BEDA #11 – Depois da escuridão: a melancolia de InuYasha

Já falamos, num dos primeiros BEDAs, sobre InuYasha com um olhar técnico. Agora, é o momento de falar sobre o kokoro dessa saudosa obra!

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InuYasha conta a história do meio-youkai homônimo e da jovem humana Agome, e das implicações desse encontro para o mundo de ambos. Falo em “mundo” no sentido literal, pois quem já assistiu à série e/ou leu o mangá sabe que a colisão entre InuYasha e Agome exige muita viagem no tempo e um pouquinho de suspensão de descrença – algo que é perfeitamente perdoável em histórias do tipo e mais ainda em mangás de aventura e fantasia dos anos 90. Aliás, falando em nostalgia, preciso esclarecer que utilizarei, neste texto, os nomes dos personagens segundo a versão dublada em português (como Agome, citada acima, ao invés do original Kagome); além de gosto pessoal, também penso que seja mais familiar à maioria dos leitores. Sem contar que os japoneses subestimam a capacidade do brasileiro em criar trocadilhos.

Sendo ambientado como um jidaigeki (drama histórico), com todo o cenário característico da era feudal japonesa e seus arquétipos, a verdade é que InuYasha funciona mais como uma lente a observar um período histórico do que de fato um conto sobre um período histórico. Isso ocorre porque temos Agome – alguém que vem da era moderna, do Japão do século XX, e que apenas “visita” o mundo de InuYasha. Agome é os olhos do espectador/leitor.

Com isso, temos uma história que se foca quase exclusivamente em personagens, ao invés de cair nas minúcias sobre o período em que se passa. O contexto feudal japonês, em InuYasha, serve somente ao propósito de permitir que a obra seja mais violenta e sombria do que os outros trabalhos da autora Rumiko Takahashi. Se em Urusei Yatsura e Ranma ½, por exemplo, temos uma comédia leve e divertida, em InuYasha encontramos uma era feudal de cuja rica mitologia extraem-se metáforas sangrentas. E isso, em consequência, gera personagens com passados obscuros, por vezes terríveis. Coisa que o público irá decifrar ao mesmo tempo que Agome.

 

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O protagonista da obra, InuYasha, nos revela sua história aos poucos. E logo percebemos que o meio-youkai possui grandes pendências com o passado – e um legítimo vazio em sua alma. Discuti o tema da falta, da ausência de algo no ser, neste texto aqui; na ocasião, falei do vazio sentido por Hanabi, e também outros personagens em alguma medida, no mangá de Kuzu no Honkai. O assunto é complexo, e alguma leitura complementar é exigida, mas se posso apelar pra uma economia interpretativa, diria que o “nada que preenche” InuYasha difere do de Hanabi em função da causa. Enquanto Hanabi passou toda sua vida com a impressão de que lhe faltava algo – ou mesmo tudo –, InuYasha foi de uma vida de marginalização e exclusão para, um dia, finalmente, sentir que é aceito por alguém, pela sacerdotisa Kikyou – e imediatamente perder esse alguém.

Em ambos os casos, a incapacidade de comunicar esse nada, essa infinita ausência de algo, mantém os personagens num estado de introversão. Hanabi vai, de máscara em máscara, desesperadamente tentando dizer o indizível; já InuYasha passa 50 anos adormecido, ou num coma induzido pela flecha de Kikyou, o que simbolicamente mostra a sensação de que o mundo e a vida pararam para ele. A estagnação de InuYasha só se quebra com a chegada de Agome, seguida pelo mórbido ressurgimento de Kikyou.

 

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O passado de InuYasha só se permite ser contado a partir do ponto em que Agome o desperta, e o próprio roteiro da série firmemente se posiciona em “50 anos depois”. Isso é, InuYasha viveu algo tão traumático que, ao longo de 50 anos, nada que por ele fosse dito chegaria perto de traduzir tal perda. São 50 anos de pesado silêncio. E esse não-dizer acaba dizendo muito: acaba revelando a falta. Nesse sentido, InuYasha tem o aspecto de um típico posfácio – ou after story, como tenho chamado a série na minha mente (seria ou não seria louco adicionar um “InuYasha: After Story” no seu myanimelist?).

A questão é que nós não conhecemos InuYasha normalmente. Somos apresentados ao personagem já em luto. Só o vemos sob essa sombra. E tudo bem, animes costumam mesmo abusar de backstories traumatizados. Mas, no caso de InuYasha, isso é o próprio alicerce do personagem. Ele incorpora a tragédia na mesma medida em que incorporou a paixão por Kikyou – e a promessa de mudança e significado que ela o deu. Sendo assim, fica a pergunta: InuYasha é alguém melancólico? Ou está apenas (re)agindo de forma melancólica?

 

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O interessante, aqui, é que esse enredo pós-desastre não se aplica somente ao protagonista. Graças aos planos de Naraki, Kaede perdeu a irmã – e o olho direito. Miroki convive com uma maldição hereditária que poderá matá-lo, infligida a seu avô pelo mesmo Naraki. Sango teve sua vila destruída por um demônio que possuiu seu irmão. Shippou é uma criança que não teve forças para impedir o assassinato e escalpelamento de seu pai diante de seus olhos. Kikyou morreu acreditando ter sido traída por InuYasha, e ressuscita para miseravelmente se deixar levar por seu rancor enquanto sobrevive de almas humanas. Viu?, é só merda. A única pessoa que teve uma vida simples e ordinária é Agome. Tirando ela, todos os personagens são quebrados, desgastados e cheios de cicatrizes. Assim, a função de Agome é, junto do espectador/leitor, literalmente testemunhar o que sobrou desses personagens.

 

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O olhar para o passado, em InuYasha, nunca traz alívio ou contentamento, pois esse olhar nem mesmo traduz algo em si mesmo, ele serve apenas para dar luz às figuras marcadas e decadentes do presente. Não à toa, Agoma precisa se transportar à era feudal através de algum mecanismo; no caso, o simbólico Poço Come-Ossos, local onde os habitantes da vila de Kikyou jogavam restos mortais de youkais, que desapareciam imediatamente. As travessias do Poço fazem com que Agome rompa momentaneamente com sua realidade cotidiana, e possa interagir com os personagens trágicos da história.

Curiosamente, a ideia de poço está presente na mitologia grega, na figura do deus primordial Tártaro. Para autores como Hesíodo, o Tártaro seria não apenas a tenebrosa personificação do Mundo Inferior, mas também um poço no sentido figurado, onde titãs e deuses são aprisionados. Isso pode ressoar com InuYasha, uma vez que o Tártaro é uma prisão onde apenas figuras mitológicas, como youkais, encontram o castigo para seus crimes; já humanos, como Agome, são mandados para o Hades.

 

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Partiu Tártaro! Digo, Japão feudal…

 

Apesar do pessimismo, ainda penso que InuYasha sugere temas bastante positivos. Pois a verdade é que, por mais que nosso protagonista seja uma figura trágica, e que por isso não tenha mais o direito de acessar determinados sentimentos, com o tempo ele descobre que pode acessar outros. O presente, nesse sentido, pode ser melhor que o passado; pode ser mais abrangente. InuYasha talvez descubra que, no fundo, a mudança substancial pela qual ele passou se reflita apenas numa melancolia onipresente, coisa que antes era intermitente. Ou seja, InuYasha agora tem escolha. O personagem pode, legitimamente, escolher entre gravitar em torno do passado com Kikyou, ou abraçar o presente, representado por Agome e cia. O mesmo vale para a alma penada da sacerdotisa.

Mesmo porque, embora tenham se passado 50 anos desde os tristes eventos promovidos por Naraki, vemos que InuYasha e Kikyou ainda se assemelham a carapaças vazias, que meramente vagam pelo mundo. Ele movido pela melancolia; ela, pelo rancor. A escolha do presente, para ambos, consiste em reagir a esses sentimentos primários de um cenário pós-traumático.

Por fim, a obra também trás um comentário intrigante sobre os conceitos de pureza e corrupção. Kikyou , antes uma sacerdotisa honrada, com características que rementem às miko típicas de santuários shintoístas até os dias de hoje, quebra seus votos ao amar um homem. A perda da castidade (metafórica, é evidente) a enfraquece, como se seu elo com o divino fosse partido, ou “sujo”.

 

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Assim, a própria manutenção da Joia de 4 Almas é posta em risco. Também de origem shintoísta, o objeto, diz-se, nunca poderá estar completamente purificado ou completamente corrompido, já que é uma representação física da alma humana em si. Kikyou, ao desviar o foco brevemente de seus deveres como miko, abala sua pureza de estado, e convida o mal – aqui simbolizado pela mudança, por Naraki. E o resto… bem, o resto já sabemos. A (quase) pura Joia de 4 Almas de dividirá em 1.000 fragmentos; melancólicos, rancorosos, e espalhados pelo mundo e pelos tempos.

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