One Punch Man 2: Indústria e Transformação

Ou, uma leitura da indústria atual usando um anime de grandes expectativas.

COMENTÁRIOS ANÁLISE REVIEW ONE PUNCH MAN

 

Aviso: para melhor aproveitamento deste artigo, não se esqueça de conferir nosso Glossário de Termos!

 

A recente notícia, sobre a segunda temporada de One Punch Man ter saído das mãos do estúdio Madhouse e sido repassada ao estúdio J.C.Staff, pegou muita gente de surpresa. Apesar do susto, esse tipo de troca não é, nem de longe, algo incomum na indústria. O que me faz pensar que, para nós ocidentais, esse caso não diga tanto assim sobre One Punch Man em si – ou sobre a eventual queda de qualidade da segunda temporada. Não se trata de um único anime. Mudanças de estúdio e de staff nos revelam coisas em maior escala, como o estado atual da tradicionalíssima Madhouse, ou mesmo da indústria como um todo e suas oscilações imprevisíveis. Mas vamos com calma.

Há tempos cogito escrever sobre as mudanças que a Madhouse vem passando na atual década, e sobre como a boa fama do estúdio ofusca a nossa percepção, como otakus e como fãs do estúdio. É bom não nos esquecermos: estúdios são empresas, são corporações, que operam segundo o lucro, num mercado altamente instável como o dos animes. Que a Madhouse não é a mesma de outrora, talvez todo mundo já tenha se dado conta a essa altura. Para os que não se deram conta, a notícia de One Punch Man 2 talvez traga alguma luz.

A Madhouse possui um legado e uma história que se fundem aos próprios legado e história da animação japonesa. Fundada em 1972, por quatro caras que se conheceram no Mushi Pro. Caso o leitor não reconheça de nome, o Mushi Pro é o estúdio de Osamu Tezuka, e foi pioneiro na produção de animes para televisão. Os quatro caras em questão são Masao Maruyama, Osamu Dezaki, Rintarō (pseudônimo de Shigeyuki Hayashi) e Yoshiaki Kawajiri. Trarei mais detalhes sobre eles adiante.

 

COMENTÁRIOS ANÁLISE REVIEW ONE PUNCH MAN

O grande Tezuka posando diante de seu estúdio: daqui saiu Astro Boy, e tudo que conhecemos como “anime”!

 

Como a notícia teve ares de má notícia, trago para o texto um pouco da história do J.C.Staff também, que acabou por parecer um estúdio menor ou menos capaz que a Madhouse na discussão da comunidade otaku. Pelo menos essa é a impressão que fica. Assim, já adianto que tratam-se de dois estúdios com trajetórias e filosofias de trabalho bem diferentes um do outro.

Fundado em 1986, o J.C.Staff é igualmente tradicional na indústria, apesar de mais jovem que a Madhouse. Historicamente, é um estúdio que sempre priorizou obras de fantasia, como Metal Fighter Miku, Slayers e Revolutionary Girl Utena. Desde os anos 2000, o J.C.Staff passou a ficar conhecido pelas adaptações de mangás e light novels de comédia e comédia romântica, como Toradora! e Shokugeki no Sōma, por exemplo. Uma pequena tendência do estúdio, em anos recentes, são as incursões ao gênero iyashikei, como em Flying Witch e Amanchu!. Como bem podemos perceber, e aqui residem as preocupações da maioria, animes de ação não costumam ser o forte do J.C.Staff. No entanto, é de se respeitar as experimentações do estúdio com gêneros variados, ainda que a sobrecarga de produções por temporada tendam a prejudicar algumas de suas obras.

 

COMENTÁRIOS ANÁLISE REVIEW ONE PUNCH MAN

Flying Witch, do J.C.Staff: lindo e… parado

 

Por comparação, temos uma Madhouse cada vez mais estagnada, com anúncios pouco chamativos a cada ano e um quadro de funcionários em franca queda. E foi na virada da década que vimos essa mudança, quando ocorreu um êxodo generalizado de grandes talentos associado, em partes, a algumas fatalidades. Se lembra dos quatro pais-fundadores do estúdio, que citei acima? Pois bem, o primeiro a deixar a Madhouse, em meados de 2011, foi Masao Maruyama, produtor de praticamente todos os clássicos do estúdio – Legend of The Galactic Heroes, Trigun, Sakura Cardcaptor, a lista é enorme… Sua saída foi motivada pela morte precoce de seu pupilo, Satoshi Kon, que dispensa apresentações. Maruyama, assim, fundou o estúdio Mappa no mesmo ano justamente para finalizar o filme não-finalizado de Kon, Dreaming Machine. Um projeto que, até o momento, não saiu do papel.

Mais ou menos na mesma época, Rintarō (diretor de X/1999 e Metropolis), o segundo pai-fundador da Madhouse, dirige seu último filme pelo estúdio, Yona Yona Penguin. Já em 2011, temos outro evento triste: Osamu Dezaki, terceiro pai-fundador e fumante notório, morre de câncer de pulmão, deixando em seu currículo obras como Ashita no Joe, Ace o Nerae e Rosa de Versailles. Por sinal, caso o leitor deseje assistir animes dos anos 70 e não saiba por onde começar, os animes de Dezaki são uma ótima porta de entrada. Com os acontecimentos acima, resta hoje na Madhouse apenas um membro-fundador: Yoshiaki Kawajiri, de Ninja Scroll e Vampire Hunter D: Bloodlust.

 

COMENTÁRIOS ANÁLISE REVIEW ONE PUNCH MAN

Da esquerda para direita: Kawajiri, Rintarō, Dezaki e Maruyama

 

Outros artistas não seguiram o exemplo de Kawajiri, dando continuidade ao esvaziamento do estúdio: Masaaki Yuasa (Kaiba, Tatami Galaxy) fundou seu próprio estúdio Science Saru; Mamoru Hosoda (The Girl Who Leapt Through Time, Summer Wars) fundou seu próprio estúdio Chizu; Masayuki Kojima (Monster) se juntou ao Kinema Citrus para dirigir Black Bullet e Made in Abyss; Testurō Araki (Death Note, Highschool of The Dead) se juntou ao Wit Studio para dirigir seus apocalipses zumbi Attack on Titan e Kabaneri of The Iron Fortress; entre tantos outros talentos lançados pela Madhouse.

No caso de One Punch Man, não é tanto o fim dos laços com a Madhouse que pode condenar sua segunda temporada. Afinal, como relatei neste post, a primeira temporada de One Punch Man é praticamente um anime do estúdio Bones “abrigado” na Madhouse. Ou seja, o diretor Shingo Natsume e seu verdadeiro dream team de animadores são basicamente freelancers com históricos recentes em Space Dandy e Mob Psycho 100 – ambas pérolas do Bones. A Madhouse, se me permite o trocadilho, serviu somente como a casa onde esses caras ficaram hospedados para produzir a primeira temporada de One Punch Man. Pensando por esse lado, não seria nenhum contratempo se a mesma equipe passasse da Madhouse para o J.C.Staff – ou qualquer outro estúdio, aliás. Nesse contexto, portanto, devemos nos preocupar muito mais com a mudança de staff do que com o prédio onde One Punch Man será manufaturado – ou do que com o meme “Madhouse não faz segundas temporadas”. Chikara Sakurai, convocado para dirigir One Punch Man 2, animador há tempos porém de carreira diretorial ainda breve, dificilmente terá a inventividade de um Shingo Natsume nos storyboards. E o pior: sem dúvidas não trará consigo uma equipe invejável de animadores.

É claro, toda minha argumentação possui viés somente especulativo, mas a apreensão me parece razoável. No mais, eu diria que a notícia não me desanimou, como vi acontecer com outros blogueiros e youtubers. A encarei como (mais um) sintoma da atual fase da Madhouse, e como outra típica bizarrice da indústria que leva pessoas a dizerem “é, melhor ler o mangá”. Convenhamos, há um arco dramático interessante acontecendo nos bastidores de One Punch Man: um mangá mal desenhando, que passa a ser bem desenhado por outro cara, adaptado para um anime bem produzido, que passa a ter uma produção inferior com outros animadores e outro diretor. Sendo que, a meu ver, One Punch Man 2 dificilmente será um anime ruim, graças a todo o coração depositado por ONE em seu material fonte. Teremos somente um anime mundano, provavelmente. E toda essa situação é, pra dizer o mínimo, curiosa. Só no Japão mesmo…

 


 

E você? O que espera de One Punch Man 2? Acha que vale a pena perder os cabelos com o J.C.Staff? Me deixa saber nos comentários! E certifique-se de voltar ao Otaku Pós-Moderno e à coluna de Estudos sobre a Indústria. Ittekimasu!

3 comentários sobre “One Punch Man 2: Indústria e Transformação

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.