Unindo Direção de Arte e Caracterização de Personagem em Fate/Stay Night: Unlimited Blade Works – ou, o único episódio que eu gosto de uma franquia inteira

Posso ser autoindulgente uma vez na vida? Eu escrevi 4.000 palavras sobre Fate/Stay Night e fui forte o bastante pra não fazer NENHUMA menção às pernas da Rin ou às meias 7/8 que ela usa. Até agora. Deus, como eu amo meias, cara, cê é louco…

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O primeiro episódio, da primeira temporada de Fate/Stay Night: Unlimited Blade Works (que chamarei simplesmente de Fate UBW), é um desses especiais de longa duração – com um total de 50 minutos. E, devo dizer, 50 minutos de televisão de qualidade. Mesmo assim, culpe a prepotência e a pompa da franquia Fate como um todo, mas é no mínimo curioso o anime contar não com um, mas com três episódios nessa primeira temporada com tamanha duração. Sem mencionar a desnecessária contagem oficial dos episódios, que considera a estreia do anime como episódio zero; chamando o segundo episódio de episódio 1 e assim por diante. Eu sei que isso se espelha nos prólogos da visual novel original de Fate, mas… é muita frescura, né?

Enfim, já que comecei com o pé no peito, adereçando um pouco da minha implicância pessoal com Fate/Stay Night, devo, antes de qualquer coisa, confessar que não odeio a franquia. Também não a amo, é verdade. Ou… pelo menos não me sinto intelectualmente atraído por ela. Meu interesse, meu certo fascínio com Fate, é um tanto visceral. Quanto mais penso e analiso e escrevo a respeito, menos elogios consigo conceder à franquia. Tudo nela simplesmente se dissolve quando você raciocina um pouco. Mas há um sentimento de falsa nostalgia que sempre me faz retornar a Fate/Stay Night nos últimos anos. É como se meu eu adolescente, lá dentro de mim, soubesse que, caso tivesse descoberto Fate lá em 2004, quando a primeira visual novel foi publicada, a franquia imediatamente teria se tornado minha coisa favorita no mundo. Hoje, depois de velho, eu exploro Fate com olhos mais críticos e experientes. Mas se essa franquia tivesse caído na minha vida uma década mais cedo… Toda a autoimportância e solenidade e concepção estética de Fate como um todo teria me comovido e me convertido em fã NA HORA. Aquilo teria atingido minhas inseguranças juvenis em cheio. Mas eu descobri Fate tarde demais pra me manter cego aos seus defeitos.

 

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Disponível também na versão com cenas de sexo constrangedoras para maiores

 

Hoje, se posso ressaltar coisas positivas a se extrair da franquia, considero a direção do anime de Fate UBW algo digno de nota. Pra não extrapolar demais, darei foco ao primeiro episódio da obra e falarei especificamente sobre sua direção de arte, e sobre como ela consolida a caracterização da personagem Rin Tōsaka, protagonista do episódio. Mas antes, a pergunta: o que é direção de arte? Bem resumidamente, direção de arte se refere a tudo na tela que não seja personagem. Montei a imagem abaixo para orientar o leitor. A maioria das cenas, em qualquer anime, será composta pelo primeiro plano (1) – onde interagem um ou mais personagens –, segundo e, por vezes, terceiro plano (2)(3) – onde se situam os elementos que figuram o cenário. Assim, pra ser sucinto, dizemos que a direção de arte lidará com o segundo e o terceiro plano na composição dos quadros. A função conta com um profissional próprio, o diretor de arte, alguém habituado a compor os cenários de animações. No caso de Fate UBW, esse homem é Kōji Etō, que fez um excelente trabalho em Steins;Gate.

 

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Em tempo, tenho pra mim que o aspecto visual de Fate UBW e de outros animes do estúdio ufotable costuma ser “ame ou odeie”. Digo isso pois há quem critique a fotografia de uma série quando na verdade se refere à direção de arte, e vice-versa. Para maiores esclarecimentos técnicos, recomendo este texto, em que abordei o famoso “azul ufotable” e algumas escolhas de direção usuais do estúdio.

Voltando ao assunto, a vantagem da direção de arte em Fate UBW, e uma exceção nas outras adaptações da franquia, é conseguir injetar vida no dia-a-dia dos personagens. Visual novels, via de regra, tendem a exagerar na exposição. Seja em diálogos, descrição de objetos e cenários, sentimentos e assim por diante. Essa, inclusive, é a característica que mais afasta os curiosos da mídia, mostrando-se sem dúvida uma barreira cognitiva a possíveis novos fãs desse tipo de leitura. Visual novels podem ser verborrágicas, prolixas ao extremo, e apresentarem diálogos cheios de redundâncias. É um estilo de prosa que costuma se apoiar bastante no fato de que o leitor vê os personagens e os cenários, mas não a ação. Desse modo, o texto de uma visual novel precisa se contorcer para encurtar a distância entre o que aparece na nossa frente, como num anime, e o que só pode ser imaginado, como num livro. Para um leitor novato, pode inclusive ser bem desconfortável a limitação nas poses dos personagens, que não são mostrados fazendo aquilo que dizem estar fazendo em seus diálogos.

A adaptação de Fate UBW, pensando em tudo isso, dá atenção especial ao “diálogo interno” dos personagens – que tende a ser incessante e superexpositivo em visual novels – transformando-os em ações de fato e não em meras descrições mentais. No entanto, nem tudo são flores na direção de Fate UBW. Por exemplo, mais ou menos na metade desse primeiro episódio, quando Rin chega à escola, ela conversa com uns quatro personagens em sequência, e cada diálogo é disposto e conduzido como se a coisa fosse uma visual novel, e não um anime. Talvez a intenção fosse homenagear o material fonte, ou adicionar um pouco de familiaridade e até fanservice aos que leram Fate. Mas eu não penso que a execução tenha sido a mais correta, pois ela quebra a sensação de realidade na trama. São diálogos duros, formulaicos, sem qualquer naturalidade. Sem contar com a atuação dos personagens, que de repente se tornam restritas um à resposta do outro, uma peculiaridade bem demarcada em visual novels. Essas falhas vão de encontro ao resto da manhã que Rin vinha tendo até ali: tudo perfeitamente plausível, com a personagem organizando o dia em sua cabeça enquanto sai da cama, pensando na morte da bezerra enquanto tomando um chá antes de sair de casa, caminhando sozinha até a escola. Todas coisas que qualquer um pode entender e se relacionar.

 

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Como seres humanos conversam mesmo?

 

Quanto a esses momentos solitários de Rin, será dentro da casa da personagem que a direção de arte mais irá se destacar. O comum, em linguagem cinematográfica, é colocar a câmera minimamente próxima dos personagens quando em ambiente fechado. Isso possui duas funções principais. Primeiro, nos fazer sentir em contato com o personagem, como se estivéssemos com ele no cômodo. Desse modo, podemos ter empatia e ver suas reações em detalhes. A segunda função é evitar distrações; os móveis e adereços da casa servem apenas para complementar o que sabemos sobre o personagem, caracterizá-lo, e não roubar os holofotes. No entanto, o enquadramento de Rin, dentro de sua casa, é sempre o mais aberto possível, revelando cômodos pouco iluminados, espaçosos porém vazios. Todos os ambientes da mansão Tōsaka parecem empoeirados e mortos. A penumbra quebra a sensação de intimidade que esse tipo de cena deveria nos passar. Pelo contrário, o que sentimos é estranhamento, distância, desconforto. Algo que talvez a própria Rin sinta. Ela é jovem e ativa, mas mora num lugar velho e triste. Até o ar da mansão parece estagnado, como o de um museu. Em certas tomadas, vemos a personagem através das janelas, do lado de fora da situação, e é claro que essas janelas estão sempre encardidas, turvas. Mesmo do lado de dentro, até os espelhos estão sujos e envelhecidos. A câmera que passeia pela mansão Tōsaka o faz de maneira vagarosa, fria, quase impessoal. E a própria invocação de Archer no episódio, apesar de movimentada e um tanto destrutiva, logo é amortecida pelo status quo da mansão. Digo, quem limpa a bagunça, sabe-se lá como, é Archer mesmo. E talvez a falta de explicação lógica seja uma dessas pequenas conveniências no roteiro de Fate, mas eu gosto de pensar que essa resolução indique uma intenção narrativa quanto à atmosfera da casa. Como se a própria casa tivesse se regenerado. Como se a linhagem Tōsaka sempre se autocorrigisse.

 

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Certamente, a presença de Tokiomi Tōsaka, pai de Rin, e com ele a linhagem Tōsaka como um todo, ainda pairam sobre a casa. Prova disso são os relógios que se ajustam sozinhos quando a personagem descobre alguns segredos no sótão, algo típico de um filme de terror. A metáfora é óbvia: tanto Rin quanto a própria casa ainda vivem no tempo de Tokiomi, seguindo os ponteiros do patriarca. Anos antes, na guerra retratada em Fate/Zero, ele é traído e morto; enquanto a mãe de Rin, Aoi Tōsaka, é vista pela última vez numa cadeira de rodas, sofrendo de alguma espécie de paralisia cerebral depois da perda de Sakura, irmã de Rin e seu único parente vivo. Sakura, como também é mostrado em Fate/Zero, é “doada” à outra linhagem de magos da cidade de Fuyuki que não possui herdeiros aptos no momento – a família Matō. Portanto, ainda criança, Rin precisa lidar com a morte do pai, com a doença crônica da mãe, com o peso de um legado centenário e com a ideia de que nunca mais poderá se aproximar de Sakura devido ao pacto entre as famílias. Ela vive cercada de fantasmas. Devota às rotinas de treinamento que traçou pra si mesma, Rin sabe que seu destino é lutar na próxima guerra, como uma representante da linhagem Tōsaka. O problema é que as guerras em Fate não possuem data marcada: tudo depende do aparecimento do Santo Graal. Isso força os usuários de magia a estarem sempre em estado de alerta, vivendo cada dia como se a paz estivesse prestes a ter fim. A expectativa, dentro da mansão Tōsaka, é de que a guerra pode começar no dia seguinte.

Num ponto intermediário da obra, Rin inventa uma complexa desculpa, como é típico da personagem, para passar a noite na casa de seu parceiro na guerra e protagonista de Fate, Emiya Shirō. Antes de irem dormir, Rin tem uma conversa reveladora com Shirō, na qual admite que não se sente à vontade dentro de casa. Ela inveja a casualidade com que o pai adotivo de Shirō trata o fato de haver magia no mundo; e a forma como Shirō repete o comportamento de Kiritsugu. Na ocasião, Rin mantém seu costume de elogiar a ignorância de Shirō. Mas o faz sem tanta agressividade pela primeira vez na história. No entanto, ela ainda desconhece os outros fardos carregados pelo seu parceiro. E mesmo enquanto se abre, Rin ainda omite muita coisa sobre o contexto em que foi educada e treinada. É um diálogo bem interessante – algo raro em Fate – por conter tantas nuances e por se desenrolar aos tropeços, como de fato fazemos na vida real quando tentamos nos aproximar de alguém desconhecido. Pra todos os efeitos, Rin só consegue confiar em Shirō nessa cena pois o ambiente a acalma. E falar sobre a sensação de que as portas da casa de Shirō são convidativas me parece uma metáfora pra sensação que ela mesma, Rin Tōsaka, está tendo com a mudança de entorno.

 

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Eu que não vou limpar essa janela nojenta

 

No mundo de Fate, a casa de um mago é também sua base durante uma guerra. Questões estratégicas são levadas em conta quando um mago escolhe onde vai morar. Localização, altitude, disponibilidade de recursos, possibilidade de envolver inocentes; Fate, com sua inclinação aos RPGs, costuma não economizar no detalhamento desses aspectos táticos. Assim, Rin se impressiona com esses elementos na casa de Shirō, mas se impressiona ainda mais com a leveza que encontra do lado de dentro. Não há conhecimentos ancestrais que precisem ser defendidos ali, não há selos de família ou joias de antepassados. Por outro lado, para a pequena população da cidade, a mansão Tōsaka é conhecida como uma casa assombrada. E Rin não é nem mesmo capaz de discordar. Ela sabe que mora num lugar que rejeita visitas com a mesma força com que rejeita invasores. Rin, semelhante à mansão, mostra uma fachada assustadora, e a essa altura é difícil dizer se foi sua personalidade que se adaptou a seu entorno ou se foi o contrário. Para a personagem, o senso de dever e honra é tão fundamental à sua identidade que pouco importa descobrir se o legado Tōsaka é bendito ou maldito. Herdá-lo vem em primeiro lugar.

Já que me referi à “fachada assustadora” de Rin, perceba que falo muito mais sobre a aura da personagem do que sobre sua aparência física. Mencionada pelos demais alunos como a idol da escola, Rin é aquilo que você já imaginou: inteligente, rica e boa atleta. Apesar disso, ela não tem nenhum amigo. Ela é solitária, mas é porque todos a veem como inalcançável. E ela é mesmo inalcançável, já que mostra um ar de que está acima dessa vida escolar banal. Rin nem mesmo precisaria frequentar a escola, pois sua formação como maga é o que sempre importou. A escola e outros assuntos mundanos são um passatempo para a personagem. Ainda que, num nível inconsciente, um cotidiano comum para alguém de sua idade seja exatamente o que Rin procura – além da chance de vigiar Sakura.

 

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Rin e Sakura: em momento de proximidade forçada entre as duas, repare como a câmera se afasta e as envolve nas sombras

 

O intrigante sobre a personalidade de Rin é seu investimento nas coisas. Ou melhor, como ela escolhe investir nas coisas segundo suas prioridades aparentes. Explico: Rin deve seguir seu destino como maga, algo que inclusive deve esconder do mundo por princípio já que os Tōsaka são uma linhagem antiga de magos. Mas também deve triunfar em questões banais como status social, rankings escolares e assim por diante; pois os Tōsaka possuem influência política e econômica em Fuyuki. O irônico é que Rin é a única de sua linhagem. Seus pais estão mortos nesse momento na história. Sakura perdeu seu sobrenome junto de suas memórias. Rin mora sozinha, como a última Tōsaka, por anos. Não há nenhum parente ou familiar que a pressione em manter seu nome e o destino que lhe foi dado. No entanto, isso gera uma pressão invisível, um vácuo na realidade que impede Rin de jogar tudo pro alto. Como ela poderia se opor ao que não está lá? Mas é seu propósito que a aproxima dos que já se foram. Ela é tudo que sobrou dos Tōsaka, mesmo que essa percepção a impeça de se deixar viver outras coisas no mundo. Inclusive coisas supostamente triviais, como tudo que faz parte do ambiente escolar ou do cotidiano da cidade. A vida de um herdeiro é a vida de alguém que espera. De alguém que mantém o mundo real em suspensão até chegar a hora de arcar com a tal herança. Mas de alguém que se prepara e se condiciona para o futuro como só um herdeiro seria capaz de fazer.

Conforme os anos passam, Rin desenvolve um certo sangue-frio e um certo afastamento do que seria essa vida normal pras pessoas de sua idade. O elemento que a mantém ligada ao resto do mundo cotidiano, sua bússola emocional, por assim dizer, é Sakura. Rin tem uma relação meio de stalker com sua irmã biológica. Ela vigia a casa da família Matō em segredo e observa Sakura à distância nas atividades da escola. Mas ninguém sabe que as duas são irmãs, ninguém sabe do acordo entre as famílias; Rin nem mesmo pode desabafar sobre o assunto. Mesmo se ela tentasse, haveria uma ausência de palavras que descrevam a sensação, que a deem forma, vinda da própria ausência de um nome pra essa perda. É um vazio indizível pra Rin. Esse sentimento, esse longing por um passado que não pode ser reparado mas que continua transbordando de forma inevitável no presente, esse tipo de melancolia bastante específico, é algo recorrente em Fate. Saber tem uma relação parecida com sua vida anterior e Sakura com sua infância destruída, em suas respectivas rotas. Eu diria, inclusive, que esse trope é o núcleo emocional da visual novel. Talvez seja uma das melhores ideias por trás da franquia e algo que poderia render um texto próprio a respeito, se eu tivesse tempo ou paciência. No entanto, eu nunca consigo extrair esse sentimento dos animes de Fate. Parece que as adaptações não o captam corretamente ou nem mesmo o compreendem pra começo de conversa. Essa melancolia só permeia o subtexto da visual novel original de Fate, e de mais nenhuma outra obra desse universo, pelo visto. E mesmo os fãs da franquia, eles parecem mais preocupados em ler e decorar wiki, e em ver lutinhas e poderzinhos e waifus bonitinhas.

 

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Quanto ao momento presente de Rin, a iminência da guerra parece deixá-la ainda mais sensível à situação de Sakura. O envolvimento do instável Shinji Matō na guerra, irmão de criação de Sakura, também representa uma ameaça. É nesse contexto que Rin se aproxima de Shirō, amigo de infância e interesse amoroso de Sakura. De início, Rin enxerga em Shirō apenas uma espécie de ponte em direção a Sakura. Conforme a guerra acontece e Shirō tipo morre uma vez por dia, Rin passa a cercá-lo de forma um tanto incisiva. Como é de se prever, ela projeta Sakura nessa relação; e, durante toda a primeira temporada de Fate UBW, Rin se porta como uma irmã mais velha diante de Shirō. Repetidamente, ela o orbita, o orienta, o repreende, o elogia, e assim por diante. Mas, no fim das contas, a coisa que realmente a angustia é conquistar o respeito de Shirō. É ser reconhecida como um modelo, como alguém capaz de nutri-lo e de guiá-lo. Alguém que reconheça sua década de solidão e dedicação. Eventualmente, Archer a acusa de amolecer por causa de Shirō, por tê-lo sempre como uma exceção em sua vida atual, antes regrada.

Nesse ponto, eu penso que Fate comete alguns erros na caracterização de Rin. É retratado, menos na visual novel e mais no anime de Fate UBW, que Rin não quer apenas ser reconhecida como um modelo e quem sabe até como um adulto por Shirō. Depois de um tempo, ela quer também ser reconhecida e desejada como uma mulher. Se simplificarmos as coisas e pensarmos em arquétipos, esse é o exato arco narrativo de uma tsundere em obras japonesas. Considerando a época em que foi escrito, Fate tem no seu trio de protagonistas – Shirō, Rin e Saber – uma clara inspiração no trio de Evangelion – respectivamente, Shinji, Asuka e Rei. Apesar dos clichês, eu considero a personagem Rin bem escrita. Ela não é nenhuma Asuka em complexidade ou em nuance. Mas está longe de ser a tsundere padrão que vemos temporada após temporada atualmente. Ainda assim, o que estou chamando de “erros” na caracterização de Rin se deve à maneira como a personagem começa seu arco com traços únicos, como a melancolia pelo passado que citei anteriormente, e termina com resoluções “fáceis”. Olha só, caro leitor, se você leu até aqui, eu não preciso te dizer que essa mina mexe seriamente com os meus botões. Eu gosto de mulheres com personalidade forte. Mas parece que elas nunca duram em animes e mangás; pois uma hora ou outra elas precisam voltar a ser mera fantasia pra otakus. Exemplo rápido e atual? Zero Two – decidida e porra loka no início, submissa e boa esposa no final. Em Fate, Rin Tōsaka deixa de ser uma herdeira solitária, honrada e determinada, pra se tornar frágil e dependente do pessimamente-escrito-meu-deus-que-personagem-ruim-parece-até-visual-novel-Emiya-Shirō. Ele avança na obra com o poder do protagonismo e mais nada; enquanto Rin se torna a mulher que a gente já cansou de ver na ficção: uma donzela em perigo. Por sinal, acontece a mesmíssima coisa com a Saber na visual novel…

 

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“Salve-me, Shirō”

 

Como não me surpreendo fácil, aceitei em paz o fato de Rin se tornar uma personagem cada vez menos interessante ao longo da visual novel e do anime. Depois de um tempo, até sua característica central, o pensamento frio e lógico, a escapa. Rin passa a decidir coisas na base da ansiedade e do choro, como a mais previsível das fêmeas. A temível amazona torna-se a garotinha vulnerável, e assim a única coisa que ainda prendia minha atenção desaparece. Eu admito: concluir a rota UBW, em ambos visual novel e anime, foi extremamente cansativo. No meu coração desgastado, eu sinto que Fate é uma criação pomposa demais pra, na essência, ser tão bobinha e inofensiva. Combate de monstrinho? Really? Eu tenho debaixo do meu cinto Yu-Gi-Oh!, Pokémon, Digimon, Medabots, Monster Rancher, a lista vai e vai… Ainda por cima, misturado com battle royal? Joguinho de sobrevivência? Qual é, eu tenho Mirai Nikki. Ops…

Já que o recheio não me animou (capisce?) em Fate UBW, e já que a própria direção de arte perdeu vistosidade após o primeiro episódio, pude pelo menos aproveitar o episódio final, ou epílogo. Aquilo não é pouco fanservice. Aquilo é MUITO fanservice. Rin adulta é puro bait pra otaku, e eu sou um verme que adorou cada segundo. Afinal, ela não apenas cresceu e amadureceu um pouco, o próprio episódio faz um esforço monumental em vendê-la como aquilo que ela de fato é: uma waifu. Uma namorada/esposa idealizada, que durante 50 minutos mostra-se a namorada/esposa idealizada de Shirō, o herói bobão que não merece, mas que recebe do céu a mulher perfeita: a beleza estonteante, frágil como uma menina chorona e poderosa como uma maga treinada. São três arquétipos bolados em um só. Palmas, Kinoko Nasu! Ah, se eu pudesse resgatar essa boa personagem com ótimo design da obra mediana onde ela está perpetuamente encarcerada…

 

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Rin adulta e sem maria-chiquinha? 10/10

 

Se eu dei a impressão errada, aqui cabem minhas ressalvas. Se você espera que eu recomende a visual novel, saiba apenas que suas três rotas principais totalizam mais de 70 horas de leitura. Nelas, você lidará com muito pedantismo desnecessário, muita explicação repetitiva e muitas receitas de jantar. É preciso coragem e principalmente paciência pra ler Fate. Mas se a estética te agradar, se você for tolerante com uma coisinha ou outra (ou muitas) e tiver algum tempo disponível (ou muito), há sim bons momentos e ideias interessantes na visual novel – algumas, aliás, exclusivas da visual novel. A prosa pode ser sofrível em alguns momentos, mas no geral é uma leitura bastante fluida. O quesito RPG da obra é muito bem realizado (incluindo fichas de personagem!), e a apresentação visual como um todo é agradável. Os personagens, incluindo Shirō, vão de gostáveis a minimamente complexos, o suficiente para um loser como eu escrever 4.000 palavras de análise psicológica de uma delas. E falando em Rin, eu garanto, eu prometo, eu insisto, que a voz da dubladora Kana Ueda torna tudo mais sexy, digo, mais empolgante. Já o anime, Fate UBW, até que adapta bem o texto original. Há fanservice até não poder mais, incluindo na trilha sonora, com uma versão de This Illusion cantada pela Lisa Lavigne (aquela que só grita, sabe?), a cantora favorita do mundo inteiro menos eu.

Agora bora assistir Escaflowne porque isso sim é foda sem ressalvas…

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3 comentários sobre “Unindo Direção de Arte e Caracterização de Personagem em Fate/Stay Night: Unlimited Blade Works – ou, o único episódio que eu gosto de uma franquia inteira

  1. Ceru disse:

    Que texto excelente, adoro essas análises detalhadas e que argumentam de forma clara e sem pressa. Queria eu ter uma atenção tão grande aos detalhes e não ter uma memória de batata para conseguir escrever alguma coisa. Enfim, acho que você conseguiu resumir a Rin muito bem: a waifu clássica de anime, mas com um carisma tão grande que é impossível não gostar. 😂

    • Shigatsu disse:

      A Rin dá até tristeza né cara? hahahaha
      Sobre atenção e memória: faz anotações! Leia e assista coisas com um caderno do lado, ou com o gravador do celular. Eu sempre gravo coisas vergonhosas kkkk. Aí quando quiser escrever um texto, é só juntar tudo que anotou/gravou.

      • Ceru disse:

        Eu às vezes anoto algumas coisas que poderiam servir de argumento, mas em relação a anotar enquanto assisto, nunca tentei. Eu assisto tudo só casualmente, mas acho que faria bem eu tentar dissertar sobre a minha impressão de algumas obras. Talvez eu ponha isso em prática…

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