Adão Negro não é um filme do The Rock, mas bem que poderia ser

Foto: Divulgação/Warner Bros

Pense comigo: Dwayne “The Rock” Johnson vestindo uma blusa de botão apertada, com um senso de humor e ironia afiado, lidando com um perigo que em primeira instância pode machucar seus amigos, mas que eventualmente põe em risco a segurança do mundo. Certamente você lembra de um ou mais filmes assim, mas não exatamente qual, não é? Bem, uma boa e uma má notícia: Adão Negro, que estreou nos cinema brasileiros neste última dia 19, não é lá um desses “filmes do The Rock” com o qual estamos acostumados, mas bem que poderia ser — ao menos, um pouquinho mais.

Na mais nova entrada no cânone de super heróis dos cinemas da DC, o carismático e marombado ator encarna um papel mais sisudo na pele de um anti-herói, na acepção mais literal da palavra, acordado na Terra atual após milênios. Se por um lado o projeto — sonhado pelo próprio Johnson por anos — permitiu a ele explorar um “gênero” um pouco diferente em sua carreira, num papel levemente mais denso do que está acostumado, Adão Negro não consegue criar espaço para que seu protagonista brilhe fora de cenas de ação inundadas por efeitos especiais.

O filme de Jaume Collet-Serra passeia por conceitos como tirania, imperialismo, guerra civil, fascismo e a concepção do heroísmo, mas não consegue entregar substância ou arrematar qualquer um desses desses temas. No último, vai melhor. A escolha por sequências de ação e violência frenéticas — que devem agradar bastante o público que espera tais momentos — tiram tempo de tela que poderiam ser dedicados a um mergulho mais profundo ou numa maior exposição de Teth-Adam, suas questões pessoais e ideológicas, bem como suas relações com Adrianna (Sarah Shahi) e Amon (Bodhi Sabongui), os únicos olhos e ouvidos humanos da trama. É nos diálogos com o segundo que Johnson faz lembrar seu currículo nas telonas, com um timing cômico divertido e oposto a sua composição física, que ajuda levemente a aliviar a seriedade da trama.

A presença da Sociedade da Justiça, já anunciada nos trailers, chega a ser uma surpresa de tão extensa. Na virada do segundo ato para o terceiro ato, são os heróis que praticamente protagonizam o filme. É muito divertido ver Pierce Brosnan como um charmoso Senhor Destino (no maior acerto da direção de arte) e sua química evidente com Aldis Hodge, o Gavião Negro, que rouba a cena como antagonista, algo não tão difícil dado o péssimo vilão da trama. Assistir à interação dos dois com Adam, Cyclone (Quintessa Swindell) e Esmaga Átomo (Noah Centineo) agrada, nos dá vontade de ver mais. Mas apesar da conexão nos quadrinhos e possíveis futuras interações, o filme se propõe inicialmente a ser a origem do anti-herói, não exatamente do grupo de heróis.

Foto: Divulgação/Warner Bros

Quando precisa centrar em seu protagonista, Adão Negro patina. The Rock tem o apoio de um texto frágil, cheio de reviravoltas tardias e mal executadas por Collet-Serra. Visualmente e em questão de realização, o diretor parece mais preocupado em emplacar cenas de ação em câmera lenta acompanhadas por trilhas sonoras conhecidas do público do que impor qualquer assinatura. Um produto, sejamos justos, das demandas de executivos e público da grande indústria por trás destes filmes de heróis, ponto que é abordado e ironizado timidamente em alguns momentos deste.

Apesar de uma boa distração para uma tarde de verão, Adão Negro adiciona pouco de diferente aos já desgastados heróis nas telonas, em especial os do universo da DC/Warner. Para quem procura um blockbuster pipoca recheado de ação mais exacerbada do que a média, deve agradar. Para quem espera um pouco mais, como este que vos escreve, fica a sensação de que um pouco de “filme do The Rock” poderia salvar nosso protagonista enquanto ele tenta não salvar o mundo.

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