BEDA #05 – Sobre escrever diariamente

Escrever é uma coisa, escrever todos os dias muda o jogo completamente. Vamos discutir essa distinção?

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As ideias, ou pelo menos a intenção, necessárias para produzir este texto têm povoado a minha mente nos últimos tempos. Com o início do BEDA aqui no blog, me pareceu o momento ideal para… escrever sobre escrever; ou, transcrever o tipo de abordagem que tenho aplicado a esse meu hábito. A ironia é: diabos, meu BEDA se atrasou. Perdão por isso. Ontem não tive tempo e, pra ser honesto, eu bem que imaginava que isso pudesse acontecer. Vou continuar a contagem como se nada tivesse acontecido – apesar dos títulos dos posts agora ficarem dessincronizados com as datas no calendário – por justamente temer que isso se repita. Mas prometo me dedicar para evitar novos atrasos.

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Passada a longa introdução, o pano de fundo para o post de hoje é uma entrevista traduzida, com um homem chamado Toshiyuki Inoue (Wolf Children, Uchouten Kazoku, Paprika), conhecido na indústria pela alcunha de “o animador ideal” (do japonês: パーフェクトなアニメーター). Você pode conferir a entrevista aqui. Inoue, questionado sobre os padrões de trabalho para animadores quando ingressou na indústria, diz que a média exigida na produção de um anime para TV era de 150 quadros por mês (o equivalente a meio episódio), para cada animador-chave. Ao observar os colegas ao seu redor, o jovem Inoue se percebia um animador lento, que focava mais na perfeição do que na quantidade de quadros. Ele, é claro, achava os desenhos de seus colegas simplistas demais. Eis que a contradição surgiu: Inoue chegava no máximo a 100 quadros por mês, mas sua baixa quantidade de quadros não era compensada por uma maior qualidade dos mesmos, devido à pressão da demanda. Hoje, com seus 50 e poucos anos, Inoue admite que a perfeição que buscava quando jovem, e que o tornava lento, era utópica, e que só se aproximou dela depois dos 40.

A sacada de Inoue é simples: quando se é jovem e enérgico, o melhor é produzir em volume. Apenas produza. Com foco, mas produza. A qualidade virá com o tempo, com a quantidade. Sem contar que o próprio envelhecimento de uma pessoa a torna lenta. Porém, a experiência estará ali. E isso é válido para qualquer produção artística.

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Repare na fluidez desse corte de Inoue em Wolf Children

 

A relação que fiz entre desenhar, no caso de Toshiyuki Inoue, e escrever, como no meu caso, se refere exatamente ao tipo de produtividade que se espera alcançar, como citou o animador. Sempre releguei a escrita ao sentimento de “inspiração”. Ou seja, escrevia quando queria expressar algo específico, quando me encontrava com um humor específico, e buscava um resultado final o mais polido possível. Assim, por vezes ficava semanas sem encostar numa caneta – enquanto diariamente assaltava-me o pensamento de que, alguma hora, teria um sentimento de inspiração mais frequente. Isso, obviamente, nunca aconteceu. E escrever continuou sendo um evento, um esforço raro focado em lapidar e traduzir com perfeição um único estado mental, naturalmente ignorando todos os outros. Qual o risco disso? O risco é que, se esse humor específico que te faz produzir não aparece por um tempo, ou não aparece nunca mais(!), você logicamente deixa de produzir. Você fica estagnado. A arte morre.

Na prática, e só me dei conta recentemente, eu escrevo há mais de uma década. Meu texto supostamente mais antigo data de 2005. Digo “supostamente” pois é provável que escrevesse antes, só que com consistência ainda menor. Até 2002, mais ou menos, eu tinha o costume de desenhar e acreditava ser realmente bom nisso – coisa que hoje duvido. Escrever, contudo, tem sido uma constante em minha vida, cuja onipresença passa quase despercebida, de esparso que é meu comprometimento. É algo que só está aí, variando apenas em força ou intensidade segundo os anos, mas nunca sendo levado realmente a sério. Mesmo que, ainda assim, uma década me soe como uma boa quilometragem.

A mudança que se processou em 2016/2017, e que me trouxe ao Otaku Pós-Moderno, foi justamente ter me dado conta de que, se você faz algo por gosto durante metade da sua existência, por quê não se especializar nesse algo e convertê-lo de figurante à protagonista no seu cotidiano? Que tal se, ao invés de fazer como sempre fiz, que é esperar pela inspiração divina para escrever uma vez por semana, eu passasse a escrever todo santo dia como um maníaco? Bem, aí cabivelmente me surge a entrevista de Inoue, e o desejo de explorá-la no BEDA. Inoue revela que, acelerando seu ritmo quando jovem, adquiriu não apenas potência, como autodisciplina. Já li, em algum lugar, que o tempo que se gasta com volume, com rascunhos em qualquer área artística, equivale a 20% do tempo total da peça finalizada. Enquanto os retoques finais exigem assustadores 80% do seu tempo. Assim, quanto mais se rascunhar melhor. Pois a inércia estará a seu favor com o tempo.

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Quadro de Inoue em Ghost in the Shell: Stand Alone Complex

 

Escrever diariamente é um experimento inédito pra mim este ano. Que seja um parágrafo, uma linha, eu escrevo todos os dias. Tenho inúmeros textos começados, rascunhados, e me parece bem menos importante finalizar qualquer coisa. Arte é trabalho. Não uma expressão pura da alma, ou seja lá o que for. A diferença é que, com o BEDA, a aposta ficou um pouquinho mais cruel. Assim como Toshiyuki Inoue estabelece que as exigências da indústria da animação incutiram em seu espírito uma espécie de resistência física, escrever uma peça finalizada por dia, ao invés de apenas rascunhos, é algo que quis alcançar neste mês de abril. E claro, dependendo da aceleração que isso me der, talvez tente aprimorar minha frequência por aqui!

Enfim, este pode ter sido, novamente, um post meio pessoal. Mas quem sabe o BEDA não seja também uma ótima oportunidade para esse tipo de auto-reflexão, não é mesmo? Seja como for, mantenham-se antenados aqui no blog e continuem acompanhado essa jornada maluca! Até mais!

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