BEDA #08 – Suzumiya Haruhi, e a diluição dos clássicos

Ou, uma forma prolongada da discussão sobre animes como forma de arte versus animes como forma de entretenimento.

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Nunca me esqueci da primeira vez que procurei, no Youtube, por “Haruhi”. Na ocasião, eu queria enfim descobrir do que é que se tratava essa palavra, esse termo sem significado aparente, que ouvira infinitas vezes por aí. Cliquei no primeiro resultado. “Haruhi dance”, ou algo do tipo. Evidentemente, nada mais era que a ending mais famosa da série: a da dancinha, Hare Hare Yukai. Nada ali, sinceramente, me chamou a atenção. Muito menos me convenceu do impacto que aquele anime causou na década passada. Ocorre que faltava-me o contexto. Me faltava, naturalmente, ter vivido aquilo, ter me importado com aquilo lá na época de lançamento… Ainda à procura de respostas, contudo, desci até a seção de comentários e, aí sim, fiquei pasmo com algo, com o primeiro comentário. Era um usuário comum de Youtube, que em sua breve colocação recebeu uma chuva de likes. “So, this is what the world was like back in 2006?”. Me lembro exatamente de cada palavra. Talvez ele estivesse tão descontextualizado quanto eu; a diferença, porém, mais cínico.

A questão é que, imagino que assim como eu, esse cara sentia que na sua educação animística havia uma lacuna. Diabos, todo mundo idolatra Suzumiya Haruhi, mas do quê se trata mesmo esse anime? Contudo, fazer a ligação que fez, comparar um clipezinho de 1 minuto e meio com toda a forma como o MUNDO era, funcionava e se sentia em 2006, me parece resgatar parte de uma mente coletiva quase ancestral através de uma reles dancinha fofa. O que me impressionou, no comentário, foi a respeitosa reverência involuntária a um anime tido como clássico; um anime cujos memes ainda ressoam tão fortemente em resultados de busca para leigos em sua arte e importância histórica. Eu, como o comentarista sobre quem comento, sou um ignorante em Haruhismo – e isso diminui meu valor como potencial fanboy de KyoAni, admito.

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Assim, me vejo com a seguinte questão: animes, como a mídia de consumo instantâneo que têm se tornado, possuem uma “permanência” cada vez mais curta? Para onde vai o hype das coisas? Muda de “coisas”, certo? Uma após a outra. A razão de ser deste ensaio reside, talvez, na impressão de que a atual geração do streaming já não se importe com Suzumiya Haruhi. Faça as contas comigo: alguém nascido no ano de 2002, e que portanto teria 15 anos em 2017, desconhece o mundo pré-internet, pré-streaming. Pode acessar o Crunchyroll diariamente, mas provavelmente não assistiu animes de fansub, e muito menos na TV aberta. Pra essa pessoa, o fenômeno Haruhi surgiu quando ela tinha apenas 4 anos de idade… por quê ela se importaria? O mesmo é válido para alguém só um pouco mais velho, que em condições naturais não teria contato com, por exemplo, Evangelion, um anime de 1995. Eu sei, eu sei, cada geração de otakus terá seus ícones, seja em termos de qual anime é o mais importante ou qual a melhor plataforma para assisti-lo, e não quero menosprezar o contexto X e enaltecer o contexto Y. Quem faz isso é gente velha e saudosista. Minha preocupação é, na verdade, a (im)permanência de obras que nem mesmo são tão datadas assim.

O próprio Erased, pra citar um exemplo bem recente, pois faz apenas um ano que teve sua relevância, já não é mais tão lembrado assim na comunidade otaku. Foi devorado por Kabaneri e Re:Zero na temporada seguinte, atropelado por Mob Psycho na próxima, e enfim mastigado e cuspido por Yuri!!! On Ice em sucessão. O mesmo se dá com Kuzu no Honkai, agorinha, em janeiro. E olha que os comparo à Erased, que nem de longe é “o novo Evangelion”. Desse modo, vivemos uma diluição dos animes clássicos? E seria essa diluição um sintoma da facilidade com que acompanhamos as famigeradas temporadas de anime atualmente? Afinal, tente assistir semanalmente a 5 ou 6 séries, que dirá 20 (como conheço gente que o faz), e ainda ter tempo para se dedicar a uma obra mais antiga, por vezes bem mais antiga, que dificilmente estará disponível para streaming em boa qualidade – te forçando a recorrer a downloads, torrents, fansubs, e outros itens de museu. Dentre as velharias que citei, Eva não se encontra tão facilmente online; Haruhi menos ainda. O otaku médio com certeza ganhou em acessibilidade e informação, mas acredito que perdeu, na mesma medida, em história, em sentimento e em possibilidade.

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Rede Globo aprova essa imagem.

Tenha em mente: estou partindo da premissa de que Suzumiya Haruhi, o alicerce deste texto, seja de fato um clássico. Pois, pensando no contexto atual, tal condição pode se tornar fugaz, como o próprio contexto atual. Quando de seu surgimento, Haruhi rapidamente se tornou uma instituição cultural não só no Ocidente. Seu apelo foi traduzido em merchandising, cosplaying, discussões apaixonadas em fóruns, mudanças de ordem técnica dentro da própria indústria – e, claro, memes. A qualidade visual da Kyoto Animation e seus momentos sakuga sempre, sempre, culminaram em gifs e avatares e todo tipo de meme internet afora. Pensemos que, se na época Haruhi foi, por si só, um grande meme, ou pelo menos um grande gerador de memes, o que o torna melhor que um Re:Zero ou um Kimi no Na Wa? (Por sinal, alguém ainda se lembra destes dois? Ou já se passaram muitas décadas e séculos nos nossos newsfeeds?). Mas Haruhi, convenhamos, os supera em valores de produção, na inventividade de seu character design, na rica linguagem interna entre seus personagens, nas autorreferências à cultura otaku – algo que, antigamente, só se via em produções da Gainax.

Existe, sem sombra de dúvida, uma concepção de anime pré-Haruhi e uma pós-Haruhi; algo que raríssimos animes proporcionaram no cenário geral. Entretanto, e infelizmente, quanto à recepção e interpretação média do público, me parece que Haruhi foi só (mais) uma amálgama de memes; não muito diferente do que foi Yuri!!! On Ice ano passado. A diferença é apenas o quão recente é cada um. Se Haruhi não passa de um meme de 2006, com uma linguagem e propagação típicas de 2006, o mesmo pode ser dito sobre Yuri!!! On Ice em 2016, sem tirar nem pôr – pelo menos no que tange à forma e impacto midiático, em detrimento do conteúdo e impacto emocional em cada indivíduo, em cada espectador. Estou me referindo aqui, é bom ressaltar, ao consumo de animes como fenômeno coletivo, como matéria-prima de interação social numa comunidade, desconsiderando inclinações pessoais mantidas fora da curva. Pois eu mesmo sou muito mais chegado num torrentzinho de boa qualidade, pra guardar pra sempre minhas séries preferidas num HD externo; apesar de ter amado assistir Lost Canvas no Netflix, ou InuYasha dublado no Youtube (procurem, tem completo!).

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Falar sobre impermanência cultural numa indústria que evolui tão rápido – pensando microcosmicamente, pegue uma lista de animes da KyoAni por ano, e veja cenas aleatórias de cada um; o progresso técnico dos caras é assustador –, talvez seja o mesmo que aplaudir tal indústria, e sua capacidade de autofagocitose, de devorar o velho e gerar sempre algo novo. O cinema ou a música de 10 anos atrás, por exemplo, apresentam bem menos revoluções pontuais, por assim dizer, do que animes. Desse ponto de vista, a indústria dos animes pode ter se configurado, atualmente, como um fenômeno perfeitamente millennial, já que tudo envelhece e se desatualiza e sai dos holofotes numa velocidade difícil de ser compreendida. Ou essa seja apenas uma inclinação memística dos animes; novamente, algo reforçado pelo estereótipo millennial. Afinal, num intervalo de duas décadas, o próprio Evangelion foi de revolucionário em sua época para clássico nos anos 2000, para meme no início dos anos 2010, para meme clássico nessa segunda metade de década – e se isso não diz muito sobre animes como afirmação cultural segundo o tempo, então eu não sei o que o fará. Animes, sob essa ótica, já nascem datados; já nascem com um prazo de validade cultural, já nascem como memes. Por vezes, morrem e reencarnam como memes. Sem nunca atingirem, em nenhum estágio do processo, o status de arte.

Numa outra vertente, temos Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu. Subestimado em 2016, subestimado novamente em 2017, há aqui um anime de pouco apelo coletivo, porém de cunho artístico ímpar. E apesar do pouco sucesso, não é arriscado dizer que alguma impressão positiva Rakugo deixará na indústria: sua dublagem, sua ambientação de época, sua comunicação subjetiva de algumas ideias, sua confirmação de que o Estúdio Deen consegue adaptar qualquer coisa, e assim por diante. Pois, tempos atrás, deu-se o mesmo com um certo Cowboy Bebop. Hoje tido como um clássico, a verdade é que o primogênito de Shinichiro Watanabe passou batido pelo grande público quando de seu lançamento, em 1998, devido à censura e a um horário de transmissão ingrato. Foi o tempo quem trouxe reconhecimento ao anime. O tempo, e não o hype instantâneo.

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Com isso, me pergunto se é verdade que Cowboy Bebop seja mais respeitado como clássico atemporal do que Evangelion ou Haruhi, seja por otakus, seja por, e principalmente, não-otakus. Novamente, tudo aqui não passa de especulação; entretanto, não soa razoável dizer que a diluição de um anime clássico na massa memística da internet não passa, obrigatoriamente, por sua popularização acelerada? Por sua acessibilidade? Ou, pelo menos, sua aparente acessibilidade, já que Eva exige algum debate e estudo no final das contas. Enfim, se hoje animes são esquecíveis na mesma toada em que são acessíveis, não poderia um Rakugo se beneficiar de sua obscuridade para se manter num patamar artístico mais sublime, como foi com Bebop? Que Haruhi me perdoe, mas se boa parte de seu encantamento cai por terra com uma simples virada de década, então eu quero, eu almejo, eu sonho sinceramente assistir a Suzumiya Haruhi um dia e me apaixonar atemporalmente; como me foi com Evangelion e Cowboy Bebop.

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