Da literatura clássica para o mangá: Hamlet

Ou, “é assim que se convence quem não liga pra Shakespeare a ligar pra Shakespeare, ou então você simplesmente escala o DiCaprio como Romeu e tá tudo certo!”

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Com o texto de hoje, trago uma proposta nova para o blog – e pouco habitual para a blogosfera otaku em geral. Falarei sobre Hamlet. Mas não a peça de William Shakespeare em si ou suas transcrições em livros, nem mesmo suas interpretações cinematográficas. Falarei sobre o mangá de Hamlet. Mais especificamente, a recente adaptação da obra pela editora L&PM – parte de uma coleção que ainda inclui O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald), Assim Falou Zaratustra (Friedrich Nietzsche), A Metamorfose (Franz Kafka), entre outros. A coleção se chama L&PM Pocket Mangá e, apesar de interessante e bem realizada, não se baseia num conceito inédito. O próprio texto de Hamlet já recebeu incontáveis adaptações para mangá e quadrinhos de estilo ocidental. Contudo, a cópia que tenho em mãos talvez seja uma das melhores tentativas de aplicação do conceito. Já que sua linguagem é acessível sem empobrecer o sentimento original de Hamlet e sem descambar para o pedante. É certeira, mas claro que nem de longe é perfeita. E tratarei dos pontos positivos e negativos do mangá adiante.

 

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Uma coleção que vale a pena!

 

Como dito antes, a conversão de literatura ocidental em mangás, ou mesmo em animes, não é ideia nova. Para animes, o caso mais ilustre talvez seja o longevo selo World Masterpiece Theater, que trouxe dezenas de animações adaptando livros infantis clássicos do ocidente, entre os anos de 1969 e 1997 (com breve retorno entre 2007 e 2009). Já envolvendo mangás, são notáveis alguns trabalhos individuais, como as adaptações de Osamu Tezuka: O Mercador de Veneza (Shakespeare) e Crime e Castigo (Dostoyevsky); ou as adaptações de contos de fadas de Junko Mizuno, como João e Maria, Cinderela e A Pequena Sereia. Merece nota também a coleção Manga Classics, que inclui adaptações de Jane Austen e Les Misétables, por exemplo.

Hamlet, no presente mangá, é o tipo de releitura “cena-à-cena”, ainda que cortando boa parte dos floreios típicos dos diálogos de Shakespeare. E se os diálogos vão direto ao ponto, o mesmo pode ser dito sobre os acontecimentos como um todo. Passagens menos relevantes para o cerne da história são reduzidas a uma página ou mesmo a dois ou três quadrinhos, como a morte de Ofélia ou a introdução de Rosencrantz e Guildenstern. Não há gordura onde não é necessário. O enredo, assim sendo, se atém ao que é fundamental no texto de Shakespeare: os sentimentos de impotência e obsessão do protagonista Hamlet, alternando entre si em sua busca por vingança, enquanto traz luz aos demais personagens em suas próprias situações de impotência e obsessão. O príncipe homônimo da Dinamarca irá conspirar contra sua mãe e seu tio, o recém-coroado rei. O rei original, pai de Hamlet, supostamente foi assassinado, e o príncipe diz se fingir de louco enquanto busca vingança, sem perceber que talvez esteja de fato enlouquecendo.

Para ilustrar melhor as diferenças entre o texto original e a adaptação em mangá, analisarei a sequência em quadrinhos do monólogo mais famoso de Hamlet: a crise existencial do protagonista. Aqui, veremos quais partes do monólogo a adaptação priorizou, quais falas se restringem a caracterizar a psique do personagem e quais falas caracterizam também sua ação e o ambiente que o cerca, e de que formas a disposição dos quadros pode exaltar ou atenuar os momentos de clímax.

 

 

A começar pela entrada de Hamlet em cena. Enquanto aguarda a execução de seus planos na apresentação dos saltimbancos, Hamlet vaga pelos corredores vazios do castelo real. Os quadros 1, 2, 3 e 4 nos indicam como o personagem tem andado com a cabeça cheia de pensamentos e angústias. Ele olha para o chão, dando passos largos (1); se detém (2), ameaça dar outro passo e retomar a caminhada, mas hesita (3). E desfere: “ser ou não ser…” (4). Como tema do próprio monólogo, a questão da ação versus inação representa a vida versus a morte na percepção de Hamlet. O “ser” é o agir, é o caminhar; ao se deter e hesitar, Hamlet pensa no “não ser”, na morte. No não agir. “Eis a questão”! – a questão existencial que acompanha o protagonista por toda a obra (5). Mas o monólogo prossegue; no quadro 6, a tomada geral (long shot) coloca os pensamentos de Hamlet em perspectiva, enquanto o personagem segue sua ponderação sobre a nobreza e a própria validade de se agir ou não. O plano aberto, com Hamlet de costas, nos coloca do lado de fora do personagem. Aqui, não devemos necessariamente nos identificar com Hamlet, e sim vê-lo em terceira pessoa, para entendermos a realidade do príncipe e o papel que ele representa nesse mundo que o circunda. É válido, entretanto, perceber que as colunas do castelo o isolam, como se a infraestrutura básica da nobreza da Dinamarca o aprisionasse em suas perguntas.

 

 

Com os quadros 7, 8 e 9, vemos sombras envolverem Hamlet aos poucos, enquanto o enquadramento vai se fechando em seu rosto, em seu olho esquerdo. Nesse ponto, Hamlet está avaliando a ideia de que “o sono põe fim […] ao sofrimento do coração”. O príncipe se vê perplexo com a tentação de não mais precisar viver e lutar pelos seus objetivos. É a sombra da morte o tentando, e o consumindo. Quando novamente abre os olhos, somos postos na perspectiva de Hamlet. O quadro 10 é visto em primeira pessoa, como se fossemos colocados à força no corpo do personagem. E o que ele vê, depois de ser tentado pelo sono final? A escuridão. Um longo corredor, destituído de toda luz. No entanto, a paz dessa resolução dura pouco. Afinal, não sabemos o que encontraremos quando partirmos desse mundo. “E por isso hesita[mos]”. Hamlet encara a escuridão, e novamente pondera se é melhor se agarrar à vida incerta do que se entregar à morte misteriosa. No quadro 11, alguma luz volta a cercar o personagem, e nosso desconforto ao ocupar o lugar do príncipe desaparece: agora o vemos de fora outra vez, ainda consternado com seus pensamentos. A dúvida de Hamlet ainda está lá, no quadro 12. Porém, depois de ter avaliado o morrer, Hamlet admite que “mesmo as resoluções tomadas com determinação” continuarão contaminadas pelo pensamento; a hesitação nunca terá fim enquanto o príncipe viver num mundo tão imprevisível, onde a morte é tão insondável. Novamente resoluto nos quadros 13 e 14, Hamlet volta a caminhar no quadro 15, até enfim atravessar o portal metafórico de sua consciência, representado pela porta que se fecha atrás do personagem no quadro 16. E assim, é somente através do salto lógico sobre a tentação da morte e da inação que Hamlet pode encontrar Ofélia no quadro 17.

Como adaptação, o mangá de Hamlet pode ser sintetizado pela cena que dissequei acima. Ou seja, o uso da linguagem visual é complementar ao roteiro, porém sem grandes extravagâncias. A adaptação se utiliza de uma quadrinização expressiva ainda que sutil. A meu ver, o que se priorizou nas metáforas visuais foi a eficiência. Por Hamlet fazer parte de uma coleção de mangás, imagino que a intenção da editora tenha sido não dar uma cara muito autoral a cada adaptação, mas deixá-las o mais padronizadas possível. Assim, o que se ganha em consistência na coleção como um todo, talvez se perca em bem-vindas licenças poéticas. E o leitor mais assíduo de mangás – um tipo de literatura, por definição, bastante autoral – talvez sinta falta de uma personalidade distinta nas cenas e nos traços dos personagens. Ainda assim, e é bom deixar claro, Shakespeare continua sendo Shakespeare. E esta edição de Hamlet não falha em dar vida ao texto indispensável do dramaturgo, sendo ainda uma válida e divertida forma de introduzir novos leitores aos clássicos da literatura.

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