Verão Otaku – Dia 1 (Summer Wars, Gunbuster, Patlabor)

Tipo o Verão MTV, só que bom.

mask

 

(Confira aqui o Dia 2, o Dia 3 e o Dia 4)

Anunciada em cima da hora, a segunda edição da mostra Verão Otaku, um festival de cinema organizado em São Paulo pelo Centro Cultural do bairro da Liberdade, chegou com uma seleção singela de animações e filmes em live action. Na edição anterior, o tema da mostra parecia ser “coisas que pescamos na Netflix e que você provavelmente já assistiu” – obras como One Punch Man, Boy and The Beast, Gantz:O, O Castelo Cagliostro. Já em 2019, o foco está nas séries de mecha, o que prova não apenas que os curadores da mostra sabem o que mecha significa, como também sentem-se confiantes o bastante pra atrair um público mais… de nicho.

Quem já visitou o Centro Cultural, ou CCSP, sabe que o cinema deles é bem aconchegante. A sala dispõe de 99 assentos, uma tela e um sistema de som que não deixam a desejar, e um ingresso que custa um total de zero vírgula zero reais! Sim, pelo menos no Verão Otaku, a entrada é franca, o que te encoraja a gastar com comes e bebes sem culpa.

 

cinema-1

Sala Lima Barreto, no Centro Cultural São Paulo

 

Nessa série de textos, vou comentar sobre os filmes, séries e OVAs que escolhi assistir no evento, bem como sobre a minha experiência no geral com o lugar. Não pretendo ver tudo, mas listarei minhas razões para tal ao longo dos posts.

Pois bem, já que esse primeiro dia de Verão Otaku foi produtivo, vamos às minhas percepções quanto a Summer Wars, Gunbuster e Patlabor: The Movie.

 

Summer Wars

278c03b0de97260c9b2a23b49c9d0d22-anime-films-manga-anime

 

Apesar da empolgação, eu preciso admitir que a mostra desse ano começou com o pé esquerdo pra mim. Não só detestei o filme, como a própria reprodução da obra foi um tanto problemática. Vamos começar por este segundo dilema. Que o CCSP não me leve a mal, mas eu penso que eles tiveram uma ideia interessante, porém de execução duvidosa. Explico: Summer Wars foi exibido em formato 16mm, película, com filme de rolo e tudo. Só que o cinema não estava tecnicamente apto ao formato. O resultado foi uma proporção de tela bem menor que a ideal. O filme foi projetado num quadradinho, no centro da tela, com bordas enormes ao redor. Além da telinha incômoda a nós míopes, as legendas eram daquelas sem contorno nas letras, então qualquer cena com fundo branco ou amarelo demais as deixava ilegíveis. Mas isso era a imagem do filme, eu nem comecei a falar sobre o áudio… ou sobre o filme em si e as escolhas do diretor Mamoru Hosoda…

Pra facilitar, essas foram minhas anotações ali no calor do momento:

“Summer Wars -> headache inducing.

clímax longo demais, escala das coisas confusa, temas nem um pouco interessantes. pra piorar: áudio horroroso. plus: seria Hosoda um furry?”

É, o áudio estava um legítimo pesadelo. Esqueça Dragon Ball Super Broly. Aquilo é um elogio aos meus ouvidos quando comparado com o que passei com Summer Wars. Não sei se o formato analógico dos 16mm comprimiu o som do filme, ou se a mixagem de alguma forma foi a responsável. Talvez seja o caso de dar uma olhada na Netflix pra comparar, mas o ponto é que o filme é da Madhouse, um estúdio que dificilmente peca na parte técnica. O que me faz querer culpar o CCSP inconscientemente. Duas senhoras, ao meu lado, inclusive chamaram o “lanterninha” do cinema e perguntaram a ele se era possível abaixar o volume do filme(!). Antes fosse volume o problema; era áudio mal comprimido mesmo, som mal equalizado no estúdio, deduzo que na conversão de formato.

Quanto ao filme em si… olha, eu quero tanto gostar do Hosoda. Ele tem estilo próprio, ele manda bem nos storyboards, ele tem orçamento, os furries dele têm carisma… mas alguma coisa, cara, alguma coisa não me cai bem nos filmes dele. Apesar de gostar do longa de Digimon e de Boy and The Beast, eu sinto que o último ato de um filme do Hosoda dura metade do filme. A “batalha final” sempre é muito cansativa, os temas se desgastam ou simplesmente se embolam e perdem o sentido, e a cena final costuma ser piegas demais pro meu gosto. Toda vez. A questão é que Summer Wars já me entediava desde a primeira hora, com sua centena de personagens unidimensionais, sua falta de clareza quanto aos riscos (o filme vai de baito e “paixonite de verão”, pra catástrofe nuclear global), e sua insistência na importância da família e da “união entre as pessoas em nome de…?”. O mundo acaba em Summer Wars? Generi-kun fica com sua paixonite? Família é tudo que importa meudeus em todo o universo meudeus como família é importante? Sei lá. Foda-se. Eu saí da sala antes desse filme boboca terminar. Poupei meus ouvidos e ainda tomei uma tubaína na lanchonete lá fora.

 

Gunbuster

image03

 

Eu quase amei Gunbuster. Faltou pouco. Bem pouco. Vamos às minhas anotações?

“Gunbuster: progressão agradável por 3 eps e escala absurda por mais 3? Gainax ainda não sabendo executar um bom Gurren Lagann? estreia de Anno, não gostei muito de cara, mas pode ser que cresça em mim.”

Pois é. Gunbuster tem tudo aquilo que um bom sci-fi precisa ter: estética oitentista, algo de niilista porém algo também de místico e esotérico, questionamentos sobre o sentido da vida humana (se é que há um) diante da imensidão do tempo e do espaço, ponderações sobre a nossa mortalidade e a da Terra, delimitações quanto à consciência do homem vs. da máquina, etc. Tudo isso está lá, junto da ostentosa animação dos primeiros anos do Gainax, com a metalinguagem e as homenagens típicas do estúdio e de Hideaki Anno a coisas como Gundam, Miyazaki, Star Wars, 2001: Uma Odisseia no Espaço, entre outros clássicos de Hollywood e dos animes. Aparece até um poster do Van Halen em dado momento!

Porém, outra vez o aspecto “festival” do Verão Otaku me deixou desanimado. Na sessão, vários grupos de otakus vibravam e reagiam à obra. Pode ser que o horário (17:10) tenha atraído mais gente, ou pode ser que fãs de Anno e do Gainax tenham feito peregrinação até o CCSP. Eu jamais imaginaria que Gunbuster tem um status cult aqui no Brasil, como é nos Estados Unidos, por exemplo. Não sei qual foi a brisa desses caras; o que eu sei é que a cada explosão e a cada peitinho que balançava, eu já me sentia des-imerso na obra, pois já esperava por gritos e comemorações como se fosse um gol do Japão sobre o Brasil.

Sobre a exibição, os curadores da mostra foram engenhosos: cortaram fora as músicas de abertura e encerramento, e transformaram os 6 episódios que compõem Gunbuster em um único “filme” de três horas de duração. Imagino que também será assim no sábado e no domingo (26 e 27/01), dias de Evangelion e Gundam 08th MS Team, respectivamente.

Uma pena, no entanto, eu não ter amado Gunbuster. Achei que seria o caso, lá pela metade do percurso. A história é um coming of age até esse ponto, e nossa protagonista sofre perdas cruéis. Mas vocês conhecem o Hideaki Anno. Não conhecem? Gunbuster vira uma batalha pela galáxia, com direito a uma explosão nuclear que transforma Júpiter num buraco negro, e um episódio final inteiro em formato wide screen, em preto e branco, cheio de quadros estáticos, que avança o enredo em 12.000 anos no tempo. Agora eu entendi de onde o Imaishi tirou Gurren Lagann – e de onde o próprio Anno tirou Eva, poucos anos depois. Mas aqui, em Gunbuster, tudo só soa… flácido. Mas vai que o tempo e a reflexão, e uma eventual reassistida, não me convertem num otaku que assiste Gunbuster aos gritos junto de outros fanáticos, não é mesmo?

 

Patlabor: The Movie

patlabor1_themovie_008.tiff_

 

“Mamoru. fucking. Oshii.”

Foi tudo que anotei. Yep. Esse é o Mamoru que vale a pena. Não o Hosoda. Esquece ele. Ele não sabe nada. Ele nem tá ligado. Ele só gosta de furries. O Oshii sim. Ele sabe de tudo. Ele entendeu a porra toda. Trigger vai salvar os animes? Esperem sentados. Oshii já salvou os animes há 30 anos. E vem salvando a cada filme novo dele que eu descubro.

Na franquia Patlabor, Oshii dirigiu dois filmes (o segundo vai passar terça, 29/01, no Verão Otaku), além de uma série de OVAs chamada Early Days. Ele também tem crédito como roteirista em uma das séries de TV. No entanto, é como diretor que o homem realmente brilha. Pois o filme de Patlabor foi a redenção nesse primeiro dia de evento; foi impecável, da primeira à última cena.

Há uma sensação única que permeia os filmes de Oshii, quase um senso de continuidade entre uma obra e outra, mesmo com décadas de distância. Mesmo quando o diretor adapta mangás. Ou até livros, como no caso de Sky Crawlers. Pois Oshii não é apenas autoral, ele imprime um ritmo autoral às suas obras. Só ele poderia dar uma espécie de convergência emocional e tonal a produções tão diferentes entre si, como o cyberpunk Ghost in the Shell, o good vibes Patlabor, o depressivo Sky Crawlers e o etéreo Tenshi no Tamago. Nenhum desses filmes deveria ter coisas em comum, então como e por quê eles têm?

Simples. Oshii é um diretor consistente. Ele não hesita quanto aos meios de transmitir sua mensagem. Não é só estilo. Oshii evolui, filme após filme, no uso da luz dura em cenas melancólicas ou contemplativas; na movimentação lenta porém constante da câmera, como se o público fosse um voyeur; em um diálogo explosivo no terceiro ato, que canaliza a essência da obra; em personagens que se expressam muito mais através do olhar e do movimento do que da fala; em debates filosóficos que acontecem inteiramente em segundo plano, geralmente através de símbolos cristãos. Meu deus, eu posso ficar o dia todo elogiando a direção desse cara. Semelhantes nessa consistência, nessa clareza de comunicação, eu só consigo pensar em diretores como Satoshi Kon, Hayao Miyazaki e Akiyuki Shinbō.

A isso, soma-se a regularidade na staff. Kenji Kawai é produtor musical, salvo engano, em toda a filmografia de Oshii. Kazunori Itō roteiriza quase tudo que Oshii dirige, e o estúdio Production I.G esteve em seu auge nos anos mais produtivos do diretor. Ninguém faz anime sozinho – exceto o Makoto Shinkai – e portanto é de se esperar que uma staff de confiança e um estúdio seguro garantam uma filmografia brilhante para um diretor brilhante. Patlabor: The Movie já é um dos melhores filmes que vi em 2019. Graças a Mamoru Oshii.

 


 

O Verão Otaku continua na sexta, dia 25/01. Contudo, só pretende assistir a um filme: o das Guerreiras Mágicas de Rayearth. O dia também terá Pacific Rim 1 e 2. O primeiro eu vi há pouco tempo – e inclusive analisei aqui no blog –, enquanto o segundo não me desperta interesse devido à ausência de Guillermo Del Toro. Mas ainda há muito festival pela frente. Vejo vocês logo logo, nesse tórrido e inigualável Verão Otaku!

Anúncios

3 comentários sobre “Verão Otaku – Dia 1 (Summer Wars, Gunbuster, Patlabor)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.