MAKOTO SHINKAI: UMA ANÁLISE FILMOGRÁFICA (PARTE 3 DE 3)

Através de uma diatribe em três partes, confira a dissecação da carreira de um dos diretores mais populares da atualidade. Nessa 3ª parte, é discutido se Shinkai tem a mão muito pesada, ao ser encarregado da direção, escrita, produção, storyboarding, design de personagens, direção de arte, fotografia, edição e até dublagem de quase todas as suas obras. Quais as consequências de tanto poder na mão de um homem só?

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Aviso: spoilers de Kimi no Na Wa (e de toda a filmografia de Makoto Shinkai…)

PARTE 3: UMA “AGENDA ROMÂNTICA”

Se algo pode ser afirmado sobre Makoto Shinkai, com certeza é o teor autoral de sua filmografia. Membro de um estúdio que lhe concede praticamente total liberdade criativa (a CoMix Wave Films), o diretor nunca abandonou seu padrão de produção. Isso é, desde a época, no fim dos anos 90, em que produzia seus curtas de forma caseira. Começando com Tooi Sekai, de 1997, até o mais reconhecido Hoshi no Koe, de 2002, Shinkai foi responsável por todas as fases de produção de suas obras. Do conceito à criação, e até mesmo divulgação e distribuição (sim, o jovem Shinkai fazia cópias de seus filmes em CDs e os vendia em eventos e convenções otaku!). O caso mais famoso certamente é o de Hoshi no Koe, concebido inteiramente em seu “Power Mac”, hoje uma máquina arcaica. Sua próxima obra, Kumo no Mukou, de 2004, já passou a contar com uma equipe de animadores e outros profissionais da CoMix Wave, refletindo num resultado final mais consistente do que em Hoshi no Koe. Mesmo assim, Shinkai ainda foi o homem que arcou com as funções de diretor, roteirista, produtor, storyboarder, designer de background e de personagens, e até compositor da música tema de Hoshi no Koe. Com o passar dos anos, sua abordagem multitarefas nunca cedeu. Mesmo Kimi no Na Wa, de 2016, ele dirigiu, escreveu, editou e criou os designs de cores e fotografia. Ou seja, aparentemente esse é o modo como Shinkai prefere trabalhar. Contudo, liberdade autoral não corre o risco de se fundir a uma agenda pessoal nesse caso?

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A personificação de workaholic?

 

Pense no seguinte exemplo: Satoshi Kon sempre se considerou um diretor autoral. Mesmo que alguns de seus filmes sejam creditados como “adaptações”, a verdade é que Kon apenas baseava-se vagamente numa ideia original. Perfect Blue e Paprika talvez sejam os únicos casos em que o diretor tomou como base uma obra na íntegra (os livros homônimos, de Yoshikazu Takeuchi e Yasutaka Tsutsui, respectivamente). Porém, com esses dois filmes, Kon revelou em entrevistas que modificou livremente o material original, preservando apenas sua essência. Assim, toda a concepção e retratação dessas histórias apresentam uma linguagem e uma simbologia características de Satoshi Kon. O que equivale a dizer que seus trabalhos carregam uma identidade própria, autoral – assim como ocorre com Makoto Shinkai. Desse modo, a breve carreira de Kon continua bastante influente na indústria, e há quem a considere brilhante.

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Satoshi Kon: uma carreira curta mas impactante

 

Entretanto, ao contrário de Makoto Shinkai, Kon não passa com seus filmes a sensação de ter uma mão pesada. Explico: por mais que ambos os diretores tenham claras as ideias recorrentes que desejam transmitir, Kon parece comunicá-las de formas mais subjetivas, utilizando-se de inúmeros recursos que permitam a liberdade de interpretação por parte do espectador. Por exemplo, em Perfect Blue acompanhamos a história de uma cantora idol que lentamente vai perdendo a sanidade conforme migra para a carreira de atriz e passa a ser perseguida por um stalker. No filme, as inúmeras referências visuais e narrativas permitem inúmeras interpretações ao espectador. O próprio final da história é completamente ambíguo. Kon utiliza-se de uma cinematografia muito rica, e cada simples tomada transmite uma quantidade tão vasta de ideias que poderia ser estendida em um filme próprio. Os símbolos mais frequentes em Perfect Blue são as mudanças de cores (a obra é predominantemente marcada por tons de branco no início, que vão ficando cada vez mais vermelhos conforme a protagonista se perde em sua mente, e mortes misteriosas começam a ocorrer ao seu redor), espelhos e lentes (o tempo todo refletindo, literalmente, um “eu” do passado para a protagonista). Toda a condução do filme é demarcada pela loucura e paranoia da protagonista. Mas esse arco também nos sugere alguns insights sobre toda a indústria do entretenimento, em particular a dos idol groups no Japão, garotas cujas vidas pessoais são ocasionalmente abaladas por pressões do showbiz e por stalkers descontrolados. Pode-se extrair, ainda, tópicos relacionados à psicologia e interpretação de sonhos, comportamentos obsessivos, distúrbios sexuais, sociedade de consumo, e assim por diante…

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O presente e o passado da protagonista se refletem em Perfect Blue

 

No que tange ao intento artístico, é impossível que um diretor possua controle total sobre os temas que pessoas absorverão de suas obras. Arte é uma via de duas mãos. Ao tocar num assunto como o excesso de exposição que idols sofrem, algum espectador de Perfect Blue poderia escrever uma tese sobre feminismo baseando-se no filme, por exemplo. Feminismo provavelmente não passou pela cabeça de Satoshi Kon ao criar Perfect Blue, mas a abrangência emocional e filosófica de seu filme permitiria que tal coisa acontecesse. Essa é a beleza da arte: essa troca, essa comunicação ininterrupta. Eu mesmo, sentado aqui apaixonadamente escrevendo sobre Makoto Shinkai e sobre intento artístico, quando tenho quase certeza que ele não teve a intenção de falar sobre intento artístico em seus filmes.

Mas voltando ao paralelo entre Satoshi Kon e Makoto Shinkai. Se Kon utiliza-se de recursos mais subjetivos para se expressar, a ponto de deixar alguns finais de seus filmes com conclusões em aberto, Shinkai por outro lado é tão objetivo que dói. Suas habilidades cinematográficas são limitadas – seu uso de cores nunca transmite nada além do básico (vermelho = urgência, verde = calmaria, etc.), sua linguagem visual é repetitiva (chuva = refúgio, espaço sideral = distância, etc.), sem contar com seus enquadramentos previsíveis, seus diálogos expositivos… Ou seja, é como se Shinkai “afunilasse” a gama de ideias, restringindo a abrangência de seu intento artístico. Assim como seus personagens são supérfluos, seus temas em geral também acabam sendo. E se esses mesmos personagens muitas vezes existem com o exclusivo propósito de amarem um ao outro reciprocamente, a própria linguagem subjetiva de Shinkai parece convergir para esse mesmo ponto. Pessoas, cenários, acontecimentos, diálogos – tudo carrega uma única mensagem no fim das contas. E qual mensagem?  “O amor é lindo e é a melhor coisa do universo. Mas às vezes dá errado, e não porque sentimentos humanos possuem nuances e são inconstantes e imprevisíveis, mas porque a vida é falha e entra no caminho desses sentimentos puros e perfeitos”. Pelo visto, é só isso que a filmografia de Makoto Shinkai quer nos dizer.

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Nevascas, trens atrasados… nada é um obstáculo para os personagens apaixonados de Shinkai!

 

Um contra-argumento se embasaria na natureza surrealista dos filmes de Satoshi Kon em comparação ao mundo mais realista e pé-no-chão de Shinkai. Mas, primeiro, nem toda a filmografia de Shinkai é necessariamente realista e pé-no-chão, já que há muito sci-fi envolvido e até mesmo uma obra fantasiosa no melhor estilo Ghibli. Sem contar que o próprio Satoshi Kon opta por uma abordagem mais mundana em Tokyo Godfathers, sem tantas cenas de alucinação como em seus outros filmes. Resumindo, a variação de interpretações de uma obra de arte pouco tem a ver com seu estilo, seja ele surrealista ou mais mundano.

E é a essa tendência de Shinkai, de restringir o leque ideológico e filosófico de seus filmes, que me referi acima como “mão pesada”. Shinkai raramente aceita a ideia de que o espectador tenha sentimentos próprios – ele parece te forçar por um caminho pré-estabelecido, e te conduzir àquilo que ele, como artista, possivelmente sente. Essa é a “agenda romântica” do diretor. Como se dissesse: eu, Makoto Shinkai, o último dos românticos, tenho determinada visão acerca do amor, e eu te digo que você deve assistir a meus filmes e compartilhar dessa mesma visão. A má notícia é que, se você não for manipulável pela agenda romântica de Shinkai, a filmografia do diretor irá passar quase em branco por você, e te fazer dormir em metade de suas obras (como aconteceu comigo…).

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Mitsuha inconformada com os roteiros previsíveis de Shinkai

 

Se essa tendência, se essa agenda romântica, advém de seu excesso de controle sobre suas produções, não há como sabermos. Entretanto, o que parece inegável é o apreço de público e crítica pelos filmes de Makoto Shinkai. E se personagens rasos, cinematografia tediosa e roteiros repetitivos fazem tanto sucesso, isso só pode significar que o apelo da filmografia desse diretor não reside propriamente na qualidade dessa filmografia em si, mas na receptividade emocional de seus espectadores. Ora, é como um show de mágica, certo? Você não vai a um esperando por respostas; você quer ter a ilusão. Você se excita pelo mistério. Shinkai não sai em praça pública com um megafone dizendo que amores recíprocos são uma utopia. Não, ele faz filmes visualmente cativantes, cujas histórias incitam as pessoas a se deixarem levar por seus sonhos românticos, sobre amores eternos com pessoas compreensivas, sobre um outro alguém que é exatamente como você, sua alma gêmea, pacientemente esperando para te encontrar em algum lugar, em algum dia distante, mesmo que do outro lado do espaço e do tempo, enquanto sofre sozinha as mazelas da existência… oh, Makoto Shinkai, desperte o adormecido sentimento de um amor impossível dentro do meu coração!

Enfim, como vimos anteriormente, há sim alguns méritos na filmografia de Shinkai: os personagens verossímeis de Kumo no Mukou, o bom roteiro de Kimi no Na Wa (baseado no acerto da fórmula “personagens intencionalmente vagos para facilitar a empatia do espectador”), cenários de fundo belíssimos (e com character designs compatíveis em Kimi no Na Wa), trilhas sonoras cantadas embalando as cenas mais marcantes e um excelente trabalho de marketing ao longo dos anos. Porém, me parece muito polarizadora a propensão com que o estilo Shinkai de cinema funcione tão mal para quem se sente um pouco mais cínico com relação à vida, e tão bem com quem apresenta inclinações mais românticas… E talvez seja por causa desse segundo grupo que Shinkai seja tão exaltado: pelo menos alguma parcela da humanidade está tendo exatamente aquilo que sonha com sua filmografia. Daí o hype. Daí os recordes de bilheteria. Daí a fama de “novo Miyazaki”. E assim por diante.

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Kimi no Na Wa: a mesma mensagem de sempre, só que executada à perfeição

 

Como conclusão, uma ressalva: não seria correto categoricamente inferir que, ou você é do tipo que aprecia Satoshi Kon, ou do tipo que aprecia Makoto Shinkai. São correntes cinematográficas distintas, mas ainda semelhantes, seja no foco em personagens, no viés autoral, no renome internacional desses diretores, na curiosidade que eles sentem por dramas humanos, entre outros incontáveis fatores. Eu, pessoalmente, aprecio ambos. Mesmo já tendo admitido que dormi em alguns dos filmes de Shinkai… Por mais que sua agenda romântica não me impacte em qualquer nível, e eu sinta um honesto prazer em ironizá-la, ainda assim o diretor não faz com que eu me sinta ofendido. Fora que eu legitimamente me diverti com Kumo no Mukou e Kimi no Na Wa. Para todos os efeitos, se você, leitor, chegou até aqui e ainda não assistiu nada de Makoto Shinkai (inclusive recebendo todos esses spoilers), recomendo que não perca mais tempo e dê uma chance ao diretor. Aliás, alguns de seus filmes estão disponíveis no Netflix. Apenas evite Hoshi wo Ou Kodomo. É sério, aquilo não serve nem pra piada. Quanto aos demais, pode assistir sem preocupações; e caso a agenda romântica de Makoto Shinkai funcione (ou não) com você, não se esqueça de retornar ao Otaku Pós-Moderno para curtir, compartilhar e deixar seus comentários nessa diatribe!

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