Verão Otaku – Dia 3 (ou, Gundam 08th MS Team parece não ter entendido o que é Gundam)

Esse me foi, afinal, um verão ruim para Gundam.

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(Confira aqui o Dia 1, o Dia 2 e o Dia 4)

Hoje eu assisti a uma série de Gundam que nunca havia assistido. No cinema! Alta definição, áudio perfeito, sessão cheia, clima gostoso. Hoje, perdão ó Deus Hitchcock, eu dormi no cinema. Eu fui fraco. Eu hesitei. Eu desrespeitei o princípio fundamental de ir ao cinema para contemplar o artista e sua arte e assistir à parada que me prestei a assistir. Mas era ruim demais, Senhor. Mobile Suit Gundam: The 08th MS Team é ruim demais.

Semelhante a Gunbuster, eu quis gostar da série, eu tinha tudo pra gostar da série. O sci-fi estava ali, os robôs gigantes, o orçamento, a animação mais que decente. Esta, aliás, segue o padrão de qualidade dos outros OVAs de Gundam, hoje clássicos, produzidos entre os anos 80 e 90, e focados em eventos tangenciais à guerra principal da franquia. Destaque para o episódio 6 – de um total de 12. Nele, os personagens centrais – o 8º pelotão da Federação, vide o nome da série – passam quase uma semana no deserto, à espera da passagem de uma nave inimiga, enquanto água e comida vão se esgotando. O uso de luz dura, que confere dramaticidade e estranheza ao ambiente, as tomadas em ângulos desconfortáveis e improváveis, a expressão desgastada no rosto dos personagens… tudo comunica ao espectador a situação incômoda do pelotão no deserto.

Lá em 1996, durante a produção de MS Team, os OVAs seguiam à risca o cronograma, a história ia tomando forma, um episódio belamente dirigido chamava a atenção. Mas eis que… o diretor da série morre(!). Animadores e outros profissionais admitem que Takeyuki Kanda sofria com o alcoolismo. Certa noite, enquanto voltava pra casa bêbado, bateu o carro e faleceu na hora. Umanosuke Iida, do estúdio Gonzo, é chamado como substituto. Contudo, a série não vai ladeira abaixo a partir disso. É pior. O episódio 7 JÁ É o fundo do poço. Desse ponto em diante, tudo é um poço constante. Ou isso é o que eu me lembro entre uma pescada e outra. A bem da verdade, porém, eu sentia que MS Team patinava desde o início. Eu só pensava que as coisas estavam sempre em cima do muro, e que sair de cima do muro, no episódio 7, foi a pior decisão possível.

 

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Em tempo, a mudança na direção da série causou sim certo impacto, me motivando inclusive a querer aqui registrá-la. Além da bela animação, é bem comum nos OVAs de Gundam, séries que levam anos a serem concluídas, que posições da staff se modifiquem e que acidentes ocorram. Stardust Memories, por exemplo, teve treta e demissão nos episódios finais.

Antes o problema de MS Team fosse a direção, no entanto. Eu diria que o mal da série é roteiro mesmo. Em português claro, o diálogo nessa série é abismal. Quase profano, mesmo. São alguns dos diálogos mais constrangedores e piegas que já vi. E os personagens também não são nenhuma maravilha. Ocorre que, pra um roteiro focado em personagem, pra uma trama nitidamente character-driven, o mínimo que deve-se exigir são personagens razoáveis com diálogos funcionais.

No Gundam clássico, era como se a guerra em si fosse o personagem principal, enquanto os dramas e conflitos de cada pessoa derivava e circundava a guerra como ponto de convergência. Em MS Team, temos o inverso: a guerra é o pano de fundo, enquanto o holofote ilumina os personagens, seus ideais e obstáculos. Portanto a superficialidade desses personagens, a infantilidade de seus ideias e o absurdismo de seus obstáculos, puxam a série pra baixo, pra um patamar bastante condescendente e até novelesco. E eu digo novelesco no mau sentido, pois todo mundo sabe que o grande barato de anime é o mesmo de novela mexicana: dramalhão. A ficção japonesa e a ficção mexicana são quase farinha do mesmo saco e é disso que nóis gosta! Mas tudo tem limite, né Gundam.

 

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E já que mencionei ideais infantis, quero reforçar que o divisor de águas nas batalhas de MS Team é a paixonite descabida entre nosso protagonista, piloto do Gundam da Federação, e uma princesinha de Zeon. Tem algo de Romeu e Julieta rolando na série, mas a escrita não é digna de Shakespeare, e sim do típico romantismo adolescente que a gente cansa de ver em adaptação de light novel temporada após temporada. Esse casal nem tem a decência de se beijar, mesmo durante o – puta que pariu – episódio de praia. Sabe, amorzinho de 14 anos me tira da obra, quebra minha suspensão de descrença; me faz lembrar do óbvio: que a coisa foi escrita por um japonês virjão. Eu não quero soar como um elitista que diz “eu assisto Gundam pelos temas adultos, blá blá blá”. Eu apenas perco a fé numa escrita que precisa usar de romance adolescente (entre adultos, por sinal) pra estabelecer posicionamento ideológico em conflitos verossímeis, como numa guerra mundial por exemplo. Desse tipo de roteirismo Hollywood já está cheia, e é por isso que eu mal assisto aos blockbusters. Gundam não precisa disso. Romance barato eu encontro em qualquer Sword Art Online da vida. Já na famosa Guerra de Um Ano, na qual o Principado de Zeon luta pela independência das garras da Federação da Terra… bem, eu esperava mais.

Quanto ao protagonista e os roteirismos afora, foi doloroso acompanhar o esforço da série em legitimar cada ação do cara. Se ele defende uma mulher, ele é feminista e um justiceiro social respeitável; se ele bate numa mulher, ela provavelmente mereceu. Foi um exemplo extremo, eu sei. Mas esse tipo de “forçação” é algo cotidiano em MS Team. Parece até que você precisa, você deve, como espectador, apoiar e torcer pelo protagonista, mesmo quando ele não merece. Afinal, ele sempre é justo e correto, ele sempre é admirado e exaltado pelo 8º pelotão, a ponto de roubar a cena em momentos críticos, momentos característicos de uma série de Gundam, quando um efeito dominó trás a guerra para a esfera civil e inocentes são mortos aos montes. Em pelo menos dois episódios, quando justamente o conflito armado atinge vilas e cidades, a câmera parece perseguir o protagonista, o roteiro se desdobra para revelar que o sofrimento dele é maior que o das vítimas inocentes, pois ele é o responsável por tirá-las. De novo, é piegas, é tendencioso, é… manipulador. E é cansativo. Por isso que eu dormi. Enjoei desse cara perfeito demais ocupando a tela sozinho e sendo aplaudido por personagens rasos.

Enfim, foi uma boa série. Não pela série ser boa. Isso não. Mas pela chance que ela me deu de elaborar um pouco esses meus sentimentos. Curioso, não? A gente se coloca na frente do trem só pra ser atingido e então apreciar cada minuto da dor. Sem essa série patética de Gundam, eu jamais teria sentido coisas ruins e escrito coisas interessantes. Espero que, para o leitor, o sofrimento também seja fértil. Com isso eu encerro o dia 3 desse Verão Otaku. Até o 4º e último encontro, amigos!

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3 comentários sobre “Verão Otaku – Dia 3 (ou, Gundam 08th MS Team parece não ter entendido o que é Gundam)

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