Storytelling em Mushishi

De quantas maneiras Mushishi pode ser abordado? Assistir a esse anime seria comparável a assistir qualquer outro anime? Ou Mushishi talvez se revele uma experiência mais íntima episódio a episódio?

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Aviso: o conteúdo do texto a seguir é O% científico e 100% sentimental. Recomendo ler ouvindo a trilha abaixo, uma das minha favoritas da primeira temporada de Mushishi.

Desde que comecei a assistir Mushishi, minha mente foi capaz de criar uma narrativa coesa de eventos. Um arco em ritmo lento, conduzindo não-linearmente, e por vezes ciclicamente, uma sucessão de pensamentos e emoções. Tendo início em junho, e finalizando recentemente, em dezembro – por mais que a própria noção de “início” e/ou “fim” seja pouco aplicável nesse caso. Do modo como eu vejo, as coisas já estavam acontecendo antes do começo, e continuarão a acontecer, após essa assim chamada conclusão. É claro, estou falando do anime em si, mas também, ou principalmente, do meu próprio enredo.

Mushishi retrata um mundo em seu auge, e parece não se interessar em apontar “onde” ou “quando” os fatos ocorrem – mais ou menos como a nossa vida real. Sua mitologia é antiga, indo muito além de onde os olhos alcançam. E é quase como se o espectador recebesse uma permissão para visualizá-la. Uma janela, por um breve momento no tempo, é aberta; e o que você vê é um universo que respira, a chance de testemunhar algumas poucas histórias que simplesmente estão ali. Com ou sem o seu olhar e a sua curiosidade, essas histórias ainda estariam ali. Mushishi me dá essa impressão de que o que eu estou assistindo é completamente desassociado à minha posição de espectador. Ginko vive a vida dele não importando o que você pense disso. A vida é dele. Ela existe. Ginko, em si, existe.

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Conforme essas histórias vão sendo contadas, Mushishi constrói seu cenário bem lentamente, usando músicas delicadas e cores sutis, te convidando a pertencer a uma história mais vasta. Uma ambientação silenciosa, uma fotografia misteriosa, contos reticentes e personagens densos. Embora te dê apenas fragmentos, ao mesmo tempo a série instiga sua imaginação. Assistir a Mushishi requer um certo estado de espírito, um certo mindset. Seus sentimentos devem entrar em sincronia com o fluxo daquele mundo.

E por quê essa foi uma experiência pessoal tão profunda pra mim? Bem, eu levei seis meses para assistir à série completa, cerca de 50 episódios, incluindo OVAs e especiais. Ao longo do último semestre, eu treinei e trabalhei obsessivamente sete dias por semana. O ano acabou. Mushishi e eu andamos ao lado um do outro através do tempo. E isso me faz pensar sobre a própria natureza do que seria uma narrativa. Um conjunto de fatores e condições permeando-se em meio a estrutura da nossa vida diária como a percebemos. Ou, a música e as cores de uma rotina. Seus hábitos cotidianos, sua linha de raciocínio ordinária, a linearidade das suas emoções. Seus altos e baixos. Uma curva ascendente, vinda diretamente da lama, atingindo um excêntrico clímax – imediatamente perdido no tempo. E então o próximo capítulo, variando em seus aspectos, porém seguindo uma mesma constituição. Uma história que nunca termina.

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A verdadeira arte por trás da vida de Ginko reside no fato dele ser um andarilho. Não há um único elemento físico mantendo o controle do tempo ao redor dele. Calendários, diários, relógios – nada. Sua existência não está amarrada à palavras ou números. Seus poros e veias são mantidos bem abertos. Ele segue somente o vento, e vive somente de acordo com as estações. Por ser assim, Mushishi sugere uma sensível imagem: uma narrativa em espiral. Eventos difusos de um enredo, compondo uma teia mais ampla e complexa do ato de contar histórias. Como afirmei antes: sem início, sem fim. Só a vida como ela é. Ocorrendo, acontecendo, sendo. Assistir a Mushishi é observar sua própria história, bem diante de seus olhos. Mushishi é um déjà-vu. Um calafrio.

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