BEDA #10 – É mais importante assistir animes do que escrever/falar sobre animes

Existe experiência mais direta e sagrada para um otaku do que assistir animes? Bem, é o que se imagina, e o que debateremos a seguir!

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Nos nossos tempos de internet, de propagação cultural sem precedentes, encontrar informação confiável pode ser penoso algumas vezes. A modernidade deu ao otaku uma quantidade infinita de animes e mangás prontamente disponíveis online. Deu a ele um reconfortante senso de comunidade que extrapola os oceanos. E forneceu, acima de tudo, a inédita sensação de que qualquer pessoa, de qualquer idade, pode se tornar um especialista em cultura pop japonesa. Ao termos acesso a tanto conteúdo, cada vez mais pessoas querem se expressar e encontrar espaço para emitir seus pensamentos sobre a cultura otaku – inclusive nós, aqui no blog. Com isso, o otaku de hoje consome (e produz) podcasts, blogs, youtube, e assim por diante. Entretanto, isso pode gerar um problema… O que acontece quando a possibilidade de ler, escrever, falar e ouvir sobre animes te tira, precisamente, o tempo que você investiria na coisa principal: assistir, de fato, animes?

No texto de hoje, quero contar minha história e relação com certo anime – e com isso exemplificar a importância de, bem, assisti-los. A obra em questão é Air, também conhecido com seu nome de transmissão, Air TV. Lançado em 2005, o anime é a adaptação de uma visual novel da Key, e foi produzido pela Kyoto Animation, com direção de Tatsuya Ishihara e trilha sonora de Jun Maeda. O caso é: quando o assisti, há alguns anos, eu não tinha nenhuma dessas informações. Metade desses nomes, pra ser franco, nunca nem tinha ouvido antes. Recebi a recomendação e simplesmente fui assistir. Pensando hoje, meu contato com Air, na época, teve um aspecto insular. Me diverti, apesar de achar que havia garotas demais ao redor do protagonista, e que a animação era meio datada. Tirando isso, não me importei com seu contexto ou detalhes de produção e, assim que o finalizei, já passei para o próximo. E para o próximo, e assim por diante.

 

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Essa é só metade do harém de Air

 

Atualmente, não apenas procuro informações antes e depois de ter contato com um anime, como também me levo a sistematicamente ter contato com um número maior de obras, inclusive de gêneros que nem sempre me apetecem inicialmente. A relevância disso explicarei mais a frente. Quando assisti Air, percebi que aquele era um anime com aspectos técnicos diferentes dos que assistimos na década atual, mas talvez eu fosse incapaz de explicar os porquês na época. Tudo que sabia é que Air parecia deslocado. Ou velho, digamos. De lá pra cá, eu já li tantos artigos e ouvi tantos podcasts sobre animes e, principalmente, assisti tantos animes, que sinto que compreendo Air melhor a cada ano que passa.

Air é apenas o segundo anime produzido pela Kyoto Animation, antecedido pelo cômico Full Metal Panic? Fumoffu. Jun Maeda, então co-fundador da Key e peça-chave na produção da visual novel de Air no ano 2000, fez sua estreia na indústria de animação ao compor a trilha sonora da adaptação, bem como as músicas de abertura e encerramento da obra. Outra figura importante em Air é Tatsuya Ishihara (de quem falo aqui), que estreava no cargo de diretor na ocasião após bom trabalho em InuYasha. A própria Key, que citei anteriormente, vivia naquele começo de milênio uma verdadeira ascensão no mercado de visual novels e eroges, simbolizada pelo boom de adaptações de seus jogos em animes, como Kanon, Clannad e o próprio Air. A obra é marcada por um character design incomum; garotas com olhos grandes e espaçados demais, cabelos quase incompreensíveis de tão “espetados” e coloridos. Sem contar, e esse é um detalhe inusitado, que praticamente não existe fanservice físico, como decotes ou saias curtas demais. O moe, no começo dos anos 2000, era bem diferente do atual. Rastrear a linhagem de Air inclui, ainda, entender os diferentes usos do CG na época, o pacing típico das narrativas, entre vários outros fatores. Resumindo, o contexto histórico era outro. Estamos falando de 2005 aqui. Ou melhor, 2000, quando a visual novel surgiu.

 

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Um character design nos padrões moe da Key; hoje praticamente extinto

 

Se o contexto histórico que circunda uma obra não pode nunca ser ignorado, então é função do público interpretar tal obra segundo esse contexto. E é por isso que afirmo, no início do texto, que ler e se informar sobre animes é algo fundamental para o otaku que escreve e produz conteúdo, pois ele é alguém que supostamente se interessa por essa indústria. Porém, mais do que estudar a respeito, me parece que consumir as obras em si é o que vem em primeiro lugar. Afinal, quanto mais você assiste animes, mais você vai preenchendo lacunas, encurtando as brechas, situando cada obra em seu devido contexto histórico. Esse otaku deve entender o que veio antes e o que veio depois de cada anime, para que melhor consiga situá-los numa linha do tempo imaginária, que vai desde o surgimento das primeiras animações até o momento maluco em que vivemos hoje, com 40 produções por temporada.

Conforme eu estudo a indústria e consumo conteúdo otaku, mais clara pra mim se torna a linhagem que culminou em uma peça como Air. Contudo, quando me sento e vejo um anime da KyoAni que nunca vi, ou de Jun Maeda, ou dos anos 2000 num âmbito geral, é nessa hora que de fato ganho perspectiva. Pois me lembro de Air, me lembro do momento histórico em que Air se manifestou no mundo, e a linha do tempo imaginária se complementa. Experimentar animes que nunca experimentei me faz apreciar Air mesmo sem reassiti-lo, já que progressivamente entendo onde ele se situa no espectro da história da animação japonesa.

Mas o segredo é: assistir animes variados não te ilumina somente quanto à história da animação japonesa. Você acaba notando padrões estéticos diferentes, abordagens diversas quanto ao moe segundo o tempo, tendências de época (como adaptar visual novels, por exemplo; ou as famigeradas light novels pós-Swort Art Online), estilos característicos de cada estúdio, e por aí vai. Isso é, desde que sua cabeça se mantenha aberta.

 

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Evolução visual é sintoma de mudança em todos os aspectos

 

Falando especificamente sobre a produção de conteúdo otaku na internet, no que tange ao estudo e especialização, e portanto aperfeiçoamento de tal conteúdo para um público melhor informado a cada dia, nada supera a experiência crua: assistir animes. Não é o contato passivo com as coisas que irá te educar. E num mundo ideal, nenhuma atividade deveria ter maior prioridade ao produtor de conteúdo do que a educação. Em tempo: me considero, com meus poucos 20 e poucos anos de idade, ainda um iniciante no mistério da animação japonesa; e acredito que só verei meus sinais de evolução com mais 20. Se estudar animes é, acima de tudo, assistir animes, então que o otaku escritor, blogueiro, vlogueiro e podcaster os assista puramente; buscando literalmente volume, ao invés de priorizar sempre o seu gosto pessoal. Para informar e entreter, alguém deve se informar, não se entreter.

Contudo, nasce aqui um paradoxo: se poucas pessoas podem se dizer verdadeiras “manjadoras” da cultura otaku – já que volume se conquista ao longo de (muito) tempo –, então como nós, jovens e inexperientes, teremos a pretensão de escrever em nossos blogs e gravar nossos vídeos pro youtube? Talvez nossa solução seja praticar o discurso enquanto adquirimos experiência. Assim, evoluiremos juntos. Como se a produção de conteúdo sobre animes tivesse um viés de progressão, se assemelhando a um diário de bordo. Afinal, não imagino que um dia eu atinja experiência o bastante para, aí sim, lançar mão do discurso; mesmo porque, como disse, ninguém pode obter algo como “experiência o bastante”. Nosso tempo nesse mundo é limitado. E portanto me parece que o volume e o aperfeiçoamento devem caminhar juntos. Aliás, esta percepção pesa a favor dos que se arriscam e se expõem, pois seus eventuais equívocos vêm da tentativa, e não da certeza.

Como conclusão: que nunca paremos de assistir animes! E que nunca paremos de escrever e falar sobre. Mas que tenhamos em mente que o primeiro é mais importante. Só o convívio, a desmistificação das coisas é que pode te aproximar de se especializar nelas. Fora a perspectiva que isso te cria. Afinal, nem a mais rica argumentação é capaz de blindar uma possível inexperiência prática com o mundo ou sua matéria de estudo. A máscara, cedo ou tarde, cai. E é só seu convívio diário com a arte, e o volume de trabalho que você impõe a si mesmo, que podem te sustentar nesse meio otaku.

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