O que ACCA nos diz sobre a Madhouse e a indústria atual

Ou, a importância relativa do contexto quando criticamos uma obra.

ACCA madhouse comentários review análise

 

ACCA, abreviado de “ACCA: Departamento de Inspeção dos 13 Distritos”, é um anime sobre a burocracia e o funcionalismo público do reino fictício de Dōwā. O que seria a premissa mais chata do mundo, se não fosse pela atraente caracterização dos tais treze distritos e por toda a classe da obra como um todo. É raro um anime, nos dias de hoje, ser tão cuidadoso em ser classudo. Acontece que ACCA consegue ser bem mais do que apenas isso. E adiante darei os devidos méritos ao estúdio responsável pela produção, a grande Madhouse. Entretanto, também trarei pontos que me preocupam no estúdio, como já fiz nesse texto sobre One Punch Man 2. Aliás, o ano de 2017 me serviu como uma verdadeira imersão nos trabalhos da Madhouse, já que também escrevi extensamente sobre Highschool of The Dead e sobre a primeira temporada de One Punch Man – onde, inclusive, prometi tratar de ACCA um dia…

Já que é chegado o dia, tiro logo do meu caminho a frase que já deve ter chegado aos ouvidos do caro leitor: ACCA é legal, mas não é pra todo mundo. Acho um exagero reclamar que o anime seja lento; é uma questão de proposta. Minha ressalva é quanto às formas com que um anime pode ou não pode ser lento. No caso de ACCA, uma obra amplamente ancorada na atuação de seus personagens, é fundamental que as coisas se deem num ritmo mais vagaroso. No entanto, e aqui entram meus temores, talvez o estúdio Madhouse tenha falhado em tornar exuberante a lentidão da obra. Diferente da ação frenética de One Punch Man, ACCA deveria ter personagens que se movem como humanos reais – ou como humanos reais que são ótimos atores. Quando isso acontece, o show cresce diante dos seus olhos e te mostra do que é capaz. Mas ACCA consegue passar episódios inteiros sem te convencer a que veio.

 

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Na minha leitura, esse é um sinal de como a Madhouse poderia ser chamada hoje em dia de “EMPTYhouse”. Com o perdão do péssimo trocadilho, o que quero dizer é que o estúdio aparentemente tem suas cadeiras vazias nos últimos tempos. As vagas e a infraestrutura estão lá, mas não há recursos para manter os profissionais dentro da casa. O que faz com que um anime de potencial como ACCA se torne apenas bom – muito bom, talvez? – mas não espetacular. E, convenhamos, o que esperamos da Madhouse é sempre o espetacular. Fomos educados assim. Mas, para ACCA, os números não mentem: dos doze episódios da série, nada menos que CINCO foram terceirados; inteiramente terceirizados, aliás. Quem cooperou foram dois estúdios japoneses (Gonzo e PRA) e um coreano (Dr. Movie). Não podemos, contudo, nos esquecer de que a Madhouse sempre foi adepta do outsourcing, e que isso não é objetivamente ruim. Não encontrei informações detalhadas a respeito durante minha pesquisa, mas arrisco dizer que alguns aspectos da terceirização vistos na indústria até hoje são práticas comuns da Madhouse que se disseminaram para outros estúdios. Por exemplo, o uso de um diretor de animação terceirizado e a escalação de um diretor-chefe de animação de alto calibre para o mesmo episódio. Já que, desse modo, o segundo pode corrigir os deslizes do primeiro, e literalmente mascarar o fato do episódio ter sido feito numa Coréia da vida. É uma boa ideia, admita. Deixa as coisas mais baratas; e ainda permitia a alta produtividade que a Madhouse atingia no seu ápice, anos atrás.

A crise na Madhouse é tão flagrante que, num intervalo de dois anos, vimos One Punch Man ter a animação impressionante que teve, e agora ficamos com um ACCA meio abaixo das expectativas. Mas por quê comparo esses dois animes em particular? Bem, o faço devido à staff de ambos ser praticamente a mesma! Sob o comando do diretor Shingo Natsume, estiveram os excelentes animadores Norifumi Kugai, Keisuke Kojima, Yōsuke Hatta, Gosei Oda, Shun Enokido… Como o tempo é curto para apresentações, vou resumir dizendo que esse time aqui equivale em peso à uma seleção dos Estados Unidos de Basquete. É só monstro em quadra. Agora, imagina essa seleção pegando uma medalha de prata nas Olimpíadas. Pois é. Isso é ACCA. Dói, pois prata é um bom resultado; mas bem que podia ser ouro né…

 

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Quer um exemplo? Olha essa movimentação à la Ghibli! Infelizmente, ACCA não é sempre assim

 

Como não quero aparentar ter odiado ACCA, trago para os holofotes uma das melhores coisas sobre a obra: sua direção de arte. Confiados a Seiko Yoshioka, os cenários de ACCA estão entre os mais impressionantes de 2017. Depois de brilhar em Owari no Seraph, Yoshioka foi escolhida para a árdua missão de trazer vida aos treze distritos de ACCA – e como eles diferem radicalmente um do outro! Narrativamente, é curioso, e sem dúvida criativo, que o reino de Dōwā tenha regiões que se assemelhem a Nova York, Bélgica, Dubai, França, etc. Mas o grau de detalhamento a que Yoshioka se propôs é tamanho, e o próprio contraste cultural e ambiental entre cada região é tão grande, que é quase como se ACCA fosse um novo anime a cada episódio. São treze animes ao mesmo tempo, e todos muito agradáveis de se olhar.

 

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Ainda por cima, o design de personagens conversa muito bem com a direção de arte. Norifumi Kugai estreou na função em ACCA, e seus traços delicados contribuíram com a atmosfera classuda e sexy da obra. Destaque para as personagens femininas, como Schnee e Mauve. A última, por sinal, é a típica femme fatale de tramas policiais – um gênero com o qual ACCA flerta em muitos momentos –, e o anime se desdobra para mostrar o quanto ela é sedutora, como na cena abaixo, em que o protagonista Jean Otus se contorce diante da beleza da moça. Esse momento, em particular, é tão genuíno, tão relacionável, tão fora dos clichês de animes, que não somente Jean ganha uma nova nuance como personagem, como o próprio anime de ACCA tem sua comédia e sua veia cômica melhor caracterizadas por uns segundos. A obra só teria a ganhar com uma maior frequência de cenas desse tipo.

 

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Já que enveredei pelo campo dos personagens, e seus momentos de boa atuação, sinto que preciso tratar um pouco mais do nosso protagonista: Jean Otus. Percebo que nem todo mundo apreciou a proposta do personagem. Talvez o jeito desinteressado e distante de Jean impediu parte do público de sentir o mínimo de empatia por ele. Pessoalmente, acho divertidíssima a dinâmica do protagonista que é bom demais em fazer seu próprio trabalho e em cuidar de suas duas ou três relações mais importantes, enquanto é um desleixo total com todo o resto. Eu simpatizo com um cara assim. No fim das contas, como um auditor que precisa fazer uma turnê a trabalho pelo país, naturalmente Jean tem contatos e encontra atalhos onde quer que pise. Ele é competente, carismático e pacato. É o tipo de cara para quem as pessoas gostam de facilitar as coisas. O contraponto é que seus privilégios geram desconfiança a quem o vê de longe; ele atrai olhares. Ademais, temos no reino de Dōwā um requentado boato de que um golpe de estado se aproxima. E em quem cai a principal suspeita? Assista Jean Otus, o típico fumante boa-praça ser silenciosamente cercado por ares de conspiração e recebido em cada distrito como o principal agente de um golpe do qual ele nem mesmo está sabendo. E a dúvida persistirá! O espectador passa a maior parte do anime sem ter qualquer confirmação da veracidade do golpe. Tudo que se sabe, segundo as palavras inócuas do próprio Jean Otus, é que Jean Otus é inocente. Ou será que… nem tão inocente assim? Se já deu pra notar, não darei spoilers aqui; ACCA é mais interessante se você não souber demais. E quanto mais você puder se sentir nos sapatos de Jean, melhor. Só posso dar uma pequena dica? Preste muita atenção nas cores dos cabelos cada personagem, sem exceção.

 

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Se aprendemos sobre o mundo de ACCA e o reino de Dōwā na companhia de Jean, devo confessar que tal aprendizado pode ser bastante duro em dados momentos. E esse é o ponto fraco do roteiro de ACCA: a disposição das informações raramente é orgânica. Na verdade, o primeiro episódio é lotado de diálogos expositivos um tanto forçados; e ainda bem que a frequência de exposições vai caindo episódio a episódio. O problema é que ACCA nos inunda com muitos nomes de lugares e muitos dados geográficos para serem absorvidos espontaneamente. Daí a necessidade de exposição. Mas e se essa exposição soa forçada no início e escassa com o passar dos episódios? Então conforme ela para de acontecer e a história se desenrola sozinha, você sente carência das informações básicas. Por exemplo: o nome de cada distrito; sendo que a capital nacional tem o mesmo nome do país (Dōwā), que por acaso é o mesmo nome da família real. Só que a capital administrativa, ou econômico-financeira, é Bādon, onde residem Jean e a sede da ACCA. Dōwā, aliás, é também o nome do pássaro extinto que é usado como mascoto do reino(?), e que por qualquer razão é o próprio formato geográfico da ilha onde fica o reino de Dōwā(????).

 

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Nem o Jean entende esse mapa…

 

A ACCA, portanto, é uma espécie de parlamento, como na Inglaterra. Só que com cinco diretores ao invés de um primeiro-ministro. Afinal, em Dōwā, o poder do rei não é apenas simbólico, ele de fato manda e desmanda – mas até certo ponto, já que a própria ACCA tem maior influência no distrito de Bādon e nos distritos próximos. Sendo que distritos mais afastados meio que administram a si mesmos, e vêem tanto o rei quanto a ACCA com equivalente distância/indiferença. É muita coisa, não? Dá pra escrever um livro inteiro sobre a história e geografia desse lugar. Imagina explicar isso em doze episódios. Impossível. Pareceria melhor soltar o “grosso” dessas informações aos poucos, conforme viajamos com o protagonista por cada distrito. Mas isso também seria ruim, já que você precisa de alguma base para viajar com ele e não se perder nos nomes a cada distrito. Então… a solução acabou sendo carregar o primeiro e o segundo episódio com infodump. E ver no que dá. É a resposta menos pior, e que talvez se privilegiasse com um anime mais longo. Mas se, a meu ver, a cadência lenta de ACCA foi perfeita em um cour, então em 2 cour aí sim ela me incomodaria. Então será que a solução pra ACCA seria tipo 17 episódios? É um roteiro complexo de se dispor na tela, segundo minha percepção. De repente uma trilogia de filmes seria o ideal; a animação não sofreria tanto e o enredo possivelmente fluiria melhor. Mas eu divago…

Se avançarmos até o último episódio, outra vez encontro fatores negativos no trabalho da Madhouse. Confesso que não gostei tanto do fechamento da obra quanto esperava. Quer dizer, houve um belo plot twist, mesas foram viradas e acordos foram traídos. Mas faltou… impacto. Não quero me contradizer aqui. ACCA estabelece, desde o primeiro minuto, que as soluções para cada conflito em seu enredo serão soluções perpetuamente diplomáticas, nunca explosivas e exageradas. Portanto, isso é algo que narrativamente condiz com o tom geral do anime. O final não soa forçado. Mas se meu problema não envolve o enredo, eu diria que ele envolve a direção. Mais precisamente, o storyboard. Como é de praxe na indústria, o diretor da série é quem dirigiu o primeiro e o último episódio de ACCA. E se isso escapou do seu radar, caro leitor, repito que o diretor de ACCA é Shingo Natsume – o mesmo de One Punch Man. Natsume, apesar de ótimo com o ritmo e duração de cada cena, me parece ainda limitado com os layouts de seus storyboards. O que quero dizer é que as cenas de Natsume são enquadradas de maneiras que dizem pouco sobre a tensão do momento. One Punch Man, verdade seja dita, praticamente copia e cola os quadros do mangá de Yūsuke Murata, tornando a adaptação de Natsume apenas razoável em termos de direção. Mas em ACCA, o episódio final careceu da criatividade do episódio inicial em algumas tomadas – o que prova essa certa limitação do (ainda jovem) Natsume. Eu não consegui sentir a aflição de determinado personagem, o alívio de um outro e o gosto da vitória de um terceiro. A plateia presente na cena, que deveria ser manipulada ora por um personagem ora por outro, simplesmente desaparecia do contexto eventualmente. Isso colocava o conflito final isolado numa bolha, sendo que a emoção “correta” deveria vir diretamente da reação da plateia, conforme ela assistia ao vivo a resolução de meses de tensão política e teorias da conspiração. E mesmo a atuação dos personagens, tão pontual ao longo da série, se mostrou pouco expressiva no momento de resolução da obra. Estranho, já que o episódio final de ACCA contou com os animadores principais à disposição do estúdio. Indício de uma produção exigente demais para uma staff relativamente pequena? A crueldade nos prazos da indústria não é segredo para ninguém; por mais que esse cenário maluco faça florescer tantos artistas notáveis a cada década.

 

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Tantas cenas de “perspectiva”, no episódio final de ACCA, afastam o espectador da ação, ao invés de aproximá-lo

 

Pra concluir, recomendo ACCA com todas as minhas forças. Trata-se de um anime bastante único. Há cicatrizes de uma Madhouse decadente aqui e ali, mas no todo eu acredito que seja bastante válida a experiência. Diabos, a trilha sonora de ACCA sozinha já é fantástica; e o visual experimental da obra se sobressai sem dificuldades no mar de haréns genéricos a cada temporada. Como esse é meu texto inaugural de 2018, aproveito para desejar um bom ano ao leitor e para sugerir que fique de olho nas (três!) estreias de janeiro da Madhouse, como Overlord II, Sora yori mo Tōi Basho e a continuação de Sakura! E se você pulou ACCA em 2017, dê uma chance a Jean e suas trapalhadas, e você poderá se aventurar em um anime interessante e estiloso.

 

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Interessante, estiloso, e apaixonado por comida!

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7 comentários sobre “O que ACCA nos diz sobre a Madhouse e a indústria atual

  1. thiagofrancodeoliveira disse:

    Eu pensando se esse anime tivesse 24 episódios ele se desenvolveria melhor e vc me faz vê o quando seria d´hora uma trilogia de filmes,parabéns pelo texto,abraço

    • Shigatsu disse:

      Pois é, 24 seria arrastado, e talvez prejudicasse a qualidade da animação em alguns pontos.

      Filmes me pareceram uma boa, já que a Madhouse voltou do “hiato” de filmes no ano passado, fazendo aquele Deliver Your Voice e a sequência de No Game No Life.

      Agradeço man, abraço

  2. zoldyckp disse:

    Eu gostei bastante do caráter único de ACCA, tinha hora que parecia um festival de doces e pães o que estranhamente me entretinha. Concordo com a falta de “impacto” do fim e seu texto me lembrou do vídeo (https://youtu.be/c6Txhokrw48 // “The Silent Fall of Studio Madhouse”). E ainda sobre a mad, espero que ela volte com tudo, sou muito fã do studio.

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