Um inusitado paralelo entre Hibike! Euphonium e Sangatsu no Lion

Dois animes completamente diferentes entre si. Mas que, por acaso, acompanhei ao mesmo tempo. E por mais que Sangatsu no Lion ainda não esteja concluído, consegui encontrar pontos em comum nas duas obras, e pretendo destrinchá-los o melhor que puder a seguir.

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Tanto Euphonium quanto Sangatsu tem o desenvolvimento de suas histórias acompanhando a trajetória principalmente (e por vezes exclusivamente) de seu protagonista. Oumae Kumiko em Euphonium; e Kiriyama Rei em Sangatsu. Ambos percebem a si mesmos num ambiente dominado por uma única atividade que sempre os definiu como pessoas. Kumiko toca eufônio na banda de sua escola desde a quarta série, por influência de Mamiko, sua irmã mais velha. Inicialmente por admirá-la, e com o tempo por uma questão de rivalidade. Contudo, a história começa num momento em que Kumiko não sente mais paixão pelo instrumento, e nem mesmo por música de forma geral. Ela está prestes a entrar no ensino médio, sua primeira mudança de escola, e portanto sua primeira chance de recomeço, com a possibilidade de ingressar em outras atividades e quem sabe descobrir uma nova paixão. Rei joga shogi desde que consegue se lembrar, mas foi com a perda dos pais ainda criança que decidiu entrar de cabeça no esporte, eventualmente se tornando profissional e sendo considerado um prodígio. Porém, admite que nunca amou shogi, que só jogava pois assim podia passar mais horas perto de seu pai, e em tempos recentes vem questionando seu próprio empenho nessa carreira. Apesar de backgrounds bem distintos, os dois protagonistas se encontram numa circunstância semelhante em suas jornadas pessoais. A própria vida parece ter perdido o brilho, e mesmo a atividade mais presente na juventude de cada um começa a se tornar invisível em meio à rotina.

Desmotivados e sem perspectivas adiante, Kumiko e Rei estão vivendo no passado. É interessante nesse ponto observar as metáforas que cada anime utilizou para retratar tais condições: Kumiko anda com um chaveiro em sua bolsa que remete a música e instrumentos de sopro, e é constantemente atormentada pela lembrança de sua última apresentação, quando sua antiga escola não se classificou para o circuito nacional. Na ocasião, sua colega de banda Kousaka Reina explodiu em lágrimas. Kumiko apenas a encarava, confusa, perplexa com o fato de alguém sentir algo tão intenso por música. Algo que ela própria sentiu um dia – e talvez ainda sinta, mesmo sem notar. Afinal, fica subentendido que Mamiko viveu algo semelhante, precisando em certo ponto deixar o eufônio de lado e se concentrar no vestibular. Ter foco num futuro concreto ao invés de associar paixão a uma opção viável de carreira. Isso se refletiu em Kumiko, pois uma vez que sua irmã era seu modelo, automaticamente a música para Kumiko também deveria ficar em segundo plano. Ela recondiciona seus sentimentos inconscientemente, visando manter-se no caminho que sua irmã trilha. Desse modo, não sofrerá, como Mamiko.

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Kumiko e Reina, longe de entenderem uma à outra no começo

Em Sangatsu no Lion, Rei tem frequentes sonhos lúcidos, sempre relacionados a raízes envolvendo seu corpo e o impedindo de caminhar, ou água e a sensação de estar se afogando. Clara alusão à depressão. Dentre as memórias que o atormentam, a que se destaca é de quando foi chamado de “nada”, uma pessoa insignificante, pela filha da família que o adotou. Mesmo sendo uma criança solitária, que eventualmente sofria bullying, as cicatrizes mais profundas de Rei são dessa época em específico. Quando se sentia um estranho no ninho, e graças a seu talento no shogi passou a ser invejado por seus irmãos de criação. Desejando ser alguém normal com todas as forças, Rei possuía um dom que chamava a atenção de todos, e o reconhecimento que recebia por algo que fazia, em detrimento de simplesmente estar vivo, aos poucos pareceu lhe usurpar o direito de existir. Shogi deixava de ser um mero jogo e se tornava uma razão pra se viver. Um escudo, mas também uma válvula de escape.

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“Eu e o shogi estamos ligados por uma mentira”

Como seguir em frente, com a vida adulta se aproximando, e com talentos naturais que todos parecem apreciar menos seus próprios donos? Como investir emocionalmente em algo se essa mesma coisa parece já ter te traído no passado? É nessas perguntas que Hibike! Euphonium e Sangatsu no Lion se amparam, com o estudo de personalidade de dois protagonistas vivendo em contradição.

Se para Rei em Sangatsu no Lion ainda não podemos avistar a resolução, em Euphonium tivemos uma memorável catarse no final da primeira temporada, por exemplo, em que Kumiko passa a se inspirar na paixão que Reina sente pela música. As duas se aproximam e desenvolvem uma relação de amigas/rivais, algo que Kumiko provavelmente resgatou de sua infância com sua irmã mais velha. Depois de muitos meses de inação, Kumiko enfim se dá conta que  convive somente com músicos,  pertence à banda do colégio novo, tocando eufônio novamente, e que todos  concordaram em alcançar o concurso nacional. É quase como se seu destino a conduzisse. Toda vez que Kumiko não age, o eufônio e a música é que agem por ela. E é só quando ela fica sozinha com Reina e vê sua determinação, que Kumiko sente uma faísca percorrer seu corpo. Ela então sai do piloto automático e decide entregar tudo de si à música. Seu dom deixa de ser um fardo e se torna uma bênção, pois agora Kumiko quer se aprimorar, se autoafirmar e eventualmente compensar o passado. Ela volta a ter ambições. E numa cena simbólica, se desvencilha da projeção que tem de Mamiko. Ao chegar em casa tarde, depois de outro dia inteiro praticando, sua irmã a provoca e diz que Kumiko precisa se concentrar mais no futuro. Sem perder a calma, e vivendo totalmente o momento, Kumiko fecha a cara e começa a praticar no meio da casa, noite afora. Ela está só no primeiro ano do colegial, com as classificatórias nacionais se aproximando, e com um desejo ardente de evoluir na música; porque deveria pensar em vestibular? Porque voltar a seus dias de hesitação? Pela primeira vez em muito tempo, Kumiko sente vitalidade ao tocar. E ao viver! É seu momento máximo. O arco dramático de Kumiko se fecha, ela reencontra a si mesma, e daí em diante a primeira temporada de Hibike! Euphonium entra em sua reta final com louvor.

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“Eu entendi como a Reina se sentiu daquela vez”

Se Sangatsu no Lion terá um clímax remotamente semelhante, isso só será revelado quando o anime acabar, em abril. Entretanto, mesmo que tomem estradas divergentes daqui pra frente, é curiosa por si só a forma sutil como dois animes, que na superfície não possuem nada em comum, revelem personagens parecidos em muitos aspectos. Caso as coincidências prevaleçam, eu imagino que seria interessante assistir Rei ficando mais forte e assumindo controle sobre sua própria vida. Superando seus traumas e, assim como na primeira ending de Sangatsu, olhando cara a cara seu eu de tempos passados. Um Kiriyama Rei adulto que não pareça um impostor barato na visão do Kiriyama Rei criança que o observa de dentro de seu coração. É esperar pra ver.

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