Muito poder, e poder nenhum: sonho e loucura em Gundam: Iron-Blooded Orphans e Code Geass

Uma análise comparativa entre obras possivelmente análogas, visto que são irmãs por parte da mãe Sunrise.

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Aviso: spoilers massivos de Gundam: Iron-Blooded Orphans e Code Geass.

 

A recente conclusão de Mobile Suit Gundam: Iron-Blooded Orphans, ou simplesmente Orphans, como irei me referir aqui, me deixou com um gosto estranho na boca. E não é como se eu não respeitasse, ou minimamente gostasse da série. Pelo contrário, maratonei extasiado à primeira temporada, no ano passado. E nos últimos meses acompanhei avidamente aos episódios semana após semana. Vejo incontáveis méritos no anime, como as sequências de batalha, as escolhas de músicas e trilha sonora (que analisei aqui), e o bom roteiro de Mari Okada (apesar de alguns pontos baixos, principalmente na segunda temporada). Tais problemas, imagino, derivam muito mais da árdua tarefa de escrever, sozinha, uma série de 50 episódios para televisão, do que por falta de consistência narrativa. É apenas natural que haja oscilações num roteiro desse tipo, e no seu próprio grau de investimento, como espectador, no arco X ou Y de uma série tão longa.

Mas já que citei investimento, e aqui me refiro à ideia de investimento emocional em específico, penso que seja precisamente nesse quesito que fui me desligando do anime na sua reta final. Como falei, o roteiro é bem concebido, a série o realiza com competência; meu bloqueio foi uma questão, digamos, de humanidade.

 

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Explico: mesmo que sejam bem escritos e de motivações compreensíveis, os personagens de Orphans foram me parecendo cada vez menos relacionáveis com o tempo. Principalmente a dupla Orga e Mikazuki. De início, são intrigantes a dinâmica entre eles e a carga dramática de seu passado juntos, e elas conduzem não apenas seus companheiros ex-escravos, agora membros da organização independente Tekkadan, a um horizonte mais esperançoso, como também conduzem a própria série durante toda a primeira temporada. Isso é, sua grande (primeira) missão é escoltar a “Donzela Revolucionária”, Kudelia Aina Bernstein – você ouvirá esse nome com certa frequência –, de Marte para a Terra, onde espera-se que negociações comecem a ocorrer no sentido de libertar crianças, como as da Tekkadan, de trabalhos forçados na colônia marciana. Quase despretensiosa tematicamente, essa primeira temporada de Orphans encapsula com maestria o sentimento de opressão e o desejo de liberdade de Orga, Mikazuki e as outras crianças.

A partir da segunda temporada, contudo, o que me parecia um mero detalhe, ou até um erro de interpretação da minha parte, começa a aleijar o enredo na mesma medida em que Barbatos faz com Mikazuki. Esse detalhe é o, frequentemente ignorado, teor doentio da relação entre este e Orga. Ou, em outras palavras, a passividade de Mikazuki nos momentos de decisão, sempre esperando pelas ordens de seu duplo; e a insegurança de Orga em se portar como líder sem ter Mikazuki como açougueiro fiel. Ambos retroalimentando tais ciclos um do outro. Sem falar nos possíveis indícios da psicopatia de Mikazuki (apesar de estes se refletirem em belas cenas de luta). Somado a essa relação esquisita, temos um grupo inteiro de seguidores, a Tekkadan, que concordam com o que quer que Orga e Mikazuki decidam. Agora, antes de me aprofundar nessas interações, e em como elas se tornam nefastas principalmente na segunda temporada, me permita traçar um paralelo em prol da argumentação.

 

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Passei a comparar bastante, na minha cabeça, Orphans com Code Geass, um anime ainda fresco no pensamento coletivo otaku, o que me poupará introduções. De cara, compará-los faz sentido esteticamente, por serem ambos dramas políticos, animes de mecha do estúdio Sunrise, com duas temporadas de 25 episódios cada. Faz sentido tematicamente, já que, pelo menos inicialmente, temos a história de um grupo de underdogs (Tekkadan em Orphans e a futura “Ordem dos Cavaleiros Negros” em Code Geass) se unindo à uma figura marginalizada apesar de nascida em berço de ouro (Kudelia e Lelouch, respectivamente). Só pela curiosidade: o padrão se repetirá em Akito the Exiled, spin-off de Code Geass, mas em menor escala e num claro mirroring da série principal. Por fim, a comparação alcança sua plenitude no aspecto emocional das duas séries, já que ambas introduzem personagens quebrados, ou com uma psicologia quebrada, desde muito jovens convivendo com a exclusão e o abuso. Nesse ponto, a única exceção é Kudelia, porém Orphans consegue contrabalancear esse quesito com um personagem como McGillis, apesar de este não lutar em nome de nenhum underdog além de si mesmo.

Como falei em McGillis, é importante acrescentar que um backstory trágico também estará presente para outros personagens de ambas as séries, como os vários Refugos Humanos, em Orphans, que a Tekkadan enfrentará pelo espaço, bem como Amida e as outras Turbines; em Code Geass, Suzaku e C.C. também não conheceram nada além de desgraças. Com isso, boa parte dessas pessoas parece possuir visões distorcidas, até bizarras, do mundo. E almejam fortemente não apenas se libertar de suas circunstâncias e ter uma vida digna, mas realmente promover mudanças no seu entorno. Há, nesses personagens, um desejo de se vingar; se vingar não de alguém em especifico, mas do universo, de todo um sistema, de todo um contexto histórico, social e político. Talvez essa seja a verdadeira ponte entre as duas séries, e um legítimo traço gerador de pathos na ficção como um todo.

 

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O mundo é cruel em Orphans…

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…e igualmente cruel em Code Geass

 

O que ocorre, no entanto, é que algumas pessoas, como Lelouch, Suzaku, Orga e McGillis, eventualmente vão além do simples desejo de mudança, diferenciando-se de uma C.C. ou uma Kudelia, por exemplo. Nasce neles um impulso megalomaníaco, advindo sim das marcas do passado e de mecanismos psicológicos bastante simples até, mas que são elevados e extrapolados à enésima potência conforme surgem as conquistas. Resumindo, temos uma boa leva de Napoleões aqui: gente que se sentiu (ou de fato foi) pisoteada pela vida desde cedo, que imaginam que possuir e dominar, e talvez até subjugar e destruir, seja o único meio de ajustar suas mentes e seus corações com relação ao desamparo do mundo. O problema, e é aqui onde quero chegar, é que em Orphans, principalmente dentro da Tekkadan de Orga e da ideal Gjallarhorn de McGillis, nota-se uma ausência de liderança, ou de adaptabilidade às situações. Se Orga parece constantemente se deixar levar pela pressão de sua posição e pela distorcida relação com Mikazuki, podemos igualmente dizer que McGillis vai, aos poucos, bloqueando suas saídas e se transformando no ícone da força bruta: um homem cego e sozinho – e louco. Os comandados tanto de Orga como de McGillis são, pra piorar, que nem gado; se deixam levar do mesmo modo que seus senhores, sem jamais questioná-los. Quem pode discordar que Gaelio teve o que mereceu? E o tetraplégico Mikazuki? Ou mesmo os próprios Orga e McGillis?

Enquanto em Code Geass, por outro lado, sinto que as motivações, até dos personagens menos relevantes, são mais individualizadas. Ohgi, antigo líder da resistência até o surgimento de Zero, sonha com a independência do Japão e com a chance de passar a vida ao lado de Villetta. Em certos momentos, ele se questiona sobre as verdadeiras intenções de Zero, mas decide apoiá-lo após algumas deduções. Ohgi é um personagem secundário, porém com objetivos próprios e que faz indagações sobre seu líder. Não vemos isso em nenhum momento de Orphans, vindo de nenhum personagem da Tekkadan. Todos ali parecem aceitar sem oposição a espiral da morte que Orga e Mikazuki propõem com vagas justificativas. Mesmo pensando em exemplos esparsos de individualidade, como o interesse romântico de Yamagi por Shino, a formação do casal Merribit e o “Velho” (o mecânico do grupo), ou os momentos em que Eugene confronta Orga, são traços que, em perspectiva, parecem se diluir no “propósito maior” que é a Tekkadan.

 

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Seria Orphans uma obra justamente sobre a inconsequência, sobre os riscos de se deixar levar? Sobre falta de ponderação e até de moderação? Não que Lelouch represente o pináculo da humildade, baste ver o final de anime mais megalomaníaco e brilhante do mundo (prestes a ser maculado por uma indesejada e totalmente desnecessária terceira temporada). A diferença reside no fato de que, em Code Geass, cada personagem sob o domínio de Lelouch parece encontrar um sonho próprio, ou no mínimo um mecanismo próprio e até mesmo um caminho próprio, ainda que levem a um sonho em comum. Veja Kallen, por exemplo, que nunca teve escrúpulos na busca por um Japão independente, mas cujos métodos, divergentes aos de Lelouch e aos de Zero, se tornam a base para conflitos interessantes durante a série. Em Orphans, não consigo me livrar da sensação de que a Tekkadan devora todos dentro dela. Seus membros me parecem leais demais à uma ideologia infundada e descabida, na procura por um “lugar”, por uma utopia estabelecida por Orga, mesmo que na melhor das intenções.

Por isso que, apesar de haver algo de muito humano no comportamento de massa, ainda assim vejo certa falta de humanidade nos personagens de Orphans, principalmente na segunda temporada, principalmente nos últimos episódios dela. Seriam essas crianças soldados, e não humanos? Uma coisa anula a outra? É possível enxergar, através das máscaras falhas e imperfeitas dos personagens de Code Geass, uma psicologia relativamente simples: Lelouch só quer proteger sua irmã, e para isso deve usurpar o trono de seu pai, assim vingando a morte de sua mãe, numa parábola quase shakespeariana; Suzaku almeja acolhimento na vida, e se perdoar pelo assassinato do próprio pai “corrigindo” o maquinário estatal daquele mundo de dentro pra fora; C.C. procurava uma forma de morrer, de interromper sua imortalidade, ou uma razão para viver em paz com essa condição, algo que seria alcançado através da descoberta do amor e da amizade. Já em Orphans, parte dessa psicologia perde sua simplicidade justamente quando a máscara utilizada pelos membros da Tekkadan é a da sinceridade, como se vestissem o coração na manga. É tão genuíno o desejo de melhorar de vida, e a abordagem de Orga e cia. é tão direta e até infantil, que no fim é como se eles mesmos perdessem de vista esse desejo inicial. Eles vão sujando cada vez mais as próprias mãos em nome de singelo sonho, e os sacrifícios necessários excedem os benefícios em peso.

 

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A poderosa metáfora visual das “mãos sujas de sangue” se repete incontáveis vezes em Orphans

 

Na primeira temporada, lembre-se de que Biscoito cantou a bola antes de ser morto – provando que até ele ficou vulnerável. No fim, é como se o radicalismo, o quase fanatismo inerente à Tekkadan prendesse aqueles que se aproximam, lacrasse seus sonhos e os envolvesse na mesma espiral da morte que destrói os membros do corpo de Mizakuki e eventualmente roubam a vida de Orga (e as de Masahiro, Fumitan, Biscoito, Aston, Shino, Hush, Akihiro…).

A essa altura, começo a pensar que Orphans – e que talvez a própria intenção da série – seja um comentário sobre o fanatismo, a falta de autonomia e da habilidade de pensar por si mesmo, ou sobre os males de se apegar à uma ideologia e o verdadeiro fetiche pelo coletivismo. Desde o primeiro episódio, a repetitiva constatação de que “ah, eles são apenas crianças” talvez opere como o escudo ideológico a justificar todo tipo de irracionalidade. Não falo nem sobre as atrocidades que essas “crianças” cometem ao longo da série, já que em Orphans, como no próprio Code Geass, temos inúmeros personagens que se valem da máxima “os fins justificam os meios”. Assim, matar e conspirar e destruir acaba sendo o menor dos problemas, já que ambos os animes propõem, abertamente, que isso não é de fato um problema desde que você seja verdadeiro consigo mesmo – algo que Lelouch, Suzaku e C.C. perceberão em momentos chave de Code Geass. A grande tragédia de Orphans não é a guerra, a destruição, ou mesmo as decisões inconsequentes. A grande tragédia de Orphans, certamente, é a falta de independência nas vidas desses personagens. E a ironia é o fato deles estarem justamente procurando por independência. Porém, aqui é que mora o perigo: os membros da Tekkadan almejam (e para isso pisam em quem estiver à frente) uma independência coletiva, como grupo, como Tekkadan, e não uma pessoal, interna. Algo que já vimos destruir o Bando do Falcão, em Berserk.

 

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Para Biscoito, a Tekkadan foi uma viagem só de ida…

 

O preço desse tipo de abordagem é simbolizado em personagens como Biscoito e Takaki; o primeiro não teve o poder de decisão necessário para abandonar a ideologia coletiva e, ao ficar em cima do muro por uma única ocasião, teve sua vida perdida. Já Takaki, assim que teve a chance, pulou fora do barco, e sobreviveu. O mesmo vale para Kudelia, por exemplo. Assim que se afastou do fanatismo e da violência retroalimentada entre Orga e Mikazuki, pôde encontrar seu próprio caminho – meu único lamento foi ter visto uma personagem tão interessante simplesmente se apagar com o tempo.

A semelhança mais gritante entre as séries, e que a meu ver joga Code Geass pro alto enquanto condena o ótimo enredo de Orphans, reside justamente na segunda temporada. Falo especificamente de duas mortes. Uma morte em cada anime, claro. São eventos divisores de águas, e que me fizeram instantaneamente comparar as séries, e eventualmente traçar todo o extenso paralelo que orienta o presente artigo. Me refiro às mortes de Shirley em Code Geass, e de Lafter em Orphans. Ambas se dão num momento intermediário da temporada, respectivamente nos episódios 13 (Shirley) e 16 (Lafter). Ambas são assassinadas a tiros, enquanto estavam cuidando de suas vidas, afastadas do centro dos conflitos, e em alguma medida sem nem mesmo sentir tanto interesse pessoal por eles. Ambas, pra bem ou pra mal, amavam homens que, esses sim, estavam no cerne das guerras em questão. Ambas, pra mal, eram pessoas simples, com desejos simples, que apesar de já entenderem que nem tudo na vida são flores, ainda assim não sonham com mais do que poder viver normalmente, de forma pacata e, se possível, ao lado de seus amados. Shirley e Lafter pagaram com suas vidas em um fogo cruzado. A primeira foi morta por Rolo que, em seu cego fanatismo por Lelouch, julga (e executa) a guria por saber demais. Enquanto o assassinato da segunda serve apenas como um bode expiatório de Jasley para envolver a Tekkadan em novo conflito por poder dentro da Teiwaz.

 

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Duas personagens que não mereciam o destino que tiveram

 

É discutível se Lelouch, Suzaku, Orga e Mikazuki também não sonham apenas com vidas simples, do mesmo modo que Shirley e Lafter. De fato, não há personagem central, desde as tragédias clássicas, que realmente se delicie com os conflitos e as perdas ao longo do caminho. Caso contrário, estas não se chamariam tragédias. Até porque, e ironicamente inúmeros animes seguem tal premissa, o gosto pela guerra costuma conceder um ar caricato ao personagem, e mesmo um completo lunático como McGillis ainda assim procura a paz – nem que seja sua própria concepção de paz. Mesmo a tara de Mikazuki por batalhas sangrentas: seu histórico nos mostra que ele nunca conheceu outra vida além dessa. Trocando em miúdos, que outro elemento da dramaturgia grega é mais fascinante do que a loucura? Afinal, a benção inicial simbolizada pelo geass adquire tons de maldição para Lelouch conforme escapa de seu controle, numa clara alusão ao delírio que toma o personagem. E não são poucos os casos de loucura em Code Geass: Mao e as vozes incessáveis em sua cabeça, Jeremiah “Laranja” e sua humilhante decadência e deformação, Nina e as várias ramificações de sua natureza obsessiva, Euphemia e o genocídio, Marianne e seu insano pacto com C.C., Charles e seu complexo de messias. A loucura, em Code Geass, é uma peça fundamental da subjetividade humana. E uma inclinação à qual todos estamos propensos. Sendo que o mesmo se aplica a Orphans, com o psicopata Mikazuki, o messiânico McGillis, a perturbada Almiria, a subserviente Julieta, o suicida Ein, o vingativo Gaelio. Todos descontrolados, todos ensandecidos. Contudo, ambas as narrativas conseguem encontrar vias nas quais tais personagens possam se expressar, e até angariar seguidores.

Porém, como sugeri antes, algo fundamental se perde na loucura e na megalomania. E os primeiros a sofrerem as consequências destes traços de personalidade são, precisamente, aqueles que não o possuem – como a pobre Shirley e a pobre Lafter. Obter o poder para mudar as circunstâncias ao seu redor, o poder de melhorar sua situação e daqueles que você ama, se transformam em desejos insaciáveis nos casos citados acima. Shirley e Lafter só queriam viver, e contornar as adversidades do mundo ao invés de extingui-las. Isso não faz delas pessoas estúpidas ou alienadas. Elas apenas percebiam que não dá pra ganhar todas. Às vezes, é melhor deixar de lado os problemas do universo e pensar em você, se aprimorar, se educar, se conhecer, inclusive se divertir. O que me faz perguntar se seria possível que pessoas como Lelouch ou Mikazuki encontrariam alguma salvação para si mesmos… Uma vez que a própria natureza e o passado deles os levariam às últimas consequências das coisas, como de fato ocorre em suas narrativas. Algo que, de novo, vemos extensivamente nos personagens de Berserk. Cada um, no fim das contas, vive como é adequado a si.

 

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McGillis: sua loucura estava apenas contida no início, mas sempre esteve ali

 

Minha questão, se ainda não a atingi, é que Mikazuki, Orga e McGillis parecem converter suas aspirações mais espontâneas, seus anseios d’alma mais entendíveis, em ideologias a serem seguidas e respeitadas e repetidas por outrem, perdendo a noção da simplicidade de seus sonhos e até da eventual complexidade para realizá-los (algo que Lelouch dominou, no fim das contas). Diabos, quando Shriley e Lafter morrem, temos narrativamente representado o momento em que ninguém mais precisa se segurar, para ambas as séries, já que as (simbolicamente) detentoras da pureza de coração não estão mais ali para lembrar os megalomaníacos de cada anime de que eles também são humanos, e também estão apenas tentando lidar com suas origens trágicas e miseráveis. Elas, Shirley e Lafter, é uma pena, se tornam mártires. E, em nome de suas mortes, coisas ainda mais horríveis são realizadas e automaticamente justificadas. A Tekkadan morde a isca e rompe os laços com a Teiwaz, o último de seus aliados, para poder esmagar sem restrições a facção de Jasley – num episódio fantástico, vale dizer. Nenhuma trilha sonora, só o silêncio do espaço sideral, refletindo o vazio que a vingança trás para Orga e, principalmente, Akihiro. Um rastro enorme de destruição atrás da Tekkdan e, adiante, um futuro onde o “tudo ou nada” impera, onde nenhuma outra realidade é aceitável que não o fugaz oásis onde a tropa de Orga enfim poderá se desarmar e aproveitar a companhia uns dos outros. Tudo sonho. Tudo ideal: eles já têm a companhia uns dos outros… Tudo uma máscara ideológica para não admitir que Lafter é quem tinha razão: de nada vale a megalomania se ela ofuscar seu coração.

Lelouch, e agora serei obrigado a me render a seu brilhantismo e aptidão estratégica, foi capaz de, no mesmo ato, alcançar o mundo pacífico que almejava para sua irmã e ainda se manter verdadeiro consigo mesmo. Ele é sem dúvida uma exceção a qualquer regra, em qualquer contexto. E um personagem formidável por si só. Porém, a verdade é essa: a figura de Zero não sobrepujou a voz interna de Lelouch apesar de suas oscilações emocionais. Ele continuou a ouvi-la, em alto e bom som. Já Orga se apegou tanto à obcecada ideia de uma “Tekkadan”, e ao patético título de “Rei de Marte”, que o Orga verdadeiro nem sabia mais o que queria. Os outros membros menos ainda; todos confortáveis em obedecer sem questionar, se deixando levar pela falácia de que não há vida digna fora da Tekkadan, e fora do mundo fantástico que só eles poderiam criar. Pergunte a Takaki: ele não morreu por sair do grupo de Orga; pelo contrário, ele foi um dos poucos que continuou vivo em Orphans… e com uma emprego honesto, com comida na mesa, com um teto sobre a cabeça, e com a saudável companhia da única família que lhe restou, sua irmã. De quê mais Orga e cia. precisariam na vida? Lafter saberia a resposta, afinal sua maior ambição era passar mais tempo com Akihiro. Só isso. Sua morte é tão ofensiva pois, de certo modo, Lafter representava, assim como Shirley naquela altura de Code Geass, o último sintoma de humanidade numa narrativa completamente tomada por maníacos.

 

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Lelouch: sempre a 1 segundo de compensar seus pecados

 

A diferença, em Code Geass, é que Lelouch, Suzaku e C.C, apesar de sonharem grande, não se deixam levar pela “forma” desses sonhos. Quando nós, espectadores, apreciadores de animes e de arte no geral, assassinamos friamente as Shirleys e Lafters dentro de nós, é sinal de que perdemos nossa lucidez: nossa bússola moral, nosso senso crítico, nosso dom de reter alguns impulsos destrutivos demais para podermos conviver com os frutos que geram. Admito, nenhuma morte me deprimiu tanto em Orphans quanto a de Lafter – ou a de Shirley em Code Geass. Na verdade, depois dessa morte em específico, não sofri por nenhuma outra nesse Gundam. E olha que não foram poucas. No fundo, quando vi Lafter caída numa poça de sangue, tudo que eu mais quis foi que todo mundo ali morresse: personagens, roteirista, diretor, a Sunrise inteira. Pois tive um déjà-vu com Code Geass e percebi que as coisas não acabariam bem… Então, do mesmo modo que o assassinato de Shirley reforçou minha torcida por Lelouch, em Orphans fui persuadido a não torcer por ninguém, já que o elo sentimental com a história vinha se dissipando a cada amostra de fanatismo. Desde que Atra e Kudelia estivessem a salvo, o resto, e peço perdão pela sinceridade de fanboy, tinha mais é que se foder; e vale dizer que pelo menos Mikazuki e Akihiro se foram em tom glorioso – e levando Iok no processo!

Por fim, apesar do sofrimento e eventual distanciamento que me causou, ainda sou capaz de engrossar o coro: Iron-Blooded Orphans é a melhor série de Gundam dos últimos anos, e uma das melhores de todos os tempos. Não é preciso ter assistido a tantos Gundams assim para chegar a essa conclusão. Pessoalmente, apesar de não ter me sentido tão envolvido com a fase final do anime, ainda mais tendo em vista a sólida primeira temporada e meus recorrentes déjà-vus com Code Geass, o mero tamanho deste artigo é um claro indicativo da qualidade geral de Orphans. Mais penoso que assistir a personagens queridos morrerem é acompanhá-los cometendo repetidos erros ainda em vida. Infelizmente pra mim, esses erros me tiraram o interesse pleno por alguns desses personagens em Orphans, sendo que o mesmíssimo fator aumentava meu investimento emocional em Code Geass a cada episódio. No fim das contas, a imprevisibilidade de nossos sentimentos ao lidarmos com arte é o que nos torna atraídos por animes complexos como Orphans e Code Geass. Assim, quando torcemos pelo sucesso ou pela morte cruel de alguns, ou de todos os personagens (mea culpa), imagino que o importante mesmo esteja resumido na conclusão final de Mikazuki: pelo menos nós dividimos algum tempo juntos, amigos.

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