MAKOTO SHINKAI: UMA ANÁLISE FILMOGRÁFICA (PARTE 2 DE 3)

Através de uma diatribe em três partes, confira a dissecação da carreira de um dos diretores mais populares da atualidade. Nessa 2ª parte, nos confrontamos com a grande contradição das obras de Shinkai: apesar de focadas em personagens, estes são pouco desenvolvidos, e raramente fazem algum sentido lógico quando analisados mais a fundo.

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Aviso: spoilers de Kimi no Na Wa (e de toda a filmografia de Makoto Shinkai…)

Makoto Shinkai pode ser perdoado por alguns pequenos deslizes com relação aos elementos sci-fi (como mecânicas de viagem no tempo, o envio de mensagens de texto através do espaço, entre outros), afinal esse nunca foi o foco de seus filmes. Ficção científica serve apenas como background, um dos meios nos quais os personagens de Shinkai interagem. Agora, quando esses mesmos personagens e interações, que são o núcleo de suas obras, apresentam repetidas inconsistências, então é hora de reavaliar a própria essência de sua filmografia…

PARTE 2: A (IN)COERÊNCIA DOS PERSONAGENS

Em Hoshi no Koe pouco se extrai dos personagens, em parte devido à curta duração do filme. Uma menina, Mikako, e um menino, Noboru, são amigos de infância muito próximos; sentem um amor recíproco um pelo outro, mesmo que não declarado. Então, eles são separados pelas circunstâncias da vida (AKA aliens), mas continuam nutrindo seu sentimento mútuo, sofrendo com a distância e com sonhos não realizados. Bonito, não? Bem, seria bonito, se existisse algo além disso a compor suas personalidades, e assim enriquecer o roteiro. Toda a existência de Mikako pode ser resumida a “menina de 15 anos que gosta de amigo de infância de 15 anos”. O mesmo se aplica a Noboru. Caso não sejam claras as razões pra guria se engajar numa luta intergaláctica dentro de um mecha, você ainda poderia contra-argumentar dizendo que o filme é curto demais pra explorar essa faceta, ou que o pano de fundo de sci-fi já é explicação o bastante, visto que esse é o momento atual daquele mundo. Desse modo, por mais que os personagens de Hoshi no Koe estejam com suas sobrevivências em jogo, ainda assim é difícil se importar honestamente com eles. Como veremos se repetir adiante, o que redime Hoshi no Koe são os mesmo fatores que redimem quase todos os filmes de Makoto Shinkai: animação estupenda e trilha sonora primorosa. Aqui, ambos fazem muita diferença numa história simplória demais para seu próprio bem.

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Os mechas de Hoshi no Koe têm mais personalidade que seus protagonistas…

Pulando o segundo filme de Shinkai, Kumo no Mukou, por razões que explicarei mais pra frente, irei rapidamente sintetizar a falta de apelo dos personagens de seu 3º e 5º filme. Respectivamente, 5 Centímetros Por Segundo e O Jardim das Palavras. Em 5 Centímetros, temos literalmente o mesmo arco de personagens de Hoshi no Koe. Menino e menina, amigos de infância, se amam mas não se declaram, se separam com o tempo, você chora, e o filme acaba. Novamente, toda a personalidade deles se resume a esse único sentimento. E quando não é o caso, como no segundo ato, quando Takaki deseja viajar ao espaço e não corresponde ao amor de Akari, o que se tem é uma espécie de polarização do personagem: se a emoção predominante de Takaki não é “eu amo Akari”, só é possível que sua outra emoção predominante seja “eu não amo Akari”. Ou seja, não agrega nenhum significado à história ou à evolução narrativa de Takaki o fato de ele se interessar pelo espaço e considerar essa uma opção de carreira. Não, tudo isso serve apenas a um propósito: amar ou não amar Akari; o sentimento dela ser recíproco ou não. É tudo que esses personagens são capazes. Essa é a supérflua abrangência emocional de 5 Centímetros Por Segundo. Ou eles se amam mutuamente ou não, e de qualquer jeito eles não ficam juntos, seja lá qual for o motivo pra isso…

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Reciclando piada: os trens em 5 Centímetros Por Segundo têm mais personalidade que seus protagonistas…

Em Jardim das Palavras, mesmo com um pouquinho a mais de criatividade no estabelecimento dos personagens, novamente seus arcos dramáticos não possuem outra utilidade além de ressaltar seu amor mútuo ou não mútuo. Takao tem 15 anos e se apaixona por Yukino à primeira vista. Yukino tem 27 anos e se apaixona por Takao à primeira vista. Vá lá, alguma personalidade eles ainda têm, mas novamente é como se isso só estivesse ali em nome do amor recíproco que eles devem sentir: Takao é maduro apesar de sua idade, e isso irá compensar o fato de Yukino ser imatura para sua idade; Takao sonha em ser sapateiro, se sente incompreendido por sua família distante emocionalmente e deseja fugir desesperadamente de sua situação atual; o que o leva a conhecer Yukino, alguém que foi sabotada na escola onde dá aula (por sinal, a mesma de Takao) e que não possui amigos, família ou marido, e deseja fugir desesperadamente de sua situação atual. Os anseios de ambos por fuga, e por uma proteção contra a crueldade do mundo, os leva a se aproximarem, a metaforicamente fugir para dentro da chuva. Eu poderia continuar com isso o dia todo, mas percebe onde quero chegar? Tudo, todos os traços de personalidade, todo o caráter e todo o backstory desses personagens está ali somente para eles… amarem um ao outro. Essa é a única catarse atingida pelo filme. Takao e Yukino são fantasmas vazios, são avatares. E novamente, o que salva os filmes citados são a animação impressionante, e a trilha sonora, muitas vezes com ótimas músicas cantadas ao invés de canções instrumentais (“One More Time, One More Chance” em 5 Centímetros e “Rain” em Jardim das Palavras).

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O Jardim das Palavras: tanta chuva pra nada?

Caso os personagens de Makoto Shinkai ainda não tenham cativado seu coração, uma nova chance para isso reside em Hoshi wo Ou Kodomo. Adivinha? Menina de 15 anos inexplicavelmente se apaixona por menino, e o menino… morre. É, isso muda um pouco o cenário. Entretanto, a surpresa é que o menino tem um irmão gêmeo. Conveniente, não? De todo modo, Hoshi wo Ou Kodomo diverge das outras obras do diretor por seguir um rumo fantástico, ao invés de urbano ou sci-fi. Entretanto, não apenas a construção de mundo é pouco convincente (apesar de visualmente bela), com um mundo subterrâneo cujo céu é idêntico ao céu na superfície (?), mas os próprios personagens carecem de emoções inteligíveis, carisma, motivações claras (ou até qualquer motivação). De fato, por quê a protagonista foi parar naquele mundo mesmo? Ela queria ressuscitar seu pai ou o menino por quem ela acabara de inexplicavelmente se apaixonar em 15 minutos de filme? Ou não era isso? E o professor, que apesar de ser o único cuja motivação foi explicada, oscila entre ser um cara legal, depois um cara frio, depois um cara arrogante, depois um cara meio megalomaníaco, depois legal de novo… Shinkai parece querer, com Hoshi wo Ou Kodomo, satirizar nosso péssimo hábito ocidental de chamá-lo de “o novo Miyazaki”. Se o esforço aqui foi sarcástico, Shinkai acertou em cheio.

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Acredite se quiser: Hoshi wo Ou Kodomo não é do Studio Ghibli

Por último, os únicos triunfos do diretor no estabelecimento de personagens: Kumo no Mukou e Kimi no Na Wa. No primeiro, esse triunfo sinceramente me parece golpe de sorte, enquanto no segundo pode ser que Shinkai tenha enfim aprendido com seus erros. Vamos por partes. Em Kumo no Mukou, a história não gira em torno de amores impossíveis, mas em amizades abaladas pelo tempo. Na obra, quando há um arco romântico entre dois personagens, esse arco não é o principal, e sua resolução eventualmente não orbita nos clichês de Makoto Shinkai (distância, reciprocidade, sonhos impossíveis, etc.). Pelo contrário, o casal fica junto no final, sem melodrama e sem forçar a barra. Mas por quê isso soa como um golpe de sorte? Talvez por ser apenas o segundo filme do diretor. Sua fórmula ainda não estava consolidada. Tudo ainda fazia parte de seus anos de tentativa-e-erro. Ao atirar pra todo lado, Shinkai por acaso esculpiu uma boa obra. Kumo no Mukou não é ótimo, mas considerando que o carro-chefe do diretor são seus personagens e as relações entre eles, o filme se sustenta muito bem com os momentos de declínio e posterior redenção na amizade dos protagonistas Hiroki e Takuya. A evolução da interação entre eles tem algo de Simon e Rossiu, de Gurren Lagann. Enquanto um é apaixonado e expressivo, o outro é racional e fechado. Suas diferentes personalidades, e os conflitos advindos disso, contribuem com a condução sóbria da história.

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Hiroki e Takuya: uma amizade complicada, mas que move o roteiro de Kumo no Mukou

Por fim, o magnum opus de Makoto Shinkai: Kimi no Na Wa. Aqui, novamente, os personagens carecem totalmente de qualquer complexidade. A personalidade de Taki não vai mais longe do que “menino, colegial”; enquanto Mitsuha seria “menina, colegial”. Tudo bem, há mais que isso, há sim um detalhe ou outro que os caracterizam. Taki é irritadiço, mas gentil. Mitsuha é rebelde, mas tende a reprimir esse impulso. E isso é tudo. Entretanto, e é por isso que Kimi no Na Wa é o filme mais sofisticado de Shinkai, essas personalidades rasas são intencionais. Taki e Mitsuha funcionam melhor como arquétipos simples, do que como personagens densos, pois a intenção é que o espectador se coloque no lugar deles com mais facilidade. Metalinguisticamente, numa história sobre troca de corpos, me parece esperta a ideia de Shinkai de que o espectador vista a pele desses personagens. Assim, ao assistir ao filme, você troca de corpo junto com eles. A experiência se torna mais vívida, mais pessoal. E uma vez que o diretor tira do caminho, de forma engenhosa, sua maior deficiência, o enredo pode se desenrolar livremente. Portanto, Kimi no Na Wa possui, de longe, a narrativo com ritmo mais agradável na carreira de Shinkai, e uma animação com o melhor polimento até aqui. Afinal, parece que enfim o diretor encontrou um equilíbrio entre seus cenários e seus personagens. Nos outros filmes, não era incomum vermos paisagens estonteantes, ambientes com iluminação perfeita, em incômodo contraste com personagens duros, mal animados e de design duvidoso no geral. Eram como bonecos de palitinho na frente de um quadro do período neoclássico. Em Kimi no Na Wa, primeiro e segundo plano não destoam, mas harmonizam-se suavemente. Sem contar (preciso repetir?) com uma incrível trilha sonora, dessa vez inteiramente composta pela banda Radwimps.

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Fluidez visual, narrativa, sonora… Shinkai está afinadíssimo em Kimi no Na Wa!

Apesar do inegável acerto que Kimi no Na Wa representa na filmografia de Makoto Shinkai, ainda há uma pulga atrás da orelha dos mais atentos. Pois, em verdade, Kimi no Na Wa talvez seja tão somente a consolidação da identidade autoral do diretor. O lugar a partir do qual ele poderá crescer. Seu primeiro sinal claro de amadurecimento cinematográfico. Não é seu auge. E é aqui que mora o perigo. Se Shinkai realmente é um artista superestimado, não seria inimaginável seus fãs confundirem sua ascensão com seu ápice. Esse pode até ser seu auge comercial, mas NUNCA seu auge artístico. Porém, se existe tal confusão, qual poderia ser a origem dela? Isso é o que exploraremos na parte 3. E até lá, curta, compartilhe e comente sua opinião! E claro, fique ligado no Otaku Pós-Moderno pra não perder nenhum post dessa diatribe!

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