Indicamos: The Dragon Dentist (Ryuu no Haisha)

Após uma semaninha de hiato, o Otaku Pós-Moderno retorna com a recomendação da obra mais recente do mestre Hideaki Anno!

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The Dragon Dentist nasceu como um curta-metragem, transmitido pela Niconico ao final de 2014. A obra marcou a abertura do “Japan Animator Expo”, projeto idealizado por Hideaki Anno (Neon Genesis Evangelion, Kare Kano), e que consistiu na transmissão semanal de curtas de animação independentes. O projeto esteve ativo durante todo o ano de 2015, e ao seu final totalizava 37 curtas. Algumas dessas animações alcançaram certo sucesso, como o perturbador ME!ME!ME!, de Hibiki Yoshizaki. Outras, como a que dá nome a este artigo, funcionaram mais como experimentações de realizadores famosos do que propriamente de vitrine para novatos da indústria. Contudo, a boa recepção de The Dragon Dentist inspirou Anno a ir além, e adaptar o curta em dois longas.

Transmitidos como um especial para TV no último mês de fevereiro, os dois episódios de The Dragon Dentist passaram quase batidos aqui pelo Ocidente, fato que influenciou este blogueiro a indicar a obra no post de hoje.

Repetindo o time de sucesso do curta, Anno foi outra vez o produtor executivo nos longas, atuando também como diretor de som; ao seu lado, na cadeira de diretor, estava Kazuya Tsurumaki (FLCL, Evangelion: 1.0 You Are (Not) Alone). A produção novamente foi pelo estúdio Khara.

Quanto à história em si, temos em The Dragon Dentist um mundo assolado por uma longa guerra, na qual o uso de dragões determina qual exército sairá vencedor em cada batalha. Esses dragões, imensas criaturas voadoras, com poder destrutivo ímpar, são a base da mitologia daquela realidade, bem como um determinante recurso bélico. Porém, o calcanhar-de-Aquiles dos dragões são, você adivinhou, seus dentes. Assim, o anime nos apresente a mais nobre profissão de seu enredo: os dentistas de dragões.

 

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Nonoko, a atrapalhada protagonista do curta-metragem, retorna na nova produção com um pouco mais de experiência, apesar de ainda ser uma novata entre os dentistas. Garantir a saúde bucal dos dragões, exterminando as bactérias que possuem estatura quase humana, é o ofício diário de Nonoko e seus colegas – que, por sinal, moram no dragão, tamanha a extensão física do bicho, enquanto ele sobrevoa o mundo e monitora a guerra indefinidamente. Em dado momento, Nonoko será incumbida de mais uma tarefa: além de dentista, ela deverá se tornar a tutora de Bell, um rapaz “da superfície”, que surge por acaso na boca do dragão.

 

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Na obra, há até um (ótimo) corte de Yoshimichi Kameda!

 

Apesar de bastante inusitada, a história consegue se sustentar e se manter coesa graças à uma rica mitologia interna. Os dragões, apesar de benevolentes com os humanos que o habitam, são capazes de causar imensuráveis catástrofes quando sentem dor, quando sua saúde entra em desequilíbrio. E é claro: a obra faz questão de ressaltar que uma boa saúde começa pelos dentes. Desse modo, além de um manifesto sobre saúde bucal que toda mãe adoraria retransmitir aos seus filhos, o anime também trás na figura dos dragões uma metáfora para o desrespeito à natureza, nos moldes de Princesa Mononoke. Há, ainda, uma bela parábola sobre destino em The Dragon Dentist: através dos dentes do dragão, todo dentista é capaz de saber, através de uma alucinação, como e quando irá morrer. A ligação entre o dragão e seus dentistas é, de certo modo, quase espiritual.

Não apenas a trama é interessante em The Dragon Dentist. O simples fato de estarmos testemunhando uma produção do estúdio Khara não relacionada ao Rebuild de Evangelion já é satisfatório o bastante – e trás algum otimismo. Muito se espera, há anos, do estúdio, que tem no máximo trabalhado como órgão terceirizado para produções de outros estúdios. The Dragon Dentist é a primeiríssima produção integral, digamos assim, do estúdio Khara. E presume-se que uma das intenções do Japan Animator Expo fosse mesmo essa: explorar ideias frescas. Não é uma série completa, um anime de 13 episódios para TV, por exemplo. Mas há, sim, o que se celebrar em The Dragon Dentist. Incluindo, obviamente, a fluidez da animação e a verdadeira fofura que é Nonoko.

 

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Por fim, não posso deixar de lado a sublime “coincidência” de termos dois dentistas veteranos na história, Godo e Shibana, sendo dublados respectivamente por dois veteranos da indústria, Kouichi Yamadera e Megumi Hayashibara. Juntos, eles dublaram Sukeroku e Miyokichi, no maravilhoso Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu, bem como Spike e Faye em Cowboy Bebop. Porém, a parceria é ainda mais antiga: em Eva, Yamadera interpretou Kaji, e Hayashibara deu voz a Rei, curiosamente transformando The Dragon Dentist num legítimo repeteco de Gainax em todos os sentidos – até mesmo na dublagem! Anno, ao que parece, é o tipo de cara que valoriza seus companheiros. Com isso, podemos interpretar The Dragon Dentist como uma reunião de pessoas muito experientes trabalhando e se divertindo juntas. O próprio anime traz um pouco desse tom, já que há um ar de leveza na trama, apesar de seu primor técnico. Sabe quando seus músicos preferidos, mas de bandas distintas, decidem se juntar para formar uma superbanda e gravar um único disco? The Dragon Dentist me dá essa impressão. A obra consegue entreter e ser virtuosa ao mesmo tempo. É o tipo de produção que só o estúdio-casa de Hideaki Anno poderia alcançar; e esperamos que o homem nos entregue novas criações desse calibre.

 

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