BEDA #06 – A humanidade escancarada de Kuzu no Honkai, parte 2

Kuzu no Honkai foi o grande destaque da última temporada. Mas o que tornou a obra tão rica e intrigante? Vamos debater esse assunto!

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Aviso: spoilers de Kuzu no Honkai.

Aviso 2: a diferença na qualidade das scans me obrigou a utilizar imagens em português e em inglês ao longo do texto; peço desculpas pela falta de padrão.

 

Kuzu no Honkai foi o anime mais hypado da temporada. Talvez eclipsado pelo palpável apelo de suas possíveis polêmicas e, numa nota mais crítica, relevante no trato incomum ante o lugar-comum do meio animístico. O bloco Noitamina respira por aparelhos, mas passa bem.

Desde minha primeira postagem sobre Kuzu no Honkai, disponível aqui, aguardei pela conclusão da obra para criar este segundo texto, e fechar de vez o ciclo. Anime e mangá chegaram ao fim na mesma semana. Sem fillers, sem arcos improvisados; a adaptação é redondinha. E se na Parte 1 eu preferi focar em Mugi, agora é a vez de sua contraparte, e quem sabe a personagem mais interessante da obra: Hanabi Yasuraoka.

Hanabi nos é apresentada, em consonância com Mugi, como melancólica e suscetível a impulsos. Se para Mugi uma relação carnal é o tipo de excitação barata que lhe dá algum propósito numa vida entediante, Hanabi parece buscar com seu corpo algo mais específico. Não nos são mostradas cenas grandiosas e impactantes do passado desses personagens (contrariando o clichê do “trauma de infância” da maioria dos animes), e penso haver uma boa razão pra isso: o passado, principalmente o de Hanabi, é bastante monótono. Não foi um único acontecimento que a marcou; foram todos os acontecimentos. Foi uma vida inteira vivida sem uma figura afetuosa que a completasse. Uma figura paterna, talvez. Hanabi cresceu com a onipresente ausência de algo. Ela convive com a falta – inclusive a falta de um trauma, de uma cicatriz propriamente dita.

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Como comunicar o que não existe?

 

Na busca por materializar a falta, Hanabi vai assumindo diversas personalidades ao longo da história. Ora faz um pacto literalmente materialista com Mugi, ora decide se vingar de Akane por vê-la triunfando num jogo que Hanabi nem sabia existir (e com isso quase se torna uma Akane 2.0), ora abusa do afeto da ingênua Ecchan. Para piorar, Hanabi é atraente; assim, todas as suas decisões impensadas recebem aplausos. Seus erros se proliferam como ervas-daninhas no fértil solo do ego do mundo. O medo da solidão conduz Hanabi em uma confusa rota margeada por breves momentos de autoapreciação e outros incontáveis de autodepreciação.

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Como casal, Mugi e Hanabi confessam que o que desejam é, nas palavras deles, tão elusivo que jamais alcançarão esse algo. Desse modo, eles começam e terminam a história com a mesma busca vã. A diferença é que Mugi, pelo visto, pouco aprende quando tropeça. Ele só desiste de Akane por ela deixar de representar a utopia com que ele sonha. Hanabi, por outro lado, vai ficando autoconsciente conforme explora novas abordagens pra vida e encontra sempre o mesmo resultado – solidão e silêncio. Na cena final do mangá, Hanabi, ainda assim, diz que prefere continuar buscando o “algo” que lhe falta. Bem, pode ser que todos nós busquemos coisas impossíveis, só que Hana-chan não mais o faz esperando salvação. Ela enraizou dentro de si uma percepção de que as coisas são, no fundo, vazias. E assim se libertou da sua busca por sentido.

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Os sonhos lúcidos de Mugi

 

A sensação que tive é a de que Kuzu no Honkai é um conto sem heróis. Niilista mesmo. Akane-san, assim como Mugi, também nos serve de prova de que, nessa obra, o niilismo é quem vence. Afinal, a professora acredita ter mudado profundamente, quando na prática só encontrou em seu noivo um “adversário” muito mais difícil do que o usual. Alguém que a tira tanto de seu estado normal que, à essa sensação de estranhamento, dá-se o nome de mudança. Ela continua, inconscientemente, perseguindo a própria calda. O que a motivou a casar ainda é o mesmo sentimento que a motiva a fazer tudo o mais na vida…

A redenção de Hanabi, portanto, e ao contrário de Mugi e Akane, baseia-se na solidão. Com isso, ela despede-se de Mugi e de seu Onii-chan sem peso na consciência. Kuzu no Honkai, pelo menos para uma personagem, nos sugere que a centrifugação entre um sujeito e o mundo, apesar de problemática, pode ser esclarecedora a longo prazo.

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Quanto a essa centrifugação, me parece que ser uma pessoa atraente foi uma força motriz para os conflitos de Hanabi em Kuzu no Honkai. Porém, o que será que a torna atraente? Não penso tanto em beleza física; talvez a falta, a ânsia por algo, seja um ímã que atrai a todos: os personagens centrais, os secundários, os figurantes que aparecem só pra reforçar essa ideia… diabos, o próprio leitor. Hanabi tem uma aura de mistério; o que puxa as pessoas em sua direção é sua melancolia, a indizível falta, a inviabilidade de comunicar aquilo que nunca lhe foi comunicado. Seu aspecto reticente.

Mais do que uma rapsódia sobre a falta, Kuzu no Hunkai é, de certa maneira, um estudo sobre as tentativas de uma adolescente, e por extensão das pessoas com quem ela se relaciona, de expressar no mundo real a torrente incontrolável de sensações da juventude. Algo que, na melhor das hipóteses, apenas se abranda com a idade. Enquanto o medo, por outro lado, nunca se retrai, e mantém sua presença intimidadora.

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Agora, aos que reclamaram sobre o casal principal não ter ficado junto, Hanabi esclarece até mesmo isso: eles nunca estiveram de fato juntos. Não admitidamente, só em negação. Isso os impediu de apreciar de verdade um ao outro. Se bem que, tristemente, apreciar um ao outro nunca foi a intenção dos dois; o que eles queriam era apreciar o próprio sentimentalismo e desamparo, e impô-lo um ao outro. Mugi e Hanabi se despedem pesarosamente, envoltos na mesma falta intraduzível que os ligou um dia. Kuzu no Honkai, mesmo com seu casal mais adorado pelos fãs, acaba se saindo como uma sátira melancólica aos relacionamentos. E a maior prova disso é a obra terminar em pizza, digo, em casamento. Os momentos finais quase gritam na nossa cara: ninguém, nenhuma pessoa muda; elas no máximo se casam.

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Como conclusão, quero apontar um quadro do mangá em particular, logo abaixo. No capítulo final, nos deparamos com uma Hanabi que possui esse olhar. Esse olhar é inédito para a personagem. É um olhar vazio, como sempre foi ao longo da obra. Porém, não me soa vazio de significado, e sim vazio de contemplação à falta de significado. Não é oblíquo nem dissimulado. Você espera a obra toda por isso. Esse olhar é a recompensa emocional da personagem E do leitor.

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Se tenho direito a um momento de fanboy, quero acrescentar os pequenos detalhes de staff que, por mais que eu me contentasse só com o mangá, me convenceram a assistir ao anime também. Gostei de descobrir que a trilha sonora ficou por conta de Masaru Yokoyama. O homem já compôs para Shigatsu wa Kimi no Uso e Gundam Iron-Blooded Orphans, e inclusive escrevi um texto sobre o segundo, aqui. Falando em música, o encerramento de Kuzu no Honkai é fantástico; seja pela animação e seu efeito caleidoscópico, seja pela viciante música de Sayuri, de quem também já falei, aqui. Mas, pra mim, o xeque mate mesmo foi a dubladora de Hanabi: Anzai Chika, a moça que empresta a maravilhosa voz à Kousaka Reina, de Hibike! Euphonium – anime que, por sinal, já explorei em detalhes aqui e aqui.

E você? Ainda não assistiu e/ou leu Kuzu no Honkai? Se não, corre que vale a pena! Se sim, deixe suas ideias nos comentários pra continuarmos esse papo, e volte sempre ao Otaku Pós-Moderno! Até já!

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2 comentários sobre “BEDA #06 – A humanidade escancarada de Kuzu no Honkai, parte 2

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