Indicamos: Castlevania

Hoje indicamos a animação mais recente da Netflix, a adaptação do clássico Castlevania!

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A nossa tão querida Netflix, que tem mandado bem na escolha de animes ultimamente, disponibilizou em seu catálogo os primeiros quatro episódios de Castlevania. Baseada na franquia de jogos da desenvolvedora Konami, a série surge como uma grata surpresa aos fãs de videogames. Produzido pelo estúdio Frederator (o mesmo de Hora de Aventura), Castlevania é o típico “anime americano”. Você sabe, como Avatar e Samurai Jack. Os dólares são dos States, enquanto a estética é de animação japonesa — que é o que realmente importa num blog otaku.

Em Castlevania, a cientista Lisa, esposa do Conde Drácula, é capturada pela Igreja e levada à fogueira acusada de bruxaria. Enlouquecido de raiva, o viúvo ainda concede aos cidadãos da Wallachia o intervalo de um ano para se mandarem dali. Após esse período, vocês foram avisados, Drácula retornaria e traria o Inferno sobre a Terra. Como esperado, ninguém deu ouvidos, e agora monstros e demônios se alimentam de sangue humano todas as noites. Até que Trevor Belmont, herdeiro da maior família de caçadores de criaturas da noite, sai das cinzas de sua própria vida boêmia e decide cumprir o dever de sua linhagem.

 

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Conde Drácula

 

Quem está acostumado a ler Berserk (AKA, “gosta ou não liga pra gore“) vai curtir especialmente as cenas de mutilação e a literal chuva de sangue que Drácula trás à Wallachia logo no primeiro episódio. Se isso diz algo sobre o clima da série, devo acrescentar que a estética de Castlevania é bastante dark e há um ar gótico nos cenários. O céu vive nublado, tudo se dá em tons de preto e vermelho. E apesar desse clima, o espectador deve esperar por pitadas bastante apropriadas de humor negro. Há uma cena que sintetiza essas características da série brilhantemente: quando um padre malvado perde o segundo olho (Trevor já havia arrancado o primeiro com um chicote), numa ágil punchline que une comédia e gore ao mesmo tempo.

Isso me agradou bastante na série, o jeito como o céu carregado e a fotografia escurecida dialogam com o cinismo do protagonista. Afinal, o carrancudo Trevor é o último herdeiro da excomungada família Belmont. E qualquer pessoa que nunca nem encostou as mãos nos jogos da franquia (como é meu caso) logo entende que Trevor tem um denso passado atrás de si, e convive com ambos o fardo e a glória de seu sobrenome.

 

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Trevor Belmont

 

Outro ponto interessante de Castlevania é o tom de prólogo que a coisa toda adquire após a cena final da série. Confuso? Bem, como explico isso sem dar spoilers? Acontece que Castlevania termina com certo conflito sendo resolvido, e tal resolução serve claramente como preâmbulo à(s) próxima(s) temporada(s). Esses primeiros 4 episódios não passam de uma introdução à história e ao mundo de Castlevania — e você se sente ávido pela continuação assim que sobem os créditos. Para nossa sorte, a Netflix já confirmou o lançamento de 8 novos episódios no ano que vem.

Curiosa também é a dinâmica “videogamística” da série. Isso é perceptível na forma como a câmera segue Trevor pelas costas enquanto ele desce até as catacumbas da cidade para resgatar um membro dos Oradores, antigos aliados dos Belmonts. Nessa sequência, ele precisa derrotar o ciclope que descansa no fim da dungeon, tendo poucos segundos para executar um plano improvisado e soltar um combo. Para, assim, descobrir que o Orador resgatado é uma bela mocinha (que também sabe lutar). Bem videogame, bem RPG, bem divertido.

 

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O nome dela é Sypha, aliás

 

Pessoalmente, acho incrível uma franquia de jogos tão antiga e influente raramente se aventurar no campo das adaptações. Nesses 30 anos de Castlevania, tudo que existiu foi um obscuro desenho animado estadunidense/canadense nos anos 80, que apenas reaproveita personagens da franquia em outro contexto, e um OVA irrastreável que parodia Castlevania. Ou seja, o desenho da Netflix é a primeira obra animada que aborda a franquia diretamente. Ah, sim, também existem alguns mangás curtos, lançados e perdidos pelo tempo. Mas é claro que outras tentativas audiovisuais não faltaram, e aqui você encontra mais detalhes sobre a verdadeira odisseia que foi a não realização do filme de Castlevania, pelo diretor Paul W. S. Anderson. Falando no cara, suas adaptações de jogos como Mortal Kombat (1995) e Resident Evil (2002) poderiam ter seguido o exemplo de Castlevania e jamais alcançado os cinemas, não é mesmo? Videogames e adaptações possuem um longo e nebuloso histórico, e a boa série de Castlevania talvez deixe qualquer gamer um pouco mais otimista quanto a futuras tentativas.

 

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O trash e cara-de-pau Mortal Kombat de 1995: esse lixo que eu adoro

 

Ao leitor familiarizado com Castlevania, penso que a experiência de assistir à série adquira uma camada extra, na forma de referências e easter eggs. Para mim, era curioso ver que determinados personagens, determinados objetos e determinadas informações eram enfatizados com insistência. A câmera se prendia a certos elementos que, imagino, ergueriam as sobrancelhas dos fãs da franquia; enquanto, na minha ignorância, não me remetiam à nada. Mas tudo bem. É sério, tudo bem mesmo. Não peguei nenhuma referência aos jogos e nem mesmo as pesquisei depois, já que a série também funciona perfeitamente para casos como o meu. Afinal, trata-se de uma história simples inicialmente, que apoia-se no conhecido mythos do Conde Drácula e em personagens bastante carismáticos, num cenário atraente e bem realizado.

Quanto à animação de Castlevania, vou me amparar no texto mais recente do É Só Um Desenho. No artigo, Diego nos indica as três principais medidas para sabermos se uma animação é “boa ou ruim”. Aqui, vou me ater ao primeiro: o movimento, a chamada fluidez, definida segundo a proporção entre o número de quadros por segundo e o detalhamento de cada um desses quadros. Em animes, normalmente temos quadros polidos e ricos em detalhes, principalmente em background art, mas muitas vezes também em figurino e character design no geral. Como compensação, a taxa de quadros por segundo em animes costuma girar em torno de 8fps, podendo chegar a ridículos 4fps. Exatamente, 4 quadros por segundo. Recordo ao leitor que animações ocidentais geralmente mantém um padrão de 12fps. Já o cinema tem por hábito o uso de 24 quadros por segundo. Apesar de mídias bem distintas, ainda é espantoso perceber que filmes apresentam seis vezes mais quadros por segundo do que animes. E é compreensível: Osamu Tezuka estabeleceu, há milênios, o formato predominante de animação japonesa barata e de massa. Queiram os fãs ou não, esse tipo de economia técnica é o que possibilita os atuais cinquenta animes por temporada. No ocidente, ao contrário, animações costumam contar com sequências restritas em detalhamento, mas ricas em movimentação. Algo nítido em Castlevania, ainda que hajam cenários e figurinos de personagens relativamente complexos — mesmo que auxiliados por um CG ou outro de vez em quando. Nesses quesitos, sinto que Castlevania ativou minha nostalgia e me remeteu imediatamente a clássicos infanto-juvenis recentes, como Batman: The Animated Series (1992) e X-Men: Evolution (2000).

 

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Pérolas da televisão

 

Já que surgiu o assunto da fluidez em animação, recomendo uma postagem no Reddit que compilou algumas cenas de animes reajustadas para 60 quadros por segundo(!). Como sonhar nunca é demais, deixo o link aqui, para todos que quiserem imaginar como seriam os animes num universo alternativo hippie onde dinheiro nunca existiu — e portanto nunca faltou.

Enfim, fica a recomendação de Castlevania, da Netflix. Uma obra que tende a agradar gamers e não-gamers, otakus e não-otakus. No mais, estejam atentos ao Otaku Pós-Moderno, onde fazemos o possível para indicar animes toda sexta-feira, e trazemos todo tipo de artigo sobre animes e mangás no resto da semana. Ittekimasu!

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