As influências de Pacific Rim

Não assistiu Pacific Rim? Assistiu e está ansioso pela sequência? Então saiba que as filmagens de Pacific Rim 2 estão acontecendo a todo vapor! E enquanto o filme não sai, que tal relembrarmos as origens dessa incrível franquia?

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Pacific Rim, distribuído no Brasil como Círculo de Fogo, é um filme de 2013, dirigido e coescrito por Guillermo del Toro (Hellboy, O Labirinto do Fauno). Divulgado como uma ficção científica, a verdade é que Pacific Rim bebe de tantas fontes diferentes que é quase cruel reduzi-lo a um gênero tão inespecífico. Del Toro, um nerd assumido (é sério, sigam o homem no twitter), misturou no mesmo filme elementos de ação, fantasia, sci-fi, cyberpunk, horror lovecraftiano, monster movies, kaiju eigas (monster movies japoneses), tokusatsus e, claro, nosso foco aqui no blog: animes. Pode acreditar, animes. E o resultado final é inacreditável. Francamente? É o tipo de filme que sempre sonhei que Hollywood fizesse um dia, afinal há uma diferença substancial entre o cinema estadunidense e o japonês: dinheiro, infelizmente. Enquanto no Japão temos produções bem duvidosas, como o live-action de Shingeki no Kyojin lançado em 2015, Hollywood pode sim gerar grandes filmes inspirados por obras orientais, como Pacific Rim – desde que passem pelo crivo de artistas apaixonados e competentes, como del Toro. Em outras palavras: dê 190 milhões de dólares na mão do cara e ele não irá decepcionar nenhum otaku que se preze. E ainda garantirá um bom lucro ao estúdio (US$411 milhões!).

Apesar do insano leque de influências que Pacific Rim possui, vou me ater exclusivamente a animes, seja pela temática do blog, seja porque falando apenas sobre isso já deve dar um texto bem longo. No filme, essas influências advém de obras específicas, muitas vezes confirmadas por del Toro em entrevistas (como Tetsujin-28, Gundam, Mazinger, Patlabor), mas também se dão em termos de gêneros como um todo (animes de mecha, de sci-fi, de fantasia, etc.).

PACIFIC RIM

Uma luta dessas? Com o que mais eu poderia sonhar?

É divertido rastrear as influências contidas num filme quando este, sem dúvida, se orgulha delas. Ou, no caso, presta um legítimo tributo a elas. E por mais que del Toro e o co-roteirista Travis Beacham reafirmem constantemente que Pacific Rim não se trata de uma homenagem direta, é inevitável que parte das suas referências como artistas acabem transparecendo, nem que seja na forma de um sentimento. Nesta entrevista, del Toro revela que suas criações tendem a resgatar as emoções que ele tinha ao assistir determinados filmes quando era criança. Sob esse olhar, uma obra como Pacific Rim deveria ser enaltecida não pelas referências culturais que faz, e sim pelo sentimento que certos tipos de obras despertam.

Entretanto, é como afirmei acima: não deixa de ser divertido encontrar referências. Ora, o próprio objetivo delas é serem encontradas. Ao fazê-lo, nos comunicamos brevemente com um artista. É como um “eu te entendo”, ao sentir que mais alguém possui uma ligação afetiva por um anime obscuro. É encontrar um semelhante na multidão.

E sem mais delongas, vamos a elas:

TETSUJIN-28MAZINGER Z

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Tetsujin-28

Tetsujin-28 literalmente significa Homem de Ferro nº28. Transmitido no ocidente como Gigantor, a obra foi baseada num mangá de 1956. E, sim, é anterior ao Homem de Ferro da Marvel. Del Toro especificamente cita Tetsujin-28 como uma grande influência e um dos seus desenhos animados favoritos. O mangá é um dos pioneiros ao apresentar a figura de um robô gigante, e o primeiro a ter um robô com formato mais humanoide. Na história, o “homem de ferro” era pilotado via controle remoto, por um operador externo.

Foi apenas em 1972 que o gênero mecha passou pela revolução de ter um piloto interno, comandando um robô dentro de um cockpit. Quem introduziu tal mudança foi o mangá Mazinger Z, outra influência para del Toro. Mazinger Z foi bastante popular no México (terra natal de del Toro) no início dos anos 80, sendo um dos poucos países ocidentais a transmitir todos os 92 episódio do anime, e com o bônus de ter sido traduzido diretamente do japonês para o espanhol.

Talvez o traço mais notável tanto em Tetsujin-28 quanto em Mazinger Z seja o fato de seus protagonistas serem jovens que foram confiados com tecnologias supostamente muito além de suas capacidades. Essa característica irá moldar o gênero mecha, estando presente até os dias de hoje. Em Pacific Rim, quem deverá salvar o dia são Raleigh, um piloto jovem mas experiente, que claramente sofre de stress pós-traumático, e Mako Mori, uma piloto totalmente novata que tem lá seus traumas de infância…

Outras semelhanças surgem especificamente nos robôs. Há uma cena marcante em Pacific Rim em que o Jaeger (nome dado aos mechas no filme) pilotado por Raleigh e Mako, Gypsy Danger, utiliza uma espécie de foguete acoplado ao seu cotovelo para dar um soco superpotente. Sem contar sua arma secreta: um reator nuclear expelindo fogo diretamente de seu peitoral. Além de incríveis, essas armas são inspiradas por armas semelhantes de Mazinger.

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A) Rocket Punch em Mazinger; B) Elbow Rocket em Pacific Rim; C) Breast Fire em Mazinger; D) “chest turbine engine” em Pacific Rim


PATLABOR

Transmitido no Brasil pela saudosa Fox Kids, é mais um exemplo de anime que del Toro costuma citar ocasionalmente. Yutaka Izubuchi é o responsável pelo design dos mechas em Patlabor, bem como em inúmeras outras obras do gênero. Seu trabalho tornou evidente com o tempo as sutis diferenças no desenho de cada robô, concedendo-lhes mais personalidade e características mais memoráveis. Em Pacific Rim, não há um Jaeger que seja remotamente semelhante a outro, assim como se vê no trabalho de Izubuchi. E essa, de fato, acaba se tornando uma assinatura de del Toro: o diretor adora se envolver com a parte criativa e conceitual de seus filmes. Desenhando ele próprio, bem como supervisionando os outros desenhistas, num processo de surgir com criaturas e robôs que não remetam a nada visto anteriormente. Sendo um aficionado por H. P. Lovecraft e por, bem, mechas, del Toro é o tipo de diretor que se opõe ao uso exagerado de efeitos visuais. Ele constrói suas criaturas e robôs, e busca retratá-las o mais realisticamente possível em termos de física, biologia e tecnologia. Mas, ainda assim, mantendo-as simples e distintas entre si.

“Bem, eu quis que Pacific Rim fosse de fato um sincero, amoroso poema aos gêneros kaijumecha. […] eu quis que o filme fosse simples. Não como um defeito, mas como uma qualidade que me permite manter meu eu de 12 anos de idade no comando daquilo que o filme precisa alcançar, que é provocar espanto e amor por essas criaturas e robôs.”

– Guillermo del Toro


GUNDAM

Sem dúvida o anime de mecha mais famoso da história, e um pelo qual del Toro tem carinho especial, como pode ser visto no divertidíssimo vídeo abaixo. Nele, o diretor caminha por Odaiba, em Tokyo, acompanhado pelas atrizes Rinko Kikuchi (Mako Mori em Pacific Rim) e Mana Ashida (Mako Mori versão criança no filme), visitando o museu Gundam Front e reagindo como um verdadeiro fanboy. E olha, se Pacific Rim sozinho não transformou imediatamente Guillermo del Toro no herói de qualquer otaku, esse vídeo pode ser a sua última chance. Um detalhe interessante: mais ou menos na marca dos 2 minutos do vídeo, del Toro revela que, em Pacific Rim, os Jaegers Cherno Alpha e Coyote Tango são inspirados, respectivamente, nos mechas Zack e Guncannon, de Gundam.

Talvez um dos grandes fatores na “tradição mecha” seja o uso da tecnologia como algo inerentemente benéfico à sociedade. Como del Toro afirma nesta entrevista, “[a] tecnologia é má em todas as fábulas ocidentais. É algo que se volta contra você. Não há indícios de perigo no gênero mecha […] Esses magníficos robôs gigantes operam num patamar mítico”.

Assim, uma característica notável na tradição mecha e em Pacific Rim é o fato dos robôs terem sempre uma explicação (pseudo)científica para seu funcionamento, manutenção, e assim por diante. Contudo, analisados friamente, sob um viés lógico, muitos desses traços não teriam aplicação no mundo real. Um exemplo de crítica apontada em Pacific Rim é o fato de um Jaeger de 2.500 toneladas ser carregado por “apenas” 8 helicópteros de carga, que suportam aproximadamente 11 toneladas cada. Faça as contas, e verá que o filme forçou a barra. Outro probleminha foi quando um pulso eletromagnético não desativou um Jaeger por este ser movido a energia nuclear, sendo que reatores nucleares possuem inúmeros componentes digitais. O que quero dizer com isso? Acurácia científica não é o foco no gênero mecha, nunca foi. Afinal, não há robôs gigantes lutando em guerras no mundo real e dificilmente haveria. Portanto, o que importa dentro desse gênero é muito mais a paixão do que a razão, a aura mítica do que limitações realísticas. Ou, robôs que pareçam funcionar logicamente, e de jeitos formidáveis e heroicos, do que robôs que de fato funcionariam.

Del Toro sabe bem disso. Pois o mesmo raciocínio se aplica a seus monstros e seus kaijus. Pacific Rim brinca com essa percepção, ao retratar no começo do filme uma Terra onde os pilotos de Jaegers se equiparam a rockstars e os kaijus derrotados ganham a simpatia e a admiração das pessoas. Sentimentos claramente emulados da sociedade japonesa, um país onde animes mecha fazem sucesso com crianças e adultos, de ambos os sexos, há mais de meio século, e um kaiju clássico como Godzilla é considerado um símbolo nacional.

Apesar do longo histórico de animes mecha que del Toro pôde utilizar na concepção de Pacific Rim, eu preferi deixar por último a comparação mais recorrente feita ao filme – e a mais imprecisa. Estou falando do grande Neon Genesis Evangelion (NGE), que, nesse caso, talvez seja grande demais para seu próprio bem…


NEON GENESIS EVANGELION

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Se não o melhor, no mínimo um dos mais influentes animes da história

Evangelion é a obra-prima de Hideaki Anno, centrada num mundo pós-apocalíptico em que jovens precisam combater invasores extraterrestres utilizando mechas, chamados de EVAs – por mais que metade das informações nessa frase deixe de estar correta conforme o anime progride. Assim, são justamente as incorreções da frase acima que invalidam as comparações entre NGE e Pacific Rim. Por exemplo, os mechas de Evangelion não são exatamente mechas, nem os invasores extraterrestres são “invasores”, ou mesmo “extraterrestres”! A introversão da personagem Rei se dá por ela ser um clone, recém-criado, sem experiência alguma com interações humanas. Compará-la a Mako é insensato, já que a razão para a introversão de Mako reside numa questão cultural, e também no trauma de ter visto a morte de seus pais por um kaiju. Ou seja, associar os Jaegers aos EVAs, e associar Rei a Mako, é o tipo de comparação que não tem pé nem cabeça.

Agora, quanto a símbolos visuais, e para exemplificar eu utilizo este artigo, novamente me parece uma comparação rasa. Afinal, como já disse antes, temos décadas de cultura mecha, inclusive no que tange a símbolos visuais. Ou seja, existe toda uma tradição relacionada às estruturas típicas dos robôs, características dos uniformes dos pilotos, o ar futurístico das tecnologias, a presença de uma torre de comando com vários cientistas, um cenário de crise, enfim… Animes mecha existem há tanto tempo que é impossível não vermos alguns clichês se repetindo. Evangelion, no mais corriqueiro dos casos, é apenas mais uma obra se apoiando em tropes já estabelecidos, do mesmo modo que Pacific Rim  algo que, nem de longe, ofusca a originalidade e frescor dessas obras. Ignorar isso, e chamar o filme de del Toro de plágio, como há quem faça até hoje, é ignorar mais de meio século de tradição mecha, e ainda correr o risco de ferir a integridade artística do diretor. Em português claro, é falta de pesquisa – ou, em certos casos, de neurônios mesmo.

Mesmo porque, poucas semanas após o lançamento do filme, del Toro e Beacham se prontificaram a esclarecer algo que já devia estar dando nos nervos de ambos: apesar de acusados de plágio, nenhum dos dois havia assistido Evangelion na vida! Abaixo, trechos de entrevistas com del Toro e Beacham, respectivamente:

“Eu nunca vi Evangelion. Eu admito Patlabor, [como uma influência] da indústria dos animes, ou, Tetsujin-28, eu não tenho nenhum problema em dizer ‘eu os amo’, ‘eles são uma influência pra mim’. […] Sim, existe a influência de animes [em Pacific Rim], mas não daquele anime em particular.”

– Guillermo del Toro

“Eu de fato amei muito Evangelion, mas na verdade eu escrevi boa parte de Pacific Rim antes de assistir NGE.”

– Travis Beacham

 

É evidente que, como amantes de animes e cultura otaku, ambos já tinham, no mínimo, ouvido falar em Evangelion. E talvez seja aceitável induzir que alguma “osmose artística” aconteça vez ou outra. Mas falar em plágio, ainda mais com relação a profissionais que deixam tão explícitas suas influências, e até suas não-influências, acaba sendo lamentável.

Como conclusão, vale repetir que Pacific Rim não é apenas um filme, é uma experiência. E uma que recomendo fortemente. A obra é uma amálgama de elementos apaixonantes da cultura otaku, e uma prova do potencial que Hollywood possui quando um diretor de destaque é bem intencionado. Vale lembrar que as filmagens de Pacific Rim 2 estão em andamento, e o lançamento está previsto para fevereiro de 2018. Caso o leitor ainda não tenha assistido Pacific Rim, esse erro pode ser corrigido sem pressa, dentro de um ano. E caso tenha, reassistir filme bom não é nenhum esforço, né? E em ambos os casos, não se esqueça de comentar sua opinião aqui no post! Até a próxima!


Referências & dicas de leitura:

CNET: Is ‘Pacific Rim’ a retelling of Japanese anime ‘Evangelion’?

Complexo Geek: A semelhança entre Pacific Rim e Evangelion

Den of Geek: Guillermo del Toro interview: Pacific Rim, monsters and more

Digibro: A Diatribe On Influences In Media – Lineage, Collaborations, and History

Digibro: Thoroughly Analyzing “Pacific Rim”

Ghost Lightning: We Remember Love

Screen Rant: Guillermo del Toro: ‘Pacific Rim’ Is NOT Japanese Monster Movie Homage

The Artifice: Pacific Rim: In-depth study of the influence of Anime

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