Yokohama Kaidashi Kikou: curtindo o apocalipse

A coluna de indicações do blog retorna em grande estilo! Conheça Yokohama Kaidashi Kikou, uma obra que é tão bela quanto desconhecida.

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Mono no aware (物の哀れ) é uma antiga expressão japonesa, que pode ser traduzida em algo como “empatia pelas coisas”, ou “se sensibilizar pelo mundo”. Num sentido mais amplo, a expressão remete a um sentimento de tristeza com a passagem do tempo, com a impermanência das coisas. É a percepção de que tudo muda, e inevitavelmente se emocionar com essa transitoriedade. Mono no aware é a melancolia que surge da contemplação.

A indicação de hoje é Yokohama Kaidashi Kikou, ou YKK, mangá publicado entre 1994 e 2006, posteriormente adaptado numa breve série de OVAs. E se algo pode ser dito sobre YKK, é sua retratação inigualável da ideia de mono no aware.

A história se passa num Japão pós-apocalíptico, embora nunca seja esclarecida a razão para o fim da sociedade como conhecemos. E nem precisa. Já acostumadas ao cenário de colapso social, as pessoas dessa história voltam a viver em cidades pequenas, abrem mão das regalias da tecnologia, e retomam o contato com a natureza. Elas simplesmente aceitaram a catástrofe ocorrida – seja ela qual for. Ao leitor/espectador, tudo que se sugere são uma irreversível elevação do nível do mar, com cidades e regiões inteiras submersas, e algumas referências à “erupção do Monte Fuji”. As estações do ano se fundiram umas às outras, muitas pessoas se foram. Mas, por alguma razão, as sobreviventes abraçaram uma vida pacífica e despretensiosa. Bem diferente do que vivemos atualmente…

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It’s the end of the world as we know it: vista da inundada Yokohama, com seus postes ainda funcionando

 

A atmosfera melancólica de Yokohama Kaidashi Kikou é comunicada segundo o dia-a-dia de Alpha Hatsuseno, uma robô que administra um isolado café à beira-mar. Ao contrário dos poucos humanos que conhece, Alpha não irá desaparecer do planeta tão cedo, e a vagarosidade de sua rotina carrega a gentil tristeza de quem sobreviverá à todo tipo de tragédia indefinidamente. Contudo, Alpha procura aproveitar cada dia ao máximo. Ela adora conversar com seus raros clientes e poucos vizinhos, visitar com sua lambreta a cidade de Yokohama (que dá título à obra) para fazer compras, tirar fotos do céu, esculpir em madeira e, claro, torrar e moer café.

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Alpha, e o prazer das coisas simples

 

Mesmo sendo “imortal”, a existência de Alpha num mundo cheio de ruínas e coisas enferrujadas nos faz perguntar: por quê as memórias de criações humanas deveriam receber um tratamento especial? Ao contrário da época em que tais coisas possuíam utilidade, a vida pacata que os humanos levam agora soa quase como uma sátira à antiga necessidade de produzir por produzir. Fabricar por fabricar e fazer por fazer. Talvez para as pessoas que sobreviveram ao apocalipse haja um sentimento coletivo de libertação. A sociedade não mais precisa encontrar justificativas e fins para suas ações. A tragédia foi tão grande que libertou as pessoas do senso de utilidade nas coisas. As coisas apenas são.

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Alpha, sua lambreta, e um mar de solidão

 

Por mais que a vida humana em Yokohama Kaidashi Kikou careça de significado, encontrou-se uma paz desconhecida e uma tendência à contemplação. Se um dia o homem tentou exilar a natureza e se tornar diferente dela, as ações imprevisíveis dessa mesma natureza induzem o homem num cenário de catástrofe a reaproximar-se dela. Seja pela sensação de perda, seja pela necessidade de cura. YKK talvez traduza, em algum sentido, uma inclinação que os japoneses apresentam de sempre repensar o mundo que os cerca, visto que o país tem um longo histórico de desastres naturais e antrópicos. E Alpha, por ser uma robô, serve perfeitamente como os olhos do leitor/espectador numa situação pós-crise para a humanidade.

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Robôs também sentem fome!

 

Com momentos divertidos, tocantes e nostálgicos, Yokohama Kaidashi Kikou é a perfeita definição do gênero slice-of-life. Em pleno “fim do mundo”, uma circunstância em que as pessoas são lembradas de sua finitude, vemos uma história que mostra literalmente uma fatia dessas vidas ordinárias. Uma desgraça aconteceu, então por quê não viver humildemente, com a sabedoria de que desgraças acontecem e que você pode sempre aproveitar os momentos pacíficos? Tire os sapatos, faça um café, e aprenda a curtir o apocalipse!

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