Macross no Ocidente: o curioso caso de Robotech

Fruto das típicas complicações por trás da indústria televisiva, Robotech foi a porta de entrada à cultura otaku para inúmeros jovens ocidentais. Mas qual a relação entre Robotech e Macross? Descubra aqui!

robotech macross análise review comentários

 

Na longínqua tradição mecha, Macross figura entre as franquias mais relevantes. Com sua primeira obra datada de 1982, a série The Super Dimension Fortress Macross representou uma pequena revolução no gênero. Mobile Suit Gundam havia surgido em 79, mas o diferencial de Macross, que o destacou tematicamente de produções cujas fórmulas já começavam a se repetir, foi sua fusão de romance e música à habitual trama fantástica envolvendo guerras espaciais e robôs gigantes. A mistura fez enorme sucesso, e continua sendo um alicerce da franquia.

 

robotech macross análise review comentários

Lynn Minmay, de Macross: a primeira idol virtual de que se tem notícia

 

Porém, você sabia que a viagem de Macross para o Ocidente, ainda nos anos 80, teve particularidades que confundem otakus até hoje? Quem usa bastante Netflix pode já ter reparado num anime obscuro, que pouco chama atenção no catálogo, com o título “Robotech”. Para o leitor mais velho, o nome talvez soe familiar. Aos mais jovens, como eu, experimentem fazer um teste, e perguntem aos seus pais se eles têm lembrança do nome “Robotech”, quando assistiam desenhos na TV. Há pais que se lembram!

Pois bem, acontece que Robotech é Macross. Ou não exatamente… O correto seria afirmar que Robotech contém Macross. Confuso? Acredite ou não, “Robotech” é uma franquia criada aqui no Ocidente, e nada mais é do que uma compilação de três animes sem nenhuma relação entre si, densamente editados e colados um ao outro para fazerem sentido, como se fossem uma única série. Dentre eles, Macross. Sim, é confuso. Mas permita-me explicar como tudo aconteceu, para no fim deixar a você, leitor, a opção de julgar se Robotech merece aplausos pelo que fez em sua época, ou se merece apenas olhares perplexos pelo grande emaranhado que gerou.

 

robotech macross análise review comentários

Pôster de Robotech, com Macross no centro

 

Nossa história começa em 1980, quando os amigos Shouji Kawamori, Haruhiko Mikimoto e Hiroshi Ounogi, fundadores de um fã-clube de Gundam em sua faculdade um ano antes, dão os primeiros passos na criação do universo ficcional de Macross. Numa parceria entre o Studio Nue (onde Kawamori ingressara como estagiário) e a Tatsunoko Production, The Super Dimension Fortress Macross estreia na televisão japonesa no fim de 82 – e instantaneamente alcança sucesso absoluto. A carreira de Kawamori ganha asas, o character design de Mikimoto angaria admiradores dentro e fora da indústria, e o roteirista Ounogi escreverá um anime de mecha atrás do outro (exceto quando se tornará compositor de série do excelente Fullmetal Alchemist: Brotherhood, em 2009). Os três amigos, como era de se esperar, ainda se envolverão com obras de Gundam em vários momentos de suas carreiras. Além de Macross, evidentemente.

Já em 1984, do outro lado do mundo, a fabricante de model kits estadunidense Revell lança sua nova linha de produtos: modelos de mecha importados diretamente do Japão. Sob a alcunha de “Robotech Defenders”, os model kits eram baseados nos animes de Macross, Super Dimension Century Orguss (1983) e Fang of the Sun Dougram (1981). Curiosamente, a Revell tinha uma parceria com a DC Comics na época. E assim, numa jogada ousada de marketing, a DC anuncia uma série de HQs adjacente ao lançamento dos model kits da Revell. Também chamadas de Robotech Defenders, as HQs tinham um enredo inteiramente original, baseado simplesmente na aparência dos modelos, sem qualquer menção aos animes que inspiraram tais modelos. Planejada como uma trilogia, a série de HQs de Robotech Defenders foi cancelada no segundo volume, com vendas insatisfatórias. Já os model kits obtiveram relativo sucesso.

 

robotech macross análise review comentários

A HQ de Robotech da DC chegou a vir pro Brasil, apesar de contar com tradução mediana

 

No mesmo ano de 84, a distribuidora estadunidense Harmony Gold tenta licenciar, pela primeira vez no Ocidente, o anime de Macross. Completo, diretamente para vídeo. Seria ótimo. Porém, já que os direitos ocidentais de Macross pertenciam à Revell, a Harmony Gold foi obrigada a assinar um acordo de co-licenciamento, mediado pela própria Tatsunoko. Com isso, o nome “Macross” não pôde ser utilizado, e qualquer lançamento envolvendo a franquia, fosse para vídeo ou televisão, deveria estar sob o nome “Robotech”.

Os problemas, contudo, não pararam por aí. A Harmony Gold, fortalecida pelo contrato com Revell e Tatsunoko, decide pensar grande, e tenta vender os direitos de Macross, ou Robotech, para alguma rede de televisão. Entretanto, devido à filosofia estadunidense/ocidental de transmissão de desenhos animados, nenhum canal de TV dava ouvidos à Harmony Gold. Tal filosofia, e todos nós a conhecemos bem, dá preferência aos desenhos longos e facilmente reprisáveis. Quanto mais episódios melhor: eles podem ser transmitidos de segunda à sexta, e num looping sem fim. O canal não precisa ter trabalho algum, e as crianças que aceitem.

 

robotech macross análise review comentários

Quantas vezes nós não acompanhamos Cavaleiros até a Casa de Leão? Pois é, culpe o modelo americano de fazer TV!

 

 

Para resolver o problema, e enfim transmitir Robotech/Macross, a Harmony Gold apelou para o famoso “pacotão”, prática que se tornaria cada vez mais comum com animações. Comum até hoje, vale dizer. Assim, a empresa adquire os direitos das séries menos expressivas Super Dimensional Cavalry Southern Cross (1984) e Genesis Climber Mospeada (1983), e literalmente funde-as com Macross, dando vida à uma criatura nunca antes vista em seus 85 episódios, e ainda chamada de Robotech.

Ou seja, aquilo que temos no Netflix, e que alguns brasileiros assistiram na Globo nos anos 80, são um compilado dos 36 episódios de Macross, os 24 de Southern Cross e os 25 de Mospeada! Os Estados Unidos são incríveis, não?

 

robotech macross análise review comentários

Southern Cross e Mospeada: pouca ou nenhuma semelhança com Macross

 

Obviamente, algum trabalho de edição foi exigido da Harmony Gold para condensar três animes cuja única relação se dá na presença de robôs gigantes e na temática espacial. Os roteiros das séries foram reescritos, para que os diálogos originais fossem jogados no lixo e a dublagem em inglês começasse praticamente do zero, criando um novo enredo unificado. Na verdade, toda a parte sonora dos animes foi descartada: trilhas sonoras e músicas de abertura e encerramento também foram remanejadas. Sem contar cenas e segmentos inteiros censurados ou simplesmente cortados fora.

O resultado do massivo “retoque” nos apresenta uma narrativa que se alonga por três gerações da humanidade, cada uma lidando com uma nova guerra contra raças extraterrestres. A criativa solução ainda permitiu que Robotech tivesse um ar épico, por mais que inúmeros furos de roteiro surgissem pelo caminho. Sem dúvida, apesar de ser um legítimo monstro de Frankenstein, o roteiro de Robotech apresenta uma sólida progressão com começo, meio e fim. Talvez não tão sólida, mas ainda respeitável se considerarmos o tamanho do pepino que a Harmony Gold tinha em mãos na época. Lembre-se de que licenças expiram, e o lançamento da série ainda em 1985 nos mostra que os envolvidos souberam administrar o relógio – ou correr contra ele.

 

1404

Embalagem original de Robotech, da Revell: precursora de um fenômeno!

 

A audiência foi altíssima, promovendo a exportação de Robotech para Europa e o resto das Américas. Aliás, é de se imaginar que o sucesso da série resida justamente na sua parcela Macross, que representa a primeira metade de Robotech. Infelizmente para a Harmony Gold, todas as tentativas posteriores de produzir obras da marca Robotech fracassaram ou foram canceladas. Entretanto, seu legado já havia se consolidado: toda uma geração pôde se encantar com as animações japonesas de robôs gigantes, antes mesmo de descobrirem que havia um nome pra isso. Mecha. O gênero havia se popularizado, e o que antes precisava ser emendado e costurado, agora encontrava uma demanda.

Por fim, como sugeri no início do artigo, relego ao leitor o julgamento a respeito de Robotech. Ainda assim, não podemos nos esquecer que o anime possui uma importância histórica para o Ocidente. Afinal, no mesmo princípio de década tivemos uma série animada, atrelada a uma coleção de model kits e uma linha de HQs. É um fenômeno sem igual – mesmo que pouco disso tenha sido planejado, ou mesmo compreendido pelos seus responsáveis. Quanto ao anime, pessoalmente o recomendo apenas pela curiosidade, pelo estudo. Em termos, principalmente, de roteiro e trilha sonora, é preferível assistir logo a Macross ao invés de Robotech. No mais, comente abaixo suas impressões sobre o assunto, e volte sempre ao Otaku Pós-Moderno para mais cultura mecha e otaku. Ittekimasu!

Anúncios

2 comentários sobre “Macross no Ocidente: o curioso caso de Robotech

  1. José Roberto disse:

    Fica uma dúvida: Macross (primeira parte de Robotech) está integral e segue a originalidade da sére, ou esta também foi retalhada e a versão original é mais completa/diferente?

    • Guiper disse:

      Então… Eu diria que a parcela Macross em Robotech começa igualzinho à original, e vai sendo cada vez mais retalhada ao longo dos episódios.

      Ambas começam com a nave Macross caindo na Terra, o primeiro conflito com os Zentradi, etc etc etc; tudo igual.

      O problema é que mais pra frente o final de Macross precisou ser costurado ao início de Southern Cross. E aí já viu né cara…
      Mesmo assim, das três séries Macross é a que menos sofreu mudanças.

      A diferença mais polêmica é um certo casal que se forma… Isso parece que dá briga até hoje, mas não vou te dar spoiler hahahaha

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s