Bakuman e a Weekly Shōnen Jump: Tradição Vs. Subversão

Adicionando minha própria metanarrativa à ancestral arte da metanarrativa.

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Aqui vai um fato: 90% das entrevistas com mangakás, dubladores, animadores e etc. não são interessantes. Na verdade, são todas iguais. O entrevistador faz perguntas de uma linha, e o entrevistado responde evasivamente em uma linha. Não é de se estranhar. Os japoneses, no geral, são fechados demais, educados demais e humildes demais. Com esse fato em mãos, Bakuman acabou se tornado, pelo menos pra indústria dos mangás, uma verdadeira janela para nós fãs observarmos parte do processo criativo e editorial da maior revista de mangás do mundo, a Weekly Shōnen Jump. Coisas que nunca aprenderíamos com as raras entrevistas traduzidas do japonês. Tsugumi Ohba (história) e Takeshi Obata (arte) conseguem, através da narrativa por vezes romantizada demais de Bakuman, nos dar uma singela noção de como suas vidas pessoais e profissionais se mesclam ao amor por mangás e pela poderosa Jump. Há, sim, uma boa dose de autobiografia nas páginas de Bakuman. Há paixão e glória, mas também medo e depressão… Nos últimos meses, a leitura de Bakuman mexeu comigo, mas foram os capítulos finais que me destruíram. Nos próximos parágrafos, mostrarei meus sentimentos por Bakuman, como Ohba e Obata fizeram em seu mangá.

 

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Bakuman como peça metalinguística

Antes de qualquer coisa, é bom estabelecer de que forma Bakuman se encaixa dentro da Jump. A revista é famosa por suas diretrizes bastante rígidas e tradicionais, sintetizadas pelo lema “amizade, esforço e vitória”. Os mangás da revista não são exclusivamente voltados a garotos (shōnen), como sempre se discute por aí. Eles tão somente se apoiam no tipo de sensibilidade estética normalmente atribuída a garotos: histórias de aventura, com heróis e vilões bem definidos, combates físicos, ideais de amizade e companheirismo. A velha fórmula pode adquirir contornos diferentes com o passar das décadas, mas em essência se mantém a mesma. Isso é o que faz Bakuman: os personagens, os heróis e vilões da história, são mangakás; suas armas são os mangás que eles criam, e o campo de batalha é uma revista Jump fictícia! Mesmo que as aparências enganem, Bakuman se mostra um típico mangá de battle shōnen, principalmente pela estrutura narrativa. Nela, antagonistas derrotados dão lugar a novos antagonistas, mais fortes que os do arco anterior; a própria noção de “arcos”, com personagens que se aliam aos heróis e com novos poderes sendo despertados a cada longa sequência de treinamento. Curioso é que Ohba e Obata já haviam feito algo parecido em sua obra anterior. Death Note também utiliza uma “maquiagem” diferente para, na prática, ser também um mangá de battle shōnen. O personagem Takagi, em Bakuman, define esse tipo de obra como “não mainstream”.

O problema dessa fórmula battle shōnen, mesmo quando ela parece estar sendo subvertida em Bakuman e Death Note, são suas restrições narrativas. Os grandes sucessos da Jump e de outras revistas shōnen em menor escala, ou pelo menos boa parte deles, costumam me dar a impressão de que são obras de uma ideia só. Ou que partem de uma ideia só, e se limitam a andar em círculos ao redor dessa ideia. Para mangakás como Ohba e Obata, esse fio condutor irá levar Bakuman por um caminho que me apresentou nuances interessantes, já que trata-se de um mangá que fala sobre mangás. Eu nunca li nada como Bakuman. A metalinguagem da obra se mostra recheada com sentimentos de amor e de terror diante da profissão de mangaká. Inúmeras falas, de inúmeros personagens, poder ser lidas como falas dos próprios Ohba e Obata. E algumas não sairão da minha memória tão cedo, como quando o preguiçoso Hiramaru diz: “mangás são assustadores e meu futuro não é nada além de sombrio”. Esse aspecto metalinguístico, por si só, é lindo. Ohba, inclusive, acaba indo além e criando uma espécie de metacomentário sobre o final de Death Note dentro do final de Bakuman. Inclusive, adiante há spoilers das duas obras. Leia por sua conta e risco caso queira entender minha explicação.

 

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Quando já são mangakás de sucesso, os protagonistas de Bakuman, a dupla Mashiro e Takagi, de pseudônimo “Ashirogi Muto”, criam sua obra máxima: Reversi. Um (meta)mangá cheio de suspense, com uma batalha intelectual entre dois homens com percepções opostas de justiça. Conforme disputa o primeiro lugar da Jump com seu grande rival Niizuma Eiji, Ashirogi Muto se dá conta do ponto fraco de Reversi: a batalha intelectual é definitiva. Ou seja, não há necessidade de novos antagonistas em arcos futuros. Reversi só pode se tornar uma obra-prima se for uma história curta e incisiva. Mas a Jump não gosta de histórias curtas e incisivas… Ashirogi Muto então compra briga com a Jump pelo direito de encerrar seu mangá quando bem entender.

Confesso que pensei muito sobre isso. Sobre como os conflitos envolvendo o metamangá Reversi se comunicam com o mangá da vida real Death Note. Digo, a referência é óbvia pra todo mundo há anos. Eu ouvia falar dela mesmo antes de ler Bakuman. O que me trouxe incerteza foi a intenção de Ohba e Obata com a referência. Pra quê falar sobre Death Note em Bakuman? Eles, de fato, estavam falando sobre Death Note em Bakuman, ou foi só coincidência? Se não foi coincidência, o que eles buscaram com isso? A dupla Ashirogi Muto, Mashiro e Takagi, são representações de Ohba e Obata, sem dúvidas. E eles vencem a queda de braço contra a Jump fictícia em Bakuman, encerrando Reversi no auge, com apenas um ano de publicação. Ao contrário do fiasco que foi a segunda metade de Death Note, convenhamos. Foi isso um pedido de desculpas aos fãs de Death Note? A eles mesmos? Não, isso soaria muito espalhafatoso para um japonês. Seria então uma tentativa de redenção? Não, isso sugeriria que Ohba e Obata não confiam totalmente no seu taco como autores de Bakuman, o que soa forçado pois Bakuman já havia passado dos 150 capítulos na Jump quando surgiu o conflito de Reversi… Acredito que a passagem é um tipo de desabafo. Desabafo pelas circunstâncias terem sido como foram na época de Death Note – seja lá como elas foram. E também um desabafo pelo próprio Bakuman, aparentemente, estar trazendo desgosto e cansaço aos mangakás. Afinal, poucos capítulos depois a obra encerrou-se abruptamente, trazendo um sabor amargo aos fãs de Ashirogi, Eiji e cia. Não por acaso, Ohba e Obata abandonaram as publicações semanais e têm criado um mangá mensal (chamado Platinum End), ainda que em outro ramo editorial da própria Jump…

 

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O vilão de Reversi, por acaso, te lembra alguém?

 

Senti, também, algum tom de ressentimento no arco, como se os autores dissessem “na ficção as coisas são mais simples”. Como se Bakuman gritasse para o mundo um belo “e se”, no fim das contas. “E se” as pressões do mundo adulto não interferissem no sonho inocente e puro de Ashirogi Muto, de Mashiro e Takagi, enquanto produzem seus mangás? Bem, eles fariam como bem entendem e causariam confusão no departamento editorial da Jump a cada mangá que publicam. Algo que temos de sobra em Bakuman!

 

Bakuman e as narrativas que nos constroem e nos definem

Para todos os efeitos, Bakuman é um battle shōnen de execução primorosa. Não estamos falando de um mangá que qualquer novato poderia escrever. Além da carga metalinguística ser prova de que os autores convivem com a Jump há uns bons anos, a própria construção do enredo e de cada arco revela como Ohba e Obata são mangakás experientes. É verdade, do meio pro fim Bakuman oscila bastante. No entanto, as soluções para cada passagem são criativas, mesmo quando elas claramente estão tentando tapar buraco. Um exemplo disso é a segunda mudança de editores para Ashirogi Muto: quando o nada carismático Miura sai de cena junto com o pífio mangá Tanto, Hattori ressurge e coloca PCP entre os primeiros colocados nos rankings. O malabarismo de Ohba e Obata é notável, visto que Bakuman tem uns cinquenta personagens e uns trinta metamangás sendo publicados e cancelados em sucessão. A obra consegue ser uma nascente constante de ideias; mesmo que algumas sejam ruins, como tudo que envolve o vilão-vilanesco Nanamine, o fluxo de informações é regular o bastante para Bakuman se manter dinâmico o tempo todo. Isso é essencial para a Jump, uma revista na qual cada capítulo de mangá é publicado semanalmente e avaliado pelos leitores em questionários. Ohba e Obata estão mais do que acostumados aos moldes da revista. É a maior qualidade dos caras. Entretanto, é exatamente nesse ponto, nessa adaptabilidade da dupla de autores, que reside o calcanhar de Aquiles de Bakuman.

Qual a ideia central de Bakuman? O amor por mangás. Por mangás da Jump, você poderia dizer. Assim sendo, todo o enredo se desenvolve a partir desse conceito. Personagens e situações são criados, conflitos surgem e movem a história adiante. Isso é o básico de storytelling. Cada personagem, situação e conflito irão incorporar frações desse conceito inicial, desse amor pelo mangá. E para que os conflitos sejam interessantes e a história, bem… exista, é preciso que frações pouco compatíveis desse amor sejam postas em contato. Assim, a abordagem conservadora de Mashiro sobre a arte por trás de um mangá é confrontada pelo progressista Fukuda quando os dois se conhecem. Eiji nos é apresentado como um gênio de 15 anos de idade, que exige do editor-chefe Sasaki o direito de cancelar um mangá que ele odeia caso de torne o autor número um da Jump. Hiramaru sofre com a pressão editorial enquanto Yoshida, seu editor, precisa persuadi-lo toda semana a não desistir do mangá. Além dessas, há outras milhares de facetas desse mundo dos mangás encapsuladas em personagens divertidos e relacionáveis. Ohba e Obata despejaram em Bakuman tudo que há pra se pensar e se sentir sobre o ofício de mangaká. Tudo de melhor e tudo de pior. Mas o que há de pior desse mundo, em Bakuman, não se traduz diretamente na história.

 

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Hiramaru: o (caricato) sofrimento semanal de um mangaká

 

Explico: Bakuman, enquanto mangá metalinguístico publicado pela Jump, desafia e questiona os métodos da Jump de formas pouco consistentes, com arcos que servem apenas para reforçar o lado positivo da revista. Quer dizer, se fosse pra apedrejar de fato a Jump, Bakuman nunca seria impresso. Pois mesmo quando Ohba e Obata conseguem apedrejar de fato a Jump, como na indireta de Reversi/Death Note citada anteriormente, eles ainda estão sendo publicados na revista. Eles ainda obedecem prazos e se reúnem com seu editor. Por mais que critiquem os prazos e as reuniões com editores. A lendária, monstruosa, fascinante, aterradora, bela e furiosa Jump… segue sendo impressa, toda segunda-feira no Japão, sem falta. Pra nossa adoração e nossa raiva e nosso amor e nosso medo, como fãs e como mangakás.

Se Bakuman faz um bom trabalho como peça de metacomentário e declaração de amor, com Ohba e Obata literalmente vestindo a camisa da empresa, reforço o seguinte: a obra faz um péssimo trabalho como subversão durante a história. O texto “anti-Jump” é bem inconsequente em Bakuman. Não faltam exemplos disso: Fukuda desafia a revista várias vezes e eventualmente forma uma espécie de sindicato independente de mangakás (o Time Fukuda); debate-se bastante a morte de Kawaguchi Taro, o tio de Mashiro, mangaká que “deixou este mundo com uma caneta na mão, de tanto trabalhar”; Nanamine envia manuscritos criados por um conselho de escritores, algo impensável para a visão romântica e purista que a Jump carrega com seus mangakás autorais. Qual a relação entre todas essas passagens em Bakuman? Nenhuma delas chega a lugar nenhum. A tradição sempre vence. Fukuda nunca mais fala em mudar a Jump, Mashiro se torna tão workaholic quanto seu tio, Nanamine é derrotado por Ashirogi Muto e ainda tem que ouvir lição de moral de todo mundo! O lema “amizade, esforço e vitória” invalida qualquer inovação dentro de Bakuman. Diabos, o capítulo final é tão conservador que até casamento acontece. Isso é o quê? Uma novela? Não, espera. Dragon Ball também já terminou em casamento. E Bleach. E Naruto.

 

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Essa é a capa do capítulo final de Bakuman. É…

 

Mas lembra-se do que eu disse acima? Bakuman faz um péssimo trabalho como subversão durante a história. Para além da história, já é outro assunto. Digo, é parte do subtexto de Bakuman os protestos e lamentos de Ohba e Obata. E o próprio final repentino da obra serve como um “tchau, não aguento mais”. Aliás, dos mangás que acabei de citar, todos meio que deixaram esse gostinho na boca, não deixaram? Exceto Dragon Ball, pra infelicidade de Toriyama. Sinceramente, se passei três quartos de Bakuman sentindo empatia e admiração por Ohba, Obata e por todos os mangakás da Jump, no último quarto tudo que havia dentro de mim era piedade. Eu fico com dó desses caras.

 

Bakuman e o ser mangaká

Apesar da minha miséria emocional, tudo sobre a Jump me impressiona. Você, leitor, nunca quis saber japonês e comprar uma Jump na banca toda segunda? Por outro lado, nunca se perguntou se essa revista precisa mesmo ser como é? E a indústria dos mangás e dos animes no geral, precisa mesmo ser como é? Ohba e Obata não fariam um mangá metalinguístico se não admirassem a indústria onde trabalham, mas no fim do dia não passam de funcionários. Nessa interessante entrevista aqui, se é que foi honesto, Ohba fala que só decidiu ser mangaká quando adulto, por uma questão de mera sobrevivência, pois a vida de trabalhador comum o assustou. E mesmo quando cita as vantagens da vida de mangaká, o autor se contenta com “trabalhar e fumar quando tenho vontade”. Nenhuma menção a sonhos grandiosos ou realizações pessoais ou ambições de menino. Pode ter sido timidez ou reserva, mas Ohba me parece bem diferente de Ashirogi Muto. Ou seria Bakuman uma carta insincera aos jovens japoneses que ainda esperam por um futuro brilhante? Eu divago…

Ainda na entrevista, Ohba disse algo que me atingiu em cheio. “Você não pode ser aquele que determina o que é bom e o que não é, então eu acho que você só precisa criar o máximo que puder”. Essa colocação sozinha pode ser difícil de interpretar. Contudo, quando adereçada ao contexto de um mangaká de sucesso da Jump, a afirmação de Ohba adquire um sentido um tanto perturbador. É verdade que, como pretenso escritor, eu me exponho na medida do possível e busco criar o máximo possível. Mas eu não escrevo mangás para a Jump. Portanto, me parece que Ohba cita o ato de “determinar o que é bom” do ponto de vista dos rankings da revista. Afinal, são os leitores da Jump que decidem parte dos rumos editoriais. Quanto a “criar o máximo que puder”, Ohba se refere claramente ao modelo semanal com que se habituou a trabalhar. Eis a palavra-chave aqui: hábito. Para Ohba, e possivelmente para Obata, a Weekly Shōnen Jump é quem passou a ditar a própria maneira como eles encaram a profissão de mangaká. Se é uma maneira certa ou errada – se apenas rigorosa ou de fato abusiva – não entra em questão. Ohba não entra na questão.

 

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Mas a questão conversa diretamente com Mashiro, o personagem principal de Bakuman – pois não é sempre que o roteiro se importa com Takagi. Para Mashiro, que adora mangás desde criança, o sonho de criar seus próprios mangás se entrelaça com o sonho de ser um mangaká da Jump. E o personagem recusa veementemente a possibilidade de escrever para outras revistas. É válido lembrar, no entanto, que uma parte fundamental na construção psicológica de Mashiro depende de sua relação com seu tio mangaká. Kawaguchi Taro sempre trabalhou pela Jump, uma revista que valoriza a competitividade entre seus autores. No caso de Mashiro, pouco importa se o gosto por mangás veio da admiração pelo tio ou se foi o caminho oposto; o que importa é que a morte de Kawaguchi Taro o afetou a ponto de fazê-lo almejar as coisas que seu mestre não pôde alcançar. São tropes clássicos de battle shōnen, “o parente de quem o herói herda o sonho”, mas aqui reside aquela restrição narrativa que mencionei no início do texto, bastante comum nesses tipos de mangás.

Ser um Hokage ou o Rei dos Piratas não possui um significado preciso para nós, pessoas do mundo real. Naruto e One Piece narram mundos de fantasia. O objetivo final de Naruto e Luffy, portanto, depende da interpretação do leitor. Você, leitor desses mangás, é quem irá decidir a sua concepção de vitória; você define o que é ser um Hokage e onde fica sua Vila Ninja, entende? São metáforas que você pode aplicar ao seu vestibular, à sua timidez, ao seu primeiro emprego, etc. Por isso as narrativas de battle shōnen nos atraem e nos emocionam. Elas existem para que você, o protagonista de sua própria vida, se sinta inspirado e motivado.

Agora, Bakuman é uma história que emula o mundo real. Mais do que isso, é parcialmente autobiográfica. Ou seja, quando Tsugumi Ohba e Takeshi Obata ficam em primeiro lugar na Jump com um mangá que fala sobre ficar em primeiro lugar na Jump, bem… aí Mashiro começa a sair das páginas impressas e tomar forma. Afinal, é possível, no nosso mundo, você se tornar um mangaká tão bom a ponto de ter um mangá número um na Jump. Isso pode acontecer. Mas, onda fica todo o resto? Seu mangá não faria o mesmo sucesso nem teria a mesma relevância numa revista shōjo. Pensando em arte como um todo, você nem mesmo saberia desenhar outras coisas tão bem além de mangás. O sonho de Mashiro é a especialização máxima. Ser o melhor do mundo nessa uma coisa, que só funciona desse um jeito, nessa uma revista, que só existe nesse um país. De novo, onde fica todo o resto? Não podemos chamar Mashiro de artista, talvez nem mesmo de mangaká; somente de mangaká número um da Jump. É evidente que essa estrada obsessiva é só mais uma opção entre milhões de outras nesse mundo. Mas não sou eu que estou dizendo que essa estrada leva à perdição; são os próprios autores de Bakuman, quando entregam uma obra carregada de aflições que são deixadas de lado durante o enredo. Quando entregam uma obra cujos antagonismos são varridos pra debaixo do tapete. Quando entregam uma obra com final vazio de novela. Não é vazio por ter (mais um) casamento. É vazio porque… não teria como ter sido feito de outra maneira. Não seria Jump. Os traços de Obata no capítulo final são tão precisos, tão bem demarcados, que eu quase sinto sua frustração com o apertar da coleira no pescoço. O grito sai sufocado. Mashiro sai vitorioso. A vida não é um battle shōnen.

 

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Pelo que observo, há ciclicamente uma discussão sobre como “o novo mangá X questiona as diretrizes da Jump”. Assim, sempre ressurge o assunto sobre o novo mangá que não hesita em matar personagens, sobre narrativas pouco ortodoxas, sobre fanservice além da conta, sobre isso e aquilo que a Jump não permitiria antigamente e agora permite. Todas coisas que sonham subverter a Jump. Eis que, por ironia do destino, talvez a própria noção de que o próximo mangá irá revolucionar a Jump seja, em si mesma, uma parte inerente das diretrizes da Jump. “Amizade, esforço, vitória… e a promessa de que, dessa vez, nada será como antes”.

Nenhuma empreitada que se mantenha relevante por mais de meio século é adepta de revoluções. A Jump não está cometendo nenhum crime ao preservar seu status quo através de seus mangás e de seus autores. E mesmo os sonhos e resoluções imutáveis de Mashiro em Bakuman… eles dizem muito mais sobre a solidez da Jump como revista e sobre a manutenção das carreiras de Ohba e Obata como mangakás do que sobre qualquer senso de rebeldia ou subversão. Não foi o roteiro de Bakuman que me comoveu. Não foi Fukuda querendo mudar a Jump de dentro pra fora ou Ashirogi Muto erguendo a voz para o editor-chefe da revista. Foi o espírito conformista que a obra ganhava a cada capítulo. Foi a autohomenagem, a autocelebração. Não, pior do que isso. Foi a autoconsciência.

2 comentários sobre “Bakuman e a Weekly Shōnen Jump: Tradição Vs. Subversão

  1. Herbert disse:

    Muito interessante esse ponto levantado, mas não seria esse questionamento entre decisões próprias e originais x “o comercialmente aceitável e o dilema de sobrevivência” , o principal problema de qualquer artista de sucesso ou artista em geral que almeja criar algo ?

    Parabéns pelo texto, muito bacana!

    • Shigatsu disse:

      Creio que seja um dilema universal, sim, Herbert. Tanto que muitos autores da Jump fazem sucesso comercialmente num primeiro momento, mas depois pegam o prestígio que adquiriram pra escrever obras mais “pessoais”, como o Togashi indo de YuYu pra HxH ou o Inoue indo de Slam Dunk pra Vagabond. São dois caras que até podem ser criticados pelos hiatos infinitos, mas que fazem questão de nunca apressar uma boa história com cronogramas e metas de vendas.

      Eu citei dois caras bem-sucedidos, mas isso vale pra todo autor, inclusive meros blogueiros, rs

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