Ascension! Méritos e deméritos de Occultic;Nine

Há mesmo um motivo para Occultic;Nine receber tanta antipatia? Para aqueles que desistiram no primeiro episódio, e para os bravos que foram até o fim, essa defesa de caso talvez mude sua opinião. Ou talvez apenas a reforce.

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A cena de um crime. Luz apagada. Sangue. Um corpo. Uma arma branca. Uma vítima famosa, de renome no meio científico, mas que nunca aparentou ser do tipo que precisaria ser “silenciada”. Uma morte misteriosa, seguida de eventos inexplicáveis, ainda mais misteriosos. Um jovem que, por acaso, se vê na cena do crime. Lugar errado, hora errada. A morte é recente, o sangue ainda está fresco. Choque. Medo. Medo de ser considerado um suspeito. Medo por ver algo tão incomum. E medo devido a uma sensação que não o abandona… a sensação de estar diante de algo que mudará sua vida para sempre. Não pelo absurdo da cena, mas pela intuição de que aquele crime significa muito mais do que aparenta. Uma singela peça de um enorme quebra-cabeça.

A sinopse acima é de Occultic;Nine. Contudo, caso ela tenha feito tocar outros sinos dentro de você, é porque existe outra história com uma introdução muitíssimo semelhante – Steins;Gate. Apesar de inevitável a comparação inicial, O;N segue seu próprio rumo narrativo. Mas infelizmente esse caminho foi tortuoso, e há muito mais fatores a serem questionados do que exaltados na obra. Os motivos pra isso eu explico a seguir, inclusive o porquê das duas histórias partirem de uma premissa tão igual, para no fim te darem a impressão de estarem “separadas pelo comprimento de onda”.

Seguindo os acontecimentos pós-assassinato, a trama de Occultic;Nine se entrelaça às vidas (e mortes) de nove personagens, despejando freneticamente uma série de informações sobre cada um deles, em diálogos que beiram a insanidade. Esse certo destempero, somado ao character design duvidoso de determinada personagem, foram responsáveis por alienar boa parte do eventual público de Occultic;Nine. O anunciado foi: “anime do mesmo criador de Steins;Gate”. E o obtido, para muitas pessoas, foi intragável demais para se querer acompanhar a história semanalmente. Talvez a obra mais polarizadora dessa temporada de Outono de 2016, Occultic;Nine de fato ofereceu resistência, seja pela verborragia, seja pelos… peitos. E que peitos! Até o otaku mais pervertido há de concordar que aquela peitaria toda não é sexy, muito menos harmoniosa. A bem da verdade, Ryo-tas provavelmente terá algum problema na coluna antes dos 30, e dificilmente será capaz de praticar algum esporte que não seja Keijo. Mas deixando isso de lado…

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Jogo dos… dois… grandes erros

Ultrapassada a barreira dos primeiros episódios, O;N se torna cada vez mais intrigante. Seu ritmo acelerado se mantém, e a essa altura já fica evidente que o tom da obra não irá mudar. Porém, a diferença é que alguns dos mistérios propostos no início começam a ser revelados. Surgem respostas, ao mesmo tempo em que mais e mais perguntas são feitas. No todo, essa característica prevalecerá até os instantes finais: a cada nova resposta, três ou quatro novas perguntas. A história se torna gradualmente mais complexa, e irá abranger temas antes inesperados – vida após a morte, mediunidade, magia negra, contestação de fatos históricos, viagem no tempo, e assim por diante. E mesmo fazendo uso de conceitos tão diferentes entre si, O;N não perde a coesão no que tange à sua própria mitologia. Em suma, tais conceitos operam como mera retórica na construção do mundo. Muitas vezes, fenômenos paranormais e ocultismo são apenas palavras que assumem significados diferentes na percepção de cada personagem. Por exemplo, Aria e seu “demônio particular” chamam de viagem astral aquilo que o detetive Moritsuka descreve como experiência extracorpórea, enquanto Asuna chama somente de “poderes”. Os colegas de Asuna, por outro lado, identificam tudo isso como fatores advindos de mediunidade. Variados termos, para ideias convergentes. Fácil de se confundir, não? Occultic;Nine, conceitualmente, não é tão complicado – apenas se esforça em não ser prontamente compreendido. Esparrama palavras em todas as direções, e causa um verdadeiro rebuliço quando poderia (e deveria) ser mais direto e objetivo com seu espectador. Só que, novamente, isso não te lembra Steins;Gate? Tudo bem, com a diferença que S;G soube dosar sua chuva conceitual depois de algum tempo, preferindo se focar nos dramas cada vez mais internos de seus personagens, abrindo uma larga avenida emocional diante de si no exato momento em que o público mais se sente fisgado. Nesse ponto, Steins;Gate é bem mais efetivo que Occultic;Nine. S;G é cruel. É impiedoso com seus sentimentos e, justamente por isso, tão lembrado e amado até hoje. Existe tempo e uma cadência cuidadosa. Você está investido na obra antes de perceber, e ela te recompensa por isso. São precisamente esses os fatores que não estavam presentes em Occultic;Nine. Mesmo que seja intrigante, sua mitologia insiste em parecer aleatória, jogada aos quatro ventos, e quando o anime poderia se conter, adquirir um ponto focal, opta por continuar espalhafatoso. E depois de algum tempo, fica difícil dizer se a obra está te superestimando ou te subestimando.

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Gamon Yuta quebrando a quarta parede

De certa forma, no entanto, é até compreensível a forma confusa com que O;N se apresenta. Explico: seu caos narrativo provém quase diretamente de um caos editorial. Pensado inicialmente em 2010 por Chiyomaru Shikura (CEO da 5pb. e mente pensante por trás de todo o universo “;”), Occultic;Nine ainda não atingiu, em nenhuma mídia, seu esplendor ideal. Publicado como light novel em 2014, foi cancelado no segundo volume, em 2015. As vendas, aparentemente, não andavam bem. Shikura nunca confirmou esse fato, e na primeira oportunidade que teve, anunciou que O;N funcionaria melhor no formato visual novel, sendo readaptado e continuado pela 5pb. em 2017 – não sem antes passar pela presente adaptação para anime em 2016. O que se presume são duas coisas: primeiro, talvez Shikura tenha tido dificuldades na mudança de formato, visto que sempre trabalhou somente com visual novels, e nunca com light novels; segundo, seja como for, o caráter experimental do anime de Occultic;Nine provavelmente é fruto de, justamente, experimentação. Afinal, não há um material fonte proveniente da 5pb., como costumava ocorrer. Além disso tudo, devemos considerar que Shikura não é escritor. Nunca foi. Criou o conceito original, produziu e chefiou as equipes responsáveis pela série Science Adventure, composta por Chaos;Head, Steins;Gate e Robotic;Notes – mas jamais pegou numa caneta. Essa função pertence a seu colaborador de longa data, e escritor de todas essas obras, Naotaka Hayashi. Occultic;Nine é a estreia de Shikura como escritor. E, infelizmente, dá pra perceber. Inclusive, há quem diga que a relação dos dois não tem sido das melhores (nota pessoal: não reencontrei a fonte que citava esse fato). Após uma disputa judicial, aparentemente Shikura agora é o detentor único das obras da franquia “;”. Entretanto, os próximos títulos (começando por O;N) se passam em uma linha de tempo alternativa desse universo, quebrando a promessa de que haveria uma 4ª e última obra de Science Adventure, após Robotic;Notes. Se tudo isso for verdade, Occultic;Nine é um recomeço, uma nova tomada de rumo na carreira de Shikura. Vale citar, também, que no próprio anime de O;N algumas leves referências são feitas ao universo da série Science Adventure, mais especificamente Steins;Gate, seja fanservise, seja como mera homenagem, seja como provocação a Naotaka Hayashi. A primeira vez que isso aconteceu é no episódio “The Dream’s Dream”, quando o detetive Moritsuka conversa com alguém ao celular e conclui o diálogo dizendo “El Psy Kongroo”. Há quem dê certeza que do outro lado da linha estava Okabe Rintarō… Em outra circunstância, no episódio “Future Days”, novamente o detetive faz uma referência. Conversando sobre viagem no tempo com Kiryū Kusakabe (o demônio particular de Aria), Moritsuka parafraseia a triste constatação de Suzuha em Steins;Gate – “eu falhei, eu falhei, eu falhei, eu falhei…!”. Em ambos os casos, entretanto, pode-se também afirmar que o detetive está apenas deixando escapar seu assumido lado nerd, uma vez que o próprio Chiyomaru Shikura já afirmou em entrevista que as obras de Science Adventure existem no mundo de Occultic;Nine. Ou seja, é como se Moritsuka as tivesse lido, e gostasse de citá-las a esmo.

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Eu já ouvi isso em algum lugar…

Mesmo com seus percalços, Occultic;Nine nos permite, sim, desfrutar de uma boa história. Em suma, trata-se de uma conspiração arquitetada pelo conglomerado corporativo Narusawa, que usa o sistema como fachada. Seus membros causam o suicídio em massa de 256 pessoas através de sugestão hipnótica. A tragédia, apelidada de “incidente 256”, não passa de um teste. Segundo os estudos de Nikola Tesla, a consciência de uma pessoa morta se mantém ativa durante algum tempo na forma de ondas eletromagnéticas. Ou seja, espíritos não passam de energia estática residual. Os 256 novos fantasmas perambulando por Kichijōji comprovam a teoria do grupo Narusawa de que a consciência pode ser preservada indefinidamente, desde que submetida a ondas específicas. Imortalidade, portanto. Conspiradores megalomaníacos desejando a vida eterna, causando distúrbios assustadores no mundo dos vivos. É nesse contexto que nossos nove ocultistas irão interagir.

Com uma animação bastante estável pelo estúdio A-1 Pictures, uma escolha de paleta de cores muito interessante (meio washed out, mas ainda assim com tons brilhantes em alguns momentos, e de um preto profundo em outros), um character design bem único (exceto por aquilo…), direção e cinematografia imprevisíveis, trilha sonora tão absurda quanto o enredo, e uma ótima opening cantada pela ótima Kanako Itō (como é tradicional em todas as obras do universo “;”), Occultic;Nine se posiciona bem acima de todo o ódio que recebeu quando estreou. Seu próprio título, por exemplo, revela o nível de sutileza que pode existir na obra. Isso se revela no sétimo episódio, quando somos introduzidos à personagem Asuna Kisaki. Com sua inserção no grupo principal, passamos a ter dez, e não nove ocultistas. Mas o título não diz nove? E o que significa oculto, portanto? Desse momento em diante, é como se, do ponto de vista de cada personagem, ele próprio fosse o Occultic, acrescido de outros nove não ocultos/ocultistas. Asuna é a única inquestionavelmente viva, cercada de nove pessoas cuja condição é discutível. Sarai é um cientista, como seu pai, e o único relutantemente cético, diante de nove paranormais, portanto ele é o único que oculta seu lado mais espiritual. Gamon (dublado pelo grande Yuki Kaji) frequentemente se sente inferiorizado pelos outros nove, que possuem talentos e investigam os mistérios sem hesitação aos seus olhos; ele sente que sua verdadeira capacidade está, adivinhe só, oculta. A delicadeza desse detalhe também aparece na abertura, onde vemos uma Aveline Narusawa Tesla contemplativa, caminhando pela cidade chuvosa, segurando em suas mãos nove bolinhas de gude – e eventualmente as deixando cair e afundar numa poça.

No fim das contas, apesar de Occultic;Nine ter pontas soltas e uma boa dose de protagonismo no seu fechamento, ainda assim se revela uma experiência proveitosa no todo. Injusta se comparada à Steins;Gate, fato pelo qual eu devo me desculpar com algum atraso. Não obstante, O;N consegue se sustentar isoladamente, graças a inventividade de seu criador, Chiyomaru Shikura. Partindo de elementos familiares de criações anteriores, como a presença de uma grande conspiração, ou como a linha tênue que separa ciência e misticismo, ressaltada pela criativa intervenção a teorias fantasiosas da mente humana (e se um acelerador de partículas pudesse criar um buraco negro? E se, ao morrer, nossa consciência pudesse ser sintonizada através de ondas eletromagnéticas e preservada no éter?), Shikura novamente consegue entregar um conto somente possível no século XXI. Mais do que isso, intrínseco ao século XXI. Uma lenda moderna perfeitamente verossímil, mesmo que dentro de seus limites fantásticos.

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