A humanidade escancarada de Kuzu no Honkai, parte 1

Ou (o estudo de um mangá, através do estudo de um personagem, através do estudo de uma frase dita por esse personagem).

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Aviso: spoilers do mangá de Kuzu no Honkai.

Aviso 2: confira aqui a parte 2 sobre Kuzu no Honkai.

 

Kuzu no Honkai estreou há poucos dias. O anime é o representante da temporada do bloco Noitamina – que aos poucos tenta voltar à velha forma. O mangá vem sendo publicado desde 2012, e sua conclusão está programada para o fim de março, concomitante ao término do anime.

O cenário de Kuzu no Honkai é um drama adolescente focado majoritariamente nos seus personagens e nas interações entre eles. Na história, Mugi e Hanabi formam um casal de fachada, mantendo para o mundo a imagem de que são namorados perfeitos. Entretanto, eles compartilham um segredo: ambos perseguem amores supostamente impossíveis, e estão admitidamente usando um ao outro para amenizar a solidão. Mugi gosta da professora Akane, que foi sua tutora particular há alguns anos. E Hanabi gosta do professor Kanai, antigo amigo de sua família, com quem ela convive desde a infância. Lamentando seus sonhos não correspondidos e se deixando levar por seus impulsos físicos, Mugi e Hanabi formam um desesperançoso pacto, e o enredo será conduzido por esses personagens pouco louváveis.

Não pretendendo me alongar muito com a história, usarei esse texto apenas para me aprofundar especificamente em Mugi, ou naquilo que pode-se concluir dele até aqui. Tenho dois motivos pra isso: primeiro, o fato da história ainda não ter sido concluída; e segundo, há uma frase de Mugi que, pessoalmente, me comoveu bastante. A ponto de ficar com ela na cabeça por dias, até enfim escrever um texto inteiro analisando-a.

 

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A sentença transcrita do quadro acima é: 俺の思春期どうにかしてください (ore no shishunki dōnika shite kudasai), e pode ser traduzida em algo como “por favor, me ajude a lidar com a minha adolescência”. Quando a li pela primeira vez, senti como se fosse familiar, algo que eu provavelmente já tenha dito um dia para alguém. Ou que talvez todo mundo já tenha dito. Puberdade é uma época, no mínimo, esquisita, e o pedido de Mugi soa tão genuíno e verossímil que é difícil não se relacionar.

No contexto dessa frase, Mugi se vê encurralado. Ele e Hanabi não se falam há dias, e ela é a única pessoa que sabe de seu segredo, o interesse romântico por Akane-san. Solitário, deprimido e, principalmente, entediado, Mugi decide ligar para Mei, ex-colega que durante certo período foi sua sex buddy. Ao se encontrarem, imediatamente vão para um motel. A frase, portanto, não é dita, mas pensada. Mugi vê Mei pela primeira vez em algum tempo, e é quase como se sua consciência gritasse aquelas palavras.

どうにか (dōnika shite) expressa a ideia de “de alguma forma”, como se você não soubesse exatamente como ou porquê solucionar um problema, mas queira apenas solucioná-lo. Portanto, どうにかしてください (dōnika shite kudasai) seria algo como “por favor, me ajude de qualquer forma que puder”. Basicamente, as coisas não estão indo bem, e eu só preciso de salvação, qualquer tipo de salvação. É sim um grito por ajuda de Mugi, mas é tão desesperado que pouco importam as medidas. Contudo, graças ao “por favor”, é como se ainda houvesse uma certa formalidade, uma educação ao encobrir a real urgência do pedido, visto que é feito para alguém de fora do convívio de Mugi. Ou então há outra possibilidade… dizer “por favor” pode significar o gesto de implorar, quase como um “pelo amor de deus”.

 

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Na tradução do mangá para inglês, outras camadas ainda podem emergir. Nesse caso, fica nítido que uma boa tradução não é aquela que impõe limites à liberdade interpretativa de cada língua, mas aquela que justamente se utiliza dos vários significados que uma sentença bem trabalhada permite. Se algo, inevitavelmente, se perde na conversão entre línguas, é a função de um bom tradutor preencher essa lacuna de forma criativa quando for possível. Ou temos aqui apenas um golpe de sorte…

De todo modo, “please help me through my adolescence” apresenta uma leitura interessante graças ao termo sublinhado. “Through” pode ser traduzido tanto como “através” quanto, se alguma licença poética for bem-vinda, “por meio de”. No primeiro caso, a frase possuiria a ideia de uma súplica urgente, ligada precisamente à ideia de atravessar algo. Mugi estaria dizendo a Mei que deseja apenas sobreviver através dessa fase; me dê a mão e me ajude a vencer mais esse sábado infame da minha juventude. No segundo caso, “por meio de” traz a ideia de instrumento, utilizado na execução de determinada ação. “Me ajude, por meio da minha adolescência”, ou seja, se aproveite justamente do fato de sermos jovens para resolver meu problema. Resolva-o como somente um jovem resolveria: com sexo inconsequente.

Mugi é um poço de melancolia, e isso provém diretamente de sua falta de obstáculos ao lidar com a vida. Tudo é fácil para Mugi. Ele vai bem na escola sem precisar estudar, faz sucesso com as gurias e é admirado pelos guris. Mugi nunca precisa se esforçar pois parece possuir um talento natural pra resolver tudo ao seu redor. E quando nada parece te desafiar, quando você se encontra acima de tudo e de todos, você se torna um casco vazio. Então, com a chegada da adolescência, Mugi passa a responder ao único estímulo que trás algum senso de realidade à sua vida. Como diz à própria Mei: “eu só senti que existia de fato quando senti o calor do seu corpo”. E é seguindo sua cabeça de baixo que Mugi procura – e encontra – todo tipo de tragédia imaginável…

 

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Inclusive, é devido a sua melancolia e seu complexo de superioridade que Mugi se apaixona por Akane-san. Como se ela representasse uma espécie de utopia final. É a única coisa que ele não pode ter. O único estímulo à altura de alguém que vive sem se sentir estimulado. E não tê-la é, com exatidão, a força motriz de Mugi. Kuzu no Honkai ainda não foi concluído, contudo em poucos meses saberemos se Mugi alcançou ou não sua utopia – e, portanto, a profundidade da lama em que ele se afundará com isso.

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