável pelo ponto-fora-da-curva atende por Hiroyuki Imaishi. E apesar de acreditar que o homem dispense apresentações, o farei apenas para emular sua habitual falta de delicadeza: ele dirigiu Tengen Toppa Gurren Lagann, Panty & Stocking with Garterbelt, Kill la Kill e Uchuu Patrol Luluco. E caso a personalidade rebelde e exagerada de Imaishi não te salte aos olhos com o estilo e a criatividade dessas obras, então espero que o oitavo episódio de LWA TV faça o serviço. Afinal, eu costumo pensar que Imaishi seja o homem louco que ele aparenta ser em suas produções e também em suas entrevistas, já que até mesmo seus maiores críticos concordam em uma coisa: ele não faz questão alguma de esconder suas influências.

Tenho visto discussões por aí a respeito do “espírito Gainax” – ou, pasmem, seu paradeiro –, porém é indiscutível que parte daquela rebeldia ainda existe, sim, no estúdio Trigger. E é claro que Imaishi é a incorporação dessa tendência transgressora, como percebemos sem dificuldade no episódio de LWA TV que lhe foi atribuído. Na ocasião, Imaishi fez o storyboard do episódio 8, algo que não aceitava convites para fazer desde 2011, no episódio 6 de Dantalian no Shoka (do Gainax). Aqui, trabalhando sob a supervisão de Yoh Yoshinari, percebemos que Imaishi recebeu total liberdade criativa, inclusive se gabando disso em seu twitter. E seu jeito de fazer comédia se alinha perfeitamente ao de Little Witch Academia. Tanto que o resultado final é magnífico: após tantos cogumelos, Akko e Sucy viajam por um universo (interno?) de referências à cultura pop, otaku, nerd… Akira, monster movies, Fullmetal Alchemist (Greed), o cinema mudo de Walt Disney, A Bela Adormecida, Silent Hill, O Laboratório de Dexter… Alguém fez uma lista completa? Estou citando de cabeça, e imagino que ainda há muitas mais! É sério, o episódio e sua gama de homenagens não têm limites.

 

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Essa talvez seja a coisa mais brilhante que já vi em toda a minha vida

 

 

Tudo começa quando Sucy, na tentativa de obter uma bebida energética, desenvolve uma poção que a faz adormecer indefinidamente – não sem antes ponderar se Akko, sua cobaia favorita, é quem deveria testar a eficácia do experimento. Na manhã seguinte, suas colegas despertam e descobrem que o quarto se transformou numa floresta de cogumelos gigantes. Com medo de terem problemas com as professoras da escola, Akko e Lotte decidem manter a situação em segredo e resolver tudo elas mesmas. Com um pouco de magia (e de violência também), Lotte consegue enviar a consciência de Akko para dentro dos sonhos de Sucy, de onde pretende resgatá-la.

Se o episódio já parecia insano o bastante, é na terra dos sonhos que as coisas realmente sairão do controle e conheceremos, de muitas formas, o inconsciente de Sucy. Talvez até mesmo uma discussão psicológica seja cabível aqui; afinal, enquanto Akko explora as intangíveis extensões da psique humana, sintetizadas na personagem Sucy, eventualmente ela chega a um tribunal e posteriormente à uma longa fila de incontáveis “Sucys”, que sobem uma colina em direção a uma guilhotina. Quando uma das Sucys na fila é questionada por Akko a razão da iminente execução, ela diz que aqueles são os traços da personalidade de Sucy que não podem emergir à superfície, que ficam reprimidos no inconsciente por inúmeros motivos. Ali conhecemos a “Sucy fútil que sonha com extensões de cílios”, a “Sucy que sonha ler Night Fall” (o equivalente a Crepúsculo, no anime), entre outras versões. Além da situação ser entregue de forma cômica, aqui temos também um Imaishi que tece comentários sobre o verdadeiro iceberg que é a subjetividade humana: revelamos tão pouco em função da nossa ideia de identidade, que mal podemos dizer que conhecemos a si mesmos.

Na jornada de Akko pelo Sucyverse (se ninguém tiver usado este termo antes, então o estou cunhando agora), ela é seguida por uma pequena versão angelical de Sucy, e outra endiabrada; se bem que, conforme se colocam nos ombros de Akko, fica claro que ambas Suzy-anjinho e Suzy-diabinho possuem a mesma tendência sádica e cruel. Mesmo nos seus pólos mais extremos, a natureza de Suzy parece apresentar o mesmo teor. Pelo menos com relação a Akko. Relação que, aliás, irá se convertendo no cerne do episódio enquanto Akko se aproxima de seu objetivo.

Uma vez libertas as Sucys que seriam julgadas e decapitadas, a de aparência mais inocente se revela violenta, e acaba por devorar todas as outras, criando um enorme monstro-Sucy. Sem a devida manutenção interna, por assim dizer, aparentemente as esferas mais profundas da personalidade de Sucy terminariam por englobar as de menor dominância e eventualmente colapsar todo o sistema.

A esperança final de Akko é despertar a Sucy “verdadeira”, acordá-la de seus sonhos dentro de seus sonhos(?), e trazer tudo de volta ao normal. Nessa sequência, é inevitável que nos rendamos à inventividade de Imaishi, já que ele faz uma referência cruzada entre A Origem e A Bela Adormecida! Nesse ponto, no clímax do episódio, devo intervir e admitir que não sou de shippar personagens, em nenhuma obra que acompanho (mesmo porque o grande shipping de LWA é, por alguma razão que desconheço, Akko+Diana). Contudo, o quase-beijo entre Akko e Sucy, na cena derradeira, me fez torcer pelo melhor. Afinal, se a criatividade de Imaishi e sua mistura imprevisível de traços e modelos diferentes alcança algo no episódio, esse algo com certeza é o impacto certo no momento certo, independente do estilo empregado. Como na fabulosa cena de perseguição, talvez o grande momento sakuga do dia. Quanto ao não-beijo, o grau de detalhamento e a abrangência de cores funciona não só como uma genuína homenagem aos clássicos da Disney, como também na criação de uma expectativa que (infelizmente?) não se concretiza.

 

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Foi a única maneira do mundo se esquecer de Hibike! Euphonium por alguns segundos… Eu sei, é difícil; Euphonium é mesmo fenomenal…

 

 

Considerando novamente o viés psicológico do episódio, nota-se uma dualidade interessante na cena: o fato de Sucy ser, ao mesmo tempo, a princesa E o dragão. Assim, temos uma Sucy que receberia o beijo e uma que tentaria impedi-lo. Por mais que, no último segundo, até o dragão se torne um shipper, e quem de fato impeça o beijo seja a própria Sucy Bela Adormecida. Enfim, é mais uma anedota interessante para um episódio rico em parábolas sobre a psicologia de personagens predominantemente divertidas e até caricatas, mas que com o “toque” certo se aprofundam belamente (com o perdão do trocadilho). Outra vez, é aptidão de Imaishi brincar com a complexidade dos personagens à sua disposição.

O único pesar é o seguinte: ao que tudo indica, esse episódio foi a despedida de Hiroyuki Imaishi de Little Witch Academia. Talvez essa forma de adeus tenha sido ideia do próprio Yoshinari, visto que ambos trabalharam juntos e arduamente no primeiro projeto de LWA – o longínquo OVA. Quanto ao destino de Imaishi, o que se sabe é que há um novo projeto em seu nome no estúdio Trigger. Porém, não encontrei informações em lugar algum, e ficaria feliz se alguém pudesse complementar este artigo caso saiba de algo! Usem os comentários como bem quiserem, amigos.

Por fim, imagino que um dia seja bom debater, não, talvez melhor seria dedicar um artigo inteiro à questão do “espírito Gainax”, visto que tenho notado opiniões difusas entre as pessoas. Estúdio Trigger (de Imaishi, Yoshinari, Masahiko Ohtsukaversus estúdio Khara (de Hideaki Anno): para onde foi o “espírito Gainax”? Para um dos dois estúdios em específico? Ficou 50/50, como em todo bom divórcio? O Gonzo ainda conta? Ou será que esse espírito é algo que se espalhou e se condensou em incontáveis estúdios e produções e animes? Será que o recente The Dragon Dentist trouxe alguma resposta? Isso é, caso o “espírito Gainax” ainda exista, já que vivemos outros tempos… Honestamente, não sei. Apesar de Hiroyuki Imaishi ser uma figura que me causa esperança, a verdade é que preciso estudar mais para me sentir à vontade para escrever sobre assunto tão denso. Melhor deixar pra lá, por agora; e ir aproveitando Little Witch Academia, enquanto aguardamos a próxima obra de Imaishi e seu estúdio Trigger.

 


 

E você? O que acha de artigos sobre bastidores? Gosta de discutir a indústria tanto quanto eu? Deixe seu comentário abaixo, pra nossa conversa sobre Little Witch Academia, sobre estúdio Trigger e sobre animação continuar! E certifique-se de voltar ao Otaku Pós-Moderno e à nova coluna de Estudos sobre a Indústria. Ittekimasu!

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