Como nasceu o melhor episódio de Shigatsu wa Kimi no Uso

Ou, como um episódio produzido inteiramente por apenas duas pessoas(!) se tornou, nesse caso, sinônimo de “melhor episódio da série”. E se não for o melhor, pelo menos é um digno de nota.

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Aviso: spoilers de Shigatsu wa Kimi no Uso

Há tempos percebo algumas carências nas discussões que temos sobre animes no Ocidente, principalmente aqui no Brasil. Falamos tanto sobre roteiro, sobre personagens, universos e universos expandidos, sobre spoilers e não-spoilers, sobre plots e plot twists; ou seja, sobre a história dentro de cada obra. Mas sobre a indústria em si, sobre a história por trás de cada obra, quase nunca falamos. Dia desses o canal do IntoxiAnime postou um vídeo pouco costumeiro para seus padrões: “10 coisas sobre anime que quase ninguém sabe”. No vídeo, se discute, basicamente, indústria. E, a meu ver, é o melhor vídeo do canal em um longo tempo. Não pela qualidade habitual do conteúdo, mas pela falta de variação nos assuntos recentes. E isso se aplica ao debate animístico ocidental quase como um todo.

Com essa carência em mente, e utilizando meu contato diário com sites como o Sakuga Blog (uma ótima exceção aqui no Ocidente, por se focar primeiramente em indústria), venho tentando escrever aqui no Otaku Pós-Moderno artigos sobre os bastidores dessa mídia que tanto amamos. Já falei sobre dublagem, outsource work, trilha sonora, animação, e quero continuar expandindo a discussão sobre a indústria da animação nipônica. Assim, inauguramos, com este post, a nova coluna do blog: “Estudos sobre a Indústria”, onde levantaremos as cortinas e descobriremos o maquinário humano de onde nascem nossos queridos animes!

Hoje, trago um conceito que conheci há pouco, e que o próprio vídeo que citei acima também debate: o conceito de “solo key animation”. Ou animação-chave solo, o que ocorre quando dado episódio de dada série é animado inteiramente por apenas um profissional, algo raro na indústria (apesar de vir ocorrendo com maior frequência), visto o tamanho do desafio.

 

Sem título

Como um quadro de “animação-chave” se parece no início

 

O normal, para animes, é que cada estúdio conte com um time fixo de animadores-chave, e que os inbetweens e outras funções sejam relegados a profissionais terceirizados ou estúdios menores, por vezes estrangeiros. O número de animadores fixos varia bastante de estúdio para estúdio, e cada série em específico irá demandar uma quantidade maior ou menor desses profissionais se dedicando a ela – e lembrando que esse número também varia de episódio para episódio. Portanto, vale acrescentar que a complexidade, estilo e outras especificidades de cada anime, e mesmo de cada episódio de um mesmo anime, também influenciarão nessa métrica.

Consultar a página de cada série no Anime News Network é, para nós ocidentais, a melhor maneira de mensurar quantas pessoas estão envolvidas na produção de cada episódio de anime. Tome como exemplo, escolhido ao acaso, o episódio número 11 de Samurai Champloo: foram necessários 2 diretores de animação e 1 diretor de animação assistente, 23 animadores-chave, 10 artistas de background (terceirizados), 1 colorista-chave, 3 animadores-finalistas (terceirizados) e 3 inbetweeners (terceirizados). Ao todo, 43 pessoas, num trabalho que leva cerca de 2 meses (para produções que estão “em dia”, é claro). Repito: estamos falando aqui sobre um único episódio de Samurai Champloo – e exclusivamente sobre sua animação, desconsiderando dublagem, trilha sonora, entre outros detalhes.

Assim, só se torna mais impressionante quando alguns episódios, obviamente selecionados a dedo dentro de uma série, são entregues nas mãos de apenas um profissional. Desnecessário dizer que o pedido é feito com muitos meses de antecedência. No caso em que decidi me focar, temos o 5º episódio do belíssimo Shigatsu wa Kimi no Uso, animado de ponta a ponta por Takashi Kojima. Após crescer como animador nos últimos anos, foi o episódio solo em Shigatsu que chamou a atenção da indústria para Kojima, garantindo-lhe o cargo de diretor-chefe de animação e character designer em Flip Flappers, e o homem mandou bem (como vemos no corte abaixo).

 

 

Agora, antes de nos aprofundarmos mais em Shigatsu e nas proezas de Kojima, que uma pequena justiça seja feita: quem o indicou para animar um episódio sozinho, e inclusive contribuiu com ele na ocasião, foi o experiente Masashi Ishihama (FLCL, Garakowa). Os dois trabalharam juntos em Shinsekai Yori, anime dirigido por Ishihama, e os quadros de Kojima impressionaram o diretor. Desse modo, quando Ishihama foi chamado para fazer o storyboard do episódio 5 de Shigatsu wa Kimi no Uso, surgiu-lhe a ideia: por quê não conceder a direção do episódio, direção de animação, composição, layout e animação em si ao promissor Takashi Kojima? Pessoalmente, é um dos episódios de Shigatsu que melhor me lembro, com inúmeras cenas marcantes, e agora percebo a razão disso. Como pode ser visto nessa compilação, toda a comunidade Sakuga têm grande respeito pelo episódio. Caso o leitor nunca tenha acessado o Sakugabooru, cada imagem da compilação é, na verdade, um link para um vídeozinho. Recomendo acessar a todos, e ficar de queixo caído com a qualidade da animação que a parceria Ishihama/Kojima alcançou em Shigatsu, como na impressionante cena abaixo.

 

 

Quanto ao episódio em si, me lembro exatamente dos meu sentimentos ao assisti-lo. A rigor, foi nesse episódio que tive o insight definitivo da série, foi quando pensei “Kaori vai morrer” pela primeira vez.

Até ali, ainda havia espaço pra dúvida. E mesmo se desconsiderarmos todas as dicas anteriores, a quantidade de death flags nesse episódio sozinho encerram o assunto. Kao-chan, eu percebi, não duraria até o fim da série.

Ela de fato mostrava uma saúde frágil, e pouco importava a essa altura qual a provável doença – se bem que um “câncer de anime” nunca é descartável. O que importava eram as implicações disso. Viver cada dia ao máximo porque morrerá jovem soa forçado até à própria Kaori. Ela só o faz por desespero, pra manter a eficiente máscara de alguém que sente felicidade o tempo todo. Assim, ela tem lapsos de sinceridade somente com Kousei. Pois ele é alguém que deixa transparecer a depressão, e alguém que ela sempre admirou. No fim, portanto, é como se Kaori lentamente estivesse propondo a Kousei o seguinte acordo: eu tenho meus dias contados, vou morrer jovem; você, cuja vida pode se estender por décadas, nunca se esforça pra aproveitá-la ou pra melhorar como pessoa. Então, por favor, valorize aquilo que eu não tenho! Viva no meu lugar. Viva por mim. É injusto um mundo onde pessoas que têm tanto a oferecer ou desaparecem cedo, ou têm vidas longas porém reprimidas.

 

 

Além do mais, Kaori, que com facilidade seduz qualquer plateia, enfim encontra uma audiência difícil. Alguém que não se deixa ser seduzido com facilidade. E alguém que, como descobri só no final do anime, Kaori sempre sonhou seduzir. Pra piorar, alguém que é músico como ela. Alguém com ouvidos bons, mas deixados de lado por medo. Se o objetivo desesperado de Kaori é perpetuar sua breve existência na lembrança de todos ao seu redor, então Kousei é seu maior desafio. Nem que pra isso Kaori precise exagerar na sua veia performática…

Justificando o nome do anime, um bom número de mentiras são contadas sob o céu nublado desse episódio. Kaori esconde o rosto pra dizer que nunca havia desmaiado antes, Tsubaki tenta se convencer de que jogar Kousei na água quando eram crianças não era “nada demais”, e duas coincidências foram forjadas. Aliás, essas coincidências têm semelhanças entre si. Na primeira delas, Tsubaki e sua amiga Kashiwagi encontram Saito, ex-senpai das duas e antigo interesse romântico de Tsubaki. Como é revelado mais pra frente, Saito planejou o encontro pra se declarar a Tsubaki, que ficou confusa em meio a lembranças de Kousei e da apresentação em que o pianista e Kaori trocaram olhares. A segunda “coincidência” é entre Kaori e Kousei, em que a guria o espera no caminho de casa e praticamente o obriga a participar de uma competição de piano. Ambos os encontros premeditados envolveram uma pessoa propondo, se não impondo, algo (Saito/Kaori) a uma pessoa que hesita com a proposta (Tsubaki/Kousei). E a “Ponte da Coragem” foi o local perfeito para tais eventos. Marca de um episódio bem dirigido.

 

 

O simbolismo da ponte é repetido inúmeras vezes no episódio, e em cada uma dessas vezes ele possui um significado narrativo diferente. Seja para demarcar momentos em que um personagem se abre para outro, seja para reafirmar decisões já tomadas anteriormente. Contudo, eu penso que a grande sacada por trás desse símbolo seria a velha distinção entre coragem e estupidez. Se, durante a infância, Kousei não tivesse o literal empurrão de Tsubaki e Watari, ele nunca desafiaria a altura e pularia na água. Ele estagnaria em cima da Ponte da Coragem, como é de sua natureza. Traçando um paralelo com o presente, Kousei ainda não possui, nessa altura do anime, coragem ou força interior o bastante para pular na água; só o faz após a chantagem emocional de Kaori, depois de, mais uma vez, ser lentamente seduzido por ela. Ele se joga à força, como Kashiwagi parece suspeitar.

Kousei, no final das contas, é frágil como papel.

E a presença imponente de Kaori é quase tão opressiva quanto a violência verbal, espiritual e até física de sua mãe. Kaori, como já ficou claro, segue sua própria agenda egoísta – e eu não a censuro por isso. A morte bate à porta de Kaori a cada desmaio. Ela não é uma pessoa que está apostando alto. Ela está apostando TUDO. Porém, nesse contexto, o anime estabelece muito bem o fato de que Kousei pode não possuir estrutura para a perda que o aguarda, e esteja entrando em curso de colisão consigo mesmo. Ao adentrar na primavera, Kousei vai perdendo o inverno de vista.

 

 

Mas isso é preocupação para o final da história…

Mesmo com todas as ressalvas ao estúdio A-1 Pictures, principalmente no que condiz, por assim dizer, a seu modelo de produção, é inegável que em Shigatsu uma equipe muito competente foi colocada em ação. É justamente por apostar numa ciclagem de profissionais, algo na contramão de um certo Kyoto Animation, que a A-1 Pictures é vista por algumas pessoas como um estúdio sem identidade, sem uma “cara”. Porém, em obras como Shigatsu wa Kimi no Uso, me parece que a abordagem pouco convencional da A-1 é que foi o fator decisivo na escalação de Masashi Ishihama e, com ele, Takashi Kojima. E o resultado é o visto nas cenas que espalhei ao longo deste artigo: momentos de beleza animística ímpar.

 

 

E você? O que acha de artigos sobre bastidores? Gosta de discutir a indústria tanto quanto eu? Deixe seu comentário abaixo, pra nossa conversa sobre Shigatsu e sobre animação continuar! E certifique-se de voltar ao Otaku Pós-Moderno e à nova coluna de Estudos sobre a Indústria. Ittekimasu!

 


 

Referências & dicas de leitura:

Anime News Network: Samurai Champloo (TV)

Anime News Network: The Rise of Masashi Ishihama: From The New World to Garakowa

Anime News Network: Your Lie in April (TV)

Reddit: Best Animation of the Week – Fall 2016 Week 5

The Vanishing Trooper Incident: A look at the ‘sakuga’ and animation of 2014

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