BEDA #03 – InuYasha e a feliz relação entre Sunrise e KyoAni

Num obscuro passado pré-internet-banda-larga, nenhum ocidental poderia imaginar que InuYasha, aquele divertido anime do Cartoon Network, fosse produto de uma simbólica cooperação entre dois ótimos estúdios. Então, vamos discutir como isso rolou?

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Quem já dedicou algum tempo pesquisando a indústria dos animes e, mais especificamente, o histórico de seus estúdios de animação favoritos, certamente notou as curiosas relações entre eles. Este infográfico aqui, desenvolvido pelo Crunchyroll, ilustra bem a complexa teia que entrelaça os mais variados estúdios ao longo das décadas. Perceba como tudo está ligado; companhias como Tatsunoko, Toei e Mushi Pro (de Osamu Tezuka) são praticamente pais fundadores, com estúdios derivando sucessivamente um do outro, conforme os animes se popularizam pelo Japão e pelo mundo. É uma indústria, sem dúvida, insular – o que a torna fascinante.

Nesse contexto, é intuitivo dizer que nem todos os estúdios saem produzindo greatest hits logo no início de sua trajetória. A tendência é que, por algum período, estúdios novos façam trabalhos terceirizados para os mais tradicionais. O chamado “outsource work”. Mesmo a respeitada Kyoto Animation teve seus dias de “estágio”, emprestando animadores e in-betweeners para outros estúdios na produção de obras como Tenchi Muyo (AIC), Generator Gawl (Tatsunoko), Kiddy Grade (Gonzo) e, no mais interessante dos casos, InuYasha, do estúdio Sunrise (que, por sinal, é cria do Mushi Pro, assim como a própria KyoAni…!).

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A indústria resumida em uma imagem

 

Ao contrário dos outros animes citados, InuYasha é o tipo de série que se prolongou por anos a fio, ultrapassando a marca de 150 episódios em sua exibição original. Assim, formou-se com o tempo uma saudável parceria entre Sunrise e KyoAni. Entre os anos 2000 e 2004, época da transmissão de InuYasha, pelo menos um episódio por mês tinha direção de animação, direção de episódio e storyboard de um profissional trazido diretamente de Kyoto – totalizando cerca de 30 episódios de InuYasha com o nome KyoAni nos créditos. Sem contar os in-betweens e animações-chave nos demais episódios.

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Arte conceitual de InuYasha

 

Pode-se dizer que o intercâmbio beneficiou as duas partes. A Sunrise, mesmo tendo produzido uma de suas séries mais longas até então, recebeu inúmeras premiações pela qualidade de InuYasha. Enquanto a KyoAni aproveitou a oportunidade para que seus novos talentos adquirissem rodagem. E o resultado desse período de treinamento reflete-se até hoje nos padrões de excelência alcançados pela Kyoto Animation!

O exemplo mais notável é o de Tatsuya Ishihara. Ele dirigiu e fez o storyboard de vários episódios, e a experiência adquirida o levou a ser escalado como diretor de série em Air, de 2005. Nos dias de hoje, Ishihara é o principal ícone criativo da KyoAni, constando em seu currículo obras como Clannad e Clannad: After Story, Suzumiya Haruhi no Yuutsu, Hibike! Euphonium, e assim por diante…

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O trabalho de Ishihara em Euphonium

 

Shouko Ikeda, também uma figura proeminente na KyoAni, foi animadora-chave e diretora de animação ao lado de Ishihara em alguns episódios de InuYasha. Ikeda possui uma sólida carreira, com destaque para o cargo de diretora-chefe de animação em Haruhi e Euphonium, além de ser creditada como criadora dos belos character designs utilizados nessas duas séries.

Por último, quero citar o curioso caso de Naoko Yamada, que na época de InuYasha era uma jovem de 20 anos, recém-graduada em artes. Contratada pela KyoAni, foi imediatamente requisitada para trabalhar com os in-betweens de InuYasha. O ano era 2004, e como o anime da Sunrise estava prestes a ser concluído, Yamada nem chegou a aparecer nos créditos da série. No entanto, seu trabalho agradou tanto seus superiores na KyoAni que a jovem foi promovida a animadora-chave em Air. Nos idos de 2009, já era diretora de série em K-On! Tida como um pupilo de Ishihara, Yamada é considerada um dos grandes novos talentos da KyoAni – e, por extensão, da indústria.

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Yamada em Euphonium: seria ela, e não eu, quem tem tara por pernas e pés?

 

Ao contrário das lendas urbanas que se contam no Ocidente, a indústria de animação japonesa está, como sempre esteve, à todo vapor. É verdade que ninguém que trabalha dentro dela fica milionário; porém, a paixão dessas pessoas e o constante intercâmbio de profissionais e experiências, evidenciado pelos exemplos que citei, me faz perceber que essa indústria seja capaz de se manter sempre fresca e motivada — graças ao desembaraço com que os estúdios e seus funcionários sentem ao cooperar entre si.

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Vai sonhando!

 

E você, leitor, que está achando do BEDA? Comente sua opinião, e continue acompanhando nosso blog. Até mais!

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2 comentários sobre “BEDA #03 – InuYasha e a feliz relação entre Sunrise e KyoAni

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